Crítica – Underwater

Underwater é a primeira surpresa positiva de 2020. Um filme de janeiro muito melhor do que a maioria da competição do mesmo mês.

Underwater

Uma equipa de investigadores tenta regressar à superfície após um terremoto ter destruído o seu laboratório a 11 mil metros de profundidade, no meio do oceano.

Estava surpreendentemente interessado neste filme. “Surpreendentemente“? Porquê? Bom, em primeiro lugar, o elenco não tem um grande nome associado, embora aprecie algumas prestações da protagonista, Kristen Stewart, assim como alguns outros atores como Jessica Henwick. Depois, nenhum realizador ou argumentista despertou a minha atenção. William Eubank ainda não realizou algo verdadeiramente especial. Brian Duffield co-escreveu Insurgent (terrível), mas entregou um argumento de horror surpreendentemente divertido com The Babysitter. Finalmente, Adam Cozad ajudou a criar algumas narrativas algo desapontantes (The Legend of Tarzan, Jack Ryan: Shadow Recruit).

Também não sou a favor de filmes escritos por mais de duas pessoas, visto que estes geralmente acabam por ser desilusões… e é um filme lançado originalmente em janeiro. Então, como é que alguém pode ficar ligeiramente entusiasmado para assistir a Underwater? Pela mesma razão que muitas pessoas provavelmente o evitaram: a sua história formulaica do género horror-thriller no fundo do oceano.

Se um filme de ficção científica tem uma premissa baseada numa equipa que trabalha num local claustrofóbico e algum tipo de entidade “perturba” o trabalho, sou instantaneamente atraído por estas obras. Existe algo neles que me faz apreciá-los mais do que a maioria das pessoas. Normalmente, este tipo de filme tem um orçamento reduzido e requer, portanto, um realizador talentoso que seja capaz de gerar tensão e suspense genuínos.

Underwater é a grande surpresa de 2020, até agora. Os filmes de janeiro são conhecidos por serem a lixeira de Hollywood, por isso, fiquei perplexo ao constatar que este filme está bem longe de ser um mau projeto. É muito, muito bom!

A cenografia e a produção artística são impressionantes e ajudam a criar a atmosfera isolada e cheia de suspense. Os primeiros minutos são de fazer roer as unhas. Os próximos vinte minutos são fantásticos. Os vinte minutos seguintes continuam a ser uma explosão de entretenimento. Senti-me constantemente surpreendido com o quão bom o filme realmente é.

underwater critica echo boomer 2

Mas não vou exagerar: não é uma obra-prima ou mesmo um filme “excelente”. Underwater segue uma narrativa plot-driven que inúmeros outros filmes fizeram melhor. Inspira-se em Alien, Cloverfield, 20000 Leagues Under the Sea e todos as outras películas que envolvem uma forma alienígena que ameaça a sobrevivência de uma equipa.

Para além disso, falta caraterização a praticamente todas as personagens. Não há nenhuma tentativa séria de desenvolver profundamente uma única personagem de forma a fazer o público importar-se com a mesma, mas isto não significa que o filme não possa ter sucesso. Tal como escrevi acima, existem vários filmes plot-driven que chegam a ser fenomenais.

A diferença entre esses e Underwater é que este último não traz nada de novo para o género. Simplesmente usa os clichês conhecidos e executa-os muito bem, o que é, por si só, uma enorme surpresa. Não consigo negar que me diverti bastante ao ver este thriller. Esperava ação confusa com muito pouca iluminação, tornando impossível ver o que quer que seja. Mas não. Há sequências surpreendentemente visíveis, bem filmadas, repletas de tensão, pânico e um sentido palpável de urgência. Não existem muitos espaços para respirar e relaxar.

A equipa de efeitos especiais e Bojan Bazelli (cinematógrafo) merecem muito crédito, pois os “alienígenas” não só são visualmente cativantes, como são mostrados apenas nos momentos certos durante o tempo necessário. Underwater não possui um orçamento enorme, logo as criaturas precisam de ser mostradas “nas sombras”, caso contrário não irão parecer “realistas”. Pode parecer uma decisão técnica óbvia que tem de ser tomada, mas a sua execução está longe de ser uma tarefa fácil. Assim, dou os meus parabéns a todos os que participaram neste processo de tornar os monstros numa ameaça genuinamente assustadora.

O elenco é excelente. Kristen Stewart continua a partir a concha de Twilight, provando repetidamente que é uma atriz acima da média. Jessica Henwick também é ótima, assim como Vincent Cassel. Todos entregam prestações bastante decentes, incluindo T.J. Miller, que interpreta a personagem cómica e sempre divisiva que será extremamente irritante para alguns, mas muito engraçada para outros (encontro-me no meio, acho o seu papel razoável).

Underwater

É, definitivamente, um bom horror-thriller de ficção científica, muito melhor do que a maioria dos filmes de janeiro (Underwater é um dos últimos filmes da 20th Century Fox, o que provavelmente significa que a Disney não sabia ao certo o que fazer, portanto despejou-o no pior mês do ano).

Acabei de adicionar William Eubank à minha lista de realizadores a seguir. O seu compromisso em tentar fazer um bom filme é demonstrado no ecrã, logo espero que ganhe alguns fãs quando chegar às casas de cada um.

Underwater é a (primeira) surpresa positiva de 2020. Um filme de janeiro muito melhor do que a maioria da competição do mesmo mês. William Eubank oferece um horror-thriller de ficção científica repleto de imensa tensão, ação surpreendentemente visível (!), produção artística fantástica e um trabalho VFX realmente cativante. Não é, porém, um filme brilhante.

Inspira-se em filmes do mesmo género e segue uma narrativa simples e com um desenvolvimento de personagem praticamente nulo. E apesar de limitar-se a aplicar os clichês conhecidos, a verdade é que estes são muito bem executados. Um elenco underrated, protagonizado por Kristen Stewart, entrega algumas prestações notáveis, mas é a atmosfera claustrofóbica cercada por um suspense muito eficaz que transforma este filme num sucesso.

Tecnicamente, ainda não acredito no quanto estou surpreendido. Apenas desejo que tivesse um pouco mais de caraterização para que pudesse recomendá-lo ainda mais. Mesmo assim, assistam na melhor qualidade possível mal tenham oportunidade.

- Publicidade -

Sigam-nos

10,468FansCurti
4,048SeguidoresSeguir
535SeguidoresSeguir

Relacionados

Matthias & Maxime chega aos cinemas portugueses a 18 de junho

Pouco a pouco, estamos a voltar à normalidade e os cinemas começam também a reabrir.

Crítica – Shirley

Shirley é, sem dúvida alguma, cinema de autor por parte de Josephine Decker, que entrega uma biopic única que quebra todas as limitações impostas pelo género.

Análise – Razer Basilisk V2

Novo look, mais ergonómico e funcional.
- Publicidade -

Mais Recentes

Crítica – I May Destroy You (Temporada 1)

A HBO está prestes a lançar mais uma série moderna e explosiva que decompõe na perfeição uma temática sensível: o "consentimento sexual".

Razer revela a segunda versão dos teclados Ornata

Um teclado híbrido para uma utilização mais casual.