Crítica – Antebellum

Ao abordar o tema da escravidão, Antebellum tem imensas cenas carregadas de uma violência extrema, mas igualmente realista. E dito isto, nem todos serão capazes de aguentar este filme.

Antebellum
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Sinopse: “A autora de sucesso Veronica Henley (Janelle Monáe) encontra-se presa numa realidade horrível e tem que descobrir o mistério alucinante antes que seja tarde demais.”

Alguns meios de comunicação andam a oferecer uma sinopse algo spoiler-ish que acredito que o filme devia ter omitido ao longo da sua campanha de marketing, incluindo os próprios trailers. Existe um mistério central que só começa praticamente a meio do tempo de execução, desenrolando-se até ao início do terceiro ato, logo fica o conselho: mantenham-se longe dos trailers e não leiam demasiadas sinopses.

Como não sabia nada sobre esta película, assisti a Antebellum com expetativas modestas e sem quaisquer ideias ou teorias preconcebidas sobre a estrutura narrativa. No entanto, não consegui evitar ver o filme mais tarde do que a maioria das pessoas e tenho que admitir: estou um pouco surpreendido que tantos espetadores odeiem profundamente este filme…

Tem alguns problemas, os quais vou abordar mais à frente, mas, no geral, acredito que a violência White-on-Black extrema seja a razão principal pela qual tantos espetadores desistiram do filme. Começo mesmo por este tópico. É indiscutível que Gerard Bush e Christopher Renz (estreias na realização e argumento de uma longa-metragem) criaram um filme bastante chocante, retratando o racismo e a escravidão de maneiras desagradáveis, mas realistas. Esta última parte é precisamente o equilíbrio perfeito que todos os filmes precisam de ter ao lidar com estes temas, algo que, na minha opinião, Bush e Renz não o conseguem totalmente.

As cenas de tortura e mortes brutais que os Afro-Americanos sofrem em Antebellum são mostradas sem qualquer restrição. Desde grandes quantidades de sangue a pancadas visíveis, é um daqueles filmes que carrega tanto realismo que se torna desconfortável. Se estas cenas acabam por conter uma mensagem significativa ou um arco convincente, até podem ser difíceis de se assistir, mas, no fim, acabam por ser necessárias e emocionalmente impactantes. Caso contrário, apenas parece violência por entretenimento, algo que irá sempre incomodar imensos espetadores, dependendo do tipo de violência. Bush e Renz arriscam o sucesso do filme ao caminhar por essa linha ténue e, no geral, apesar de estarem longe de aperfeiçoar esse equilíbrio, não fazem um mau trabalho.

Na verdade, tendo em conta as estreias dos homens no comando, Antebellum é tecnicamente notável. Abre com uma longa cena sem cortes, onde a câmara mostra toda a zona de plantação, passando pela recém-chegada personagem de Janelle Monáe e terminando num tratamento absolutamente horrendo em câmara lenta de um escravo desesperado a tentar escapar. Estes seis a oito minutos funcionam como um aviso para o público. Se as pessoas se sentem demasiado perturbadas com o que acabaram de testemunhar, então é melhor deixar esta obra de lado e simplesmente esquecê-la.

Antebellum

A cinematografia de Pedro Luque é única e nunca se esconde de demonstrar o que está realmente a acontecer, não importa o quão nojento e terrível. A banda sonora de Nate Wonder e Roman GianArthur, caraterizada pelo seu uso dominante de cordas, dá ainda mais importância aos inúmeros momentos de suspense. Honestamente, é extremamente viciante de se ouvir.

É uma excelente produção, como esperado, para além do guarda-roupa e da cenografia que também são fantásticos. Visualmente, não tenho quaisquer reclamações. Mesmo julgando a brutalidade apenas por si só, se o propósito é demonstrar o quanto os escravos sofreram naquela época, é tão fiel quanto poderia ser.

Relativamente à história, Bush e Renz necessitam de melhorar a sua qualidade enquanto argumentistas. A premissa é extremamente convincente, a estrutura narrativa não-linear adiciona um mistério interessante e a história em si é bastante intrigante. No entanto, ao invés de atingir o inegável potencial e dar-nos um argumento fenomenal, profundo e bem desenvolvido, Antebellum acaba de forma previsível, deixando imensas linhas narrativas interessantes por explorar.

Mesmo os minutos finais climáticos e cheios de ação são desapontantes e todos os problemas são resolvidos demasiado facilmente. Oferece inclusive ao espetador o direito de questionar porquê e como tudo o que acontece no filme pode, de facto, ocorrer durante tanto tempo.

Mesmo assim, está longe de ser um desastre, muito pelo contrário. Senti-me interessado até ao final, uma vez que praticamente todas as cenas são cativantes ao ponto de ficar completamente imóvel sem tirar os olhos do ecrã. Não me senti muito desconfortável com a demonstração de violência, logo a minha experiência foi mais suave do que a maioria das pessoas, presumo eu. A excelente representação dos estilos de vida distintos da personagem de Janelle Monáe, no campo e na cidade, é o melhor aspeto de todo o filme, claramente estabelecendo um conjunto de cores e um tom bem diferentes. Monáe oferece uma performance poderosa, carregando o filme inteiro nos ombros, ao interpretar a única protagonista de uma história incrivelmente pesada.

Em suma, Antebellum está destinado a dividir espetadores devido à sua violência extrema desconfortável, mas realista. Gerard Bush e Christopher Renz oferecem um filme inegavelmente chocante, envolvendo representações difíceis de se assistir de tortura, escravidão e racismo.

Tecnicamente, o trabalho de câmara engloba o filme num estilo distinto, tal como a banda sonora, guarda-roupa e cenografia. Janelle Monáe demonstra as suas habilidades enquanto protagonista, oferecendo uma prestação emocionalmente cativante. A estrutura narrativa não-linear eleva o mistério central, mas a história não recebe o tratamento extensivo que a premissa merece.

Contudo, o potencial tremendo é desperdiçado em mortes horríveis e sem impacto narrativo, assim como nas sequências de ação dececionantes do terceiro ato. Embora a violência White-on-Black seja justificada no contexto do filme, a sua exibição excessiva, sem restrições nem mensagem ou arco convincente, é definitivamente um aspeto negativo que algumas pessoas não serão capazes de aceitar.

Não me senti incomodado a esse nível e ainda acredito que a intenção era a melhor, logo recomendo esta estreia na realização e argumento de Bush e Renz, mas com um disclaimer para o tema sensível e/ou espetadores que têm dificuldades com demonstrações de violência mais forte.

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