Crítica – Relic

Relic é um daqueles típicos filmes de horror que dividem críticos e audiências um pouco por todo o mundo.

Relic
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Sinopse: “Quando Edna (Robyn Nevin), a matriarca idosa e viúva da família, desaparece, a sua filha Kay (Emily Mortimer) e a sua neta Sam (Bella Heathcote) viajam para a remota casa de família para a encontrar. Logo após o seu regresso, começam a descobrir uma presença sinistra que assombra a casa e assume o controlo de Edna.”

A COVID-19 afetou o número de filmes lançados em 2020, mas o género de horror não parece realmente ter sofrido com a pandemia. A qualidade será sempre subjetiva, mas, na minha opinião, este ano tem exemplos em todos os pontos do espetro. Testemunhei alguns filmes de horror terríveis (Fantasy Island, The Grudge, The Turning, You Should Have Left), alguns exemplos de “potencial desperdiçado” (Gretel & Hansel, The Rental, The New Mutants), alguns bastante decentes (Underwater, Antebellum, Come Play) e mais do que apenas um par de filmes incríveis, alguns podem até terminar no meu Top10 do ano (The Invisible Man, The Lodge). Não sabia muito sobre Relic, mas a sua premissa deixou-me interessado.

Esta é a estreia de Natalie Erika James na cadeira da realização, bem como o primeiro argumento de longa-metragem, co-escrito com o também estreante Christian White. Com um elenco relativamente desconhecido (para mim, pelo menos), não consigo esconder a minha surpresa sobre o quanto desfrutei deste filme. Obras de horror ambíguas com temas subjacentes estão longe de ser um subgénero favorito do público, muito pelo contrário. Normalmente, este tipo de filme possui traços que a maioria dos espetadores realmente não procura quando vai ao cinema: um ritmo lento, uma série de sequências de suspense que não levam ao jumpscare genérico e, por último, um final que aparentemente tem falta de algum tipo de explicação, deixando o público a sentir-se desapontado.

Ora, adoro este subgénero, especialmente quando realmente me atinge no coração. Tem todos os ingredientes acima que sei que vai fazer a maioria das pessoas pensar “isto não faz qualquer sentido, é tão aborrecido”. Muitos espetadores vão esperar apenas mais um filme de horror assustador, sobrenatural e psicológico, mas a desilusão irá, inevitavelmente, atingi-los. Na verdade, a narrativa carrega muito mais do que o que está presente na superfície e, honestamente, é algo que fica bem claro desde cedo. Na sua essência, Relic é uma representação bastante realista do que acontece com os membros mais velhos de algumas famílias (infelizmente, mais do que deviam ser) e aborda temas extremamente sensíveis, como a demência e o abandono de idosos em lares.

Relic

O argumento de Natalie e Christian não se esconde de entregar algumas mensagens sobre estes dois tópicos. A demência é uma doença terrível que, entre outras coisas, faz as pessoas perderem o que as torna únicas, o que as torna humanas, esquecendo-se de quem realmente são. Se os nossos pais cuidaram de nós durante toda a nossa vida jovem, é, no mínimo, justo, que cuidemos deles quando/se começarem a não o conseguir fazer por eles próprios. Não só devemos fazê-lo porque já fizeram o mesmo por nós, mas também pela possibilidade dos nossos descendentes poderem ter que passar pelo mesmo quando nós envelhecermos. É uma variação do conhecido ciclo da vida.

O amor deve estar sempre presente, não importa as circunstâncias. Um pedacinho da minha vida pessoal: o meu avô não estava bem presente no seu fim. Gradualmente, tornou-se incapaz de conduzir, andar e, eventualmente, falar. Escolhi não o ver tanto como costumava nas suas últimas semanas, simplesmente porque não me queria lembrar dele como alguém que nunca foi. A minha memória está intacta com os melhores momentos que passei com ele e não aquela fase deprimente num lar, apenas deitado na cama, à espera que o seu tempo neste mundo terminasse… É uma pequena parte da minha vida que partilho com os leitores, de forma a entenderem como Relic pode impactar tantos espetadores se os mesmos derem ao filme uma oportunidade legítima com expetativas adequadas.

As prestações são todas fenomenais. Robyn Nevin pode ser assustadora ao interpretar a avó Edna, mas, no final, é o gatilho emocional que me deixou de lágrimas nos olhos. Existem pequenos pormenores nas suas expressões que dão mais força à sua performance geral. Emily Mortimer também é notável como a mãe, Kay, que tem de passar por todas as fases de lidar com um parente com demência. Da rejeição e separação à aceitação e ao amor incondicional, Kay é a personagem que ganha um foco mais significativo. Bella Heathcote pode ter menos tempo de ecrã do que as outras colegas, mas também é fantástica enquanto Sam, particularmente nas sequências de horror. No entanto, é precisamente este último ponto que prejudica o filme.

A atmosfera da casa está repleta com um suspense tremendo, mas o terceiro ato traz um nível inesperado de horror, que acredito ser exagerado. O equilíbrio entre horror e drama familiar foi excelente ao longo dos dois primeiros atos, exceto em curtos períodos ocasionais, mas os últimos 20 minutos seguem um caminho tão over-the-top, estranho e extremamente ficcional que acaba por arruinar esse equilíbrio quase perfeito. É quase como se os produtores tivessem entrado e dito “precisamos de mais horror”, então filmaram um conjunto de cenas esquisitas, alucinantes e questionáveis. A narrativa não necessitava de nada deste género e deveria ter mantido o holofote principal no drama intrigante em vez de forçar o horror perturbador.

Relic

Tecnicamente, o trabalho de câmara de Charlie Sarroff é impecável. Com a ajuda da edição de Denise Haratzi e Sean Lahiff, os takes longos melhoram bastante o build-up para as sequências assustadoras, gerando níveis excecionais de tensão e suspense. A banda sonora de Brian Reitzell é interessante, mas existe uma parte em que a sua presença se torna estranha, tendo em mente a cena em questão, mas não prejudica o seu trabalho, no geral. Excelente controlo do ritmo, tempo de execução adequado e um final bonito, sincero e emocionalmente relevante que, infelizmente, alguns espetadores não serão capazes de ver além do seu clímax aparentemente underwhelming.

No fim, Relic é um daqueles típicos filmes de horror que dividem críticos e audiências um pouco por todo o mundo. Desta vez, apenas falsas expetativas podem levar à desilusão. A estreia de Natalie Erika James como realizadora está longe de ser uma obra de horror genérica, mas sim um drama familiar com um assunto muito sensível no seu centro. Com a ajuda do também estreante Christian White, ambos entregam uma história excecionalmente bem escrita, verdadeiramente triste, mas realista, sobre a demência e como os idosos são tratados a partir do momento em que não conseguem mais viver sozinhos. Uma narrativa notavelmente ambígua, repleta de temas subjacentes que levam a um final emocionalmente poderoso se o espetador for capaz de entender as mensagens implícitas espalhadas pelo filme.

Tecnicamente, a cinematografia “persistente” e a edição limpa criam um ambiente com um nível de suspense extraordinário. No entanto, o terceiro ato mergulha em demasia no horror, contendo sequências desnecessárias que acabam por arruinar o tom do filme, levantando questões que não pertencem ao filme. Ainda assim, recomendo imenso a qualquer leitor que goste deste tipo de filme, mas por favor, controlem as vossas expetativas, tornando-as o mais justas possível.

Relic é lançado esta terça-feira, dia 17 de novembro, em Blu-ray.

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