A XBOX escolheu Kayleen Walters, até agora presidente da Mojang, para liderar a XP, uma nova estrutura que vai explorar séries como Minecraft, Fallout e Halo fora dos videojogos.
A Microsoft anunciou a criação da XP, uma nova divisão da XBOX dedicada a explorar as suas propriedades intelectuais em diferentes áreas do entretenimento, seguindo uma estratégia semelhante à que a Nintendo tem desenvolvido com as suas próprias propriedades, tendo levado Super Mario ao cinema e aos parques temáticos com o Super Nintendo World, contando também com a Nintendo Pictures, dedicada à produção de conteúdos audiovisuais, e a Nintendo Stars, que desde 2025 gere os produtos, eventos e outras iniciativas relacionadas com as suas adaptações cinematográficas.
Como Matthew Ball explica no comunicado oficial, a XP vai concentrar negócios que até agora estavam distribuídos por diferentes departamentos da Microsoft, ficando organizada em quatro áreas. A XBOX Pictures vai tratar das adaptações para cinema e televisão, a XBOX Products ficará responsável pelos produtos licenciados, enquanto a XBOX Places vai gerir eventos presenciais, transmissões e atrações físicas, incluindo parques temáticos. Por último, a XBOX Partnerships ficará encarregue dos acordos com outras marcas, patrocinadores e criadores de conteúdos. Entre as propriedades que poderão beneficiar desta nova organização encontram-se Minecraft, Fallout, Halo, Call of Duty, Gears of War, Warcraft, Diablo, Forza, Candy Crush e The Elder Scrolls.
Ball, responsável pela estratégia da XBOX, explica que estas atividades já faziam parte dos negócios da empresa, mas estavam divididas por várias equipas, sendo agora colocadas sob uma direção comum para facilitar o desenvolvimento de novos projetos. “A nossa ambição na XBOX é ser a maior empresa de entretenimento do mundo“, afirma o responsável, que pretende transformar os jogos da Microsoft em propriedades capazes de alcançar várias gerações e diferentes públicos. Para além de trabalhar diretamente com os seus estúdios, a XP vai também colaborar com parceiros externos, mantendo os videojogos como ponto de partida para as adaptações e restantes negócios.
A direção desta nova divisão foi entregue a Kayleen Walters, que deixa a presidência da Mojang Studios apenas oito meses depois de assumir o cargo. A executiva tem uma longa experiência na gestão de propriedades de entretenimento, tendo trabalhado durante 13 anos na Lucasfilm, onde esteve envolvida na expansão comercial de Star Wars, antes de integrar a Microsoft. Nos últimos anos, dedicou-se sobretudo a Minecraft, participando na produção de A Minecraft Movie, enquanto produtora executiva, e no crescimento dos produtos licenciados do jogo, que contam atualmente com mais de 250 parceiros comerciais. Durante a sua passagem pela Mojang, Minecraft passou de 350 milhões para mais de 425 milhões de cópias vendidas, enquanto os seus produtos licenciados se tornaram numa das 20 maiores marcas mundiais deste mercado.
Numa mensagem dirigida aos trabalhadores, Walters explicou que a XP pretende aproveitar o sucesso destas iniciativas para levar outras propriedades da XBOX a públicos que não acompanham necessariamente os videojogos. “Os fãs não se limitam a jogar as nossas franquias. Também as veem, vestem, frequentam eventos, celebram-nas e relacionam-se com elas de inúmeras formas“, afirmou a executiva, defendendo que existe uma oportunidade para desenvolver negócios que ultrapassem os próprios jogos. Para a responsável, o trabalho com outras empresas e criadores será essencial para alcançar esses públicos, preservando ao mesmo tempo as características que tornaram estas séries populares.
Minecraft é atualmente um dos melhores exemplos deste modelo de negócio, especialmente depois do sucesso de A Minecraft Movie, lançado em 2025, que conseguiu a maior abertura de sempre nos cinemas para uma adaptação de videojogos. O filme prepara-se agora para receber uma sequela com estreia marcada para julho de 2027, mas a marca está também a preparar a sua expansão para os parques temáticos através do Minecraft World, uma nova área do Chessington World of Adventures, no Reino Unido, desenvolvida em parceria com a Merlin Entertainments. Esse projeto representa um investimento de 50 milhões de libras e vai incluir várias atrações inspiradas no jogo, entre as quais a montanha-russa Escape the Nether, lojas, restaurantes e um hotel temático com 69 quartos. A abertura está prevista para 2027, fazendo parte de um acordo mais abrangente entre a Mojang e a Merlin, que prevê a construção de outras atrações de Minecraft nos próximos anos.
XBOX reforçada no cinema e na televisão.
No cinema e na televisão, a XP vai gerir várias adaptações que já estão em desenvolvimento ou que têm vindo a alcançar algum sucesso, incluindo a série Fallout, produzida para a Prime Video, que contribuiu para aumentar as vendas dos jogos anteriores da Bethesda e o número de jogadores de Fallout Shelter. Para além desta produção, a Microsoft está também envolvida no desenvolvimento de um filme de Gears of War para a Netflix, que vai explorar as origens do Delta Squad, uma adaptação cinematográfica de Call of Duty para a Paramount e uma série animada de Diablo. Apesar dos exemplos de sucesso há que recordar que todas estas tentativas nem sempre resultam em produtos de qualidade, como aconteceu com a série de Halo, cancelada pela Paramount+ em 2024 depois de apenas duas temporadas.
A nova divisão ficará igualmente responsável por atividades como a BlizzCon, o evento dedicado aos jogos da Blizzard Entertainment, e outras colaborações comerciais, incluindo iniciativas com a WWE relacionadas com Gears of War: E-Day. Estas experiências vão permitir que a Microsoft desenvolva novos negócios com as suas marcas sem depender necessariamente do lançamento de um jogo, através da venda de bilhetes, produtos oficiais, acordos comerciais e outras atividades presenciais.
A saída de Walters da Mojang vai também trazer mudanças à direção de Minecraft, com Maria Angelidou-Smith a assumir a liderança do estúdio a partir de 19 de outubro. A executiva chega do Reddit, onde desempenhou as funções de responsável de produto, depois de ter passado quase uma década na Meta, trabalhando em serviços como os Grupos do Facebook, utilizados por mais de 1,8 mil milhões de pessoas mensalmente. Numa mensagem enviada aos trabalhadores da XBOX, a CEO Asha Sharma justifica a contratação com a dimensão alcançada pela comunidade de Minecraft, que para além de jogar também cria conteúdos, gere servidores e desenvolve negócios próprios. “Queríamos alguém que tivesse criado produtos para comunidades de enorme dimensão“, explica Sharma, acrescentando que a experiência de Angelidou-Smith na tecnologia e monetização será importante para o futuro do estúdio.
Investimentos novos num momento de caos e incertezas.
A criação desta divisão acontece, no entanto, numa altura em que a Microsoft continua a reestruturar profundamente o negócio da XBOX, depois de vários anos de investimentos elevados e resultados abaixo das expectativas. Em julho, Sharma anunciou um plano para eliminar cerca de 3200 postos de trabalho, o equivalente a aproximadamente 20% da divisão, com 1600 despedimentos logo na primeira fase e novas reduções previstas ao longo do ano fiscal de 2027. A empresa também começou a separar-se de vários estúdios, incluindo a Compulsion Games, a Double Fine Productions e a Undead Labs, que recuperaram a independência, enquanto o futuro de outras equipas permanece por resolver.
Mais recentemente, a Microsoft avançou com uma nova reorganização dos seus principais estúdios, acompanhada por outros 268 despedimentos, que resultou na transferência do desenvolvimento de Halo para a Activision, que ficou também responsável pela Rare e pela World’s Edge, e na integração da Obsidian Entertainment na Bethesda. Estas alterações também afetaram vários projetos que estavam em desenvolvimento, incluindo um novo Halo da Halo Studios que acabou por ser cancelado, enquanto os remakes de Halo 2 e Halo 3 terão sido igualmente abandonados. A situação agravou-se ainda com os despedimentos na Ninja Theory, cujo futuro continua incerto depois de duas tentativas falhadas de venda, colocando também em risco a conclusão de Senua.
A aposta da Microsoft no cinema, televisão e parques temáticos acaba assim por contrastar com a redução das equipas responsáveis pelo desenvolvimento dos próprios videojogos, numa altura em que a XBOX ainda procura recuperar o seu negócio principal. Apesar de Sharma defender que os jogos continuam a ser a base destas propriedades, a empresa está agora a criar uma divisão inteira para explorar comercialmente marcas que já possui, seguindo um caminho que a Nintendo tem vindo a desenvolver há vários anos. Para já, não foram revelados os valores que a Microsoft pretende investir especificamente na XP, nem quantos trabalhadores ficarão associados a esta nova estrutura, que vai começar por gerir vários projetos que já estavam em desenvolvimento antes da sua criação.
