A XBOX vai eliminar 3200 postos de trabalho até ao final do ano fiscal de 2027. Entretanto, vai também separar-se de cinco estúdios, com alguns a recuperarem a sua independência, naquela é que numa das maiores reestruturações da história da divisão de jogos da Microsoft.
A XBOX confirmou o início da maior reestruturação da sua história, com a eliminação de cerca de 3200 postos de trabalho ao longo do ano fiscal de 2027, o equivalente a aproximadamente 20% da divisão atualmente. A decisão foi anunciada pela nova CEO da XBOX, Asha Sharma, através de uma mensagem enviada aos funcionários, na qual explica que a empresa precisa de redefinir a sua estratégia após vários anos de expansão, investimentos elevados e resultados abaixo das expectativas. A primeira fase da reestruturação traduz-se já no despedimento de cerca de 1600 trabalhadores, estando previstos novos cortes nos próximos meses.
Estas mudanças fazem parte do Reset da XBOX anunciado há umas semanas e vão para lá da redução de pessoal. Para além dos cortes, a Microsoft explicou e confirmou que que dos seus estúdios deixarão de integrar a estrutura da XBOX, ficando cada um em diferentes situações. A Compulsion Games, responsável por South of Midnight, e a Double Fine Productions, criadora de Psychonauts, voltam a tornar-se estúdios independentes, e levam consigo as respetivas propriedades intelectuais, dos seus catálogos, assim como financiamento para concluir os próximos projetos. Já a Ninja Theory e a Undead Labs passam para novos proprietários, com acordos que garantem os recursos necessários para terminar o desenvolvimento de Senua e State of Decay 3.
Para além destes quatro estúdios, há ainda a situação da Arkane que permanece em aberto. O estúdio iniciou um processo de consulta obrigatório previsto pela legislação francesa para analisar “potenciais opções estratégicas“, uma formulação que a Microsoft não explica em detalhe e que, para já, não confirma qualquer venda, independência ou encerramento. De acordo com Sharma, o futuro da equipa responsável por Blade ficará dependente do resultado desse processo.
Apesar da dimensão da reorganização, a XBOX garante que nenhum dos jogos first-party já anunciados publicamente será cancelado. Ainda assim, haverá reduções em praticamente toda a estrutura da divisão, incluindo equipas da Activision, Bethesda/ZeniMax, Blizzard, King, Mojang e XBOX Game Studios, embora não tenha sido especificado o número de trabalhadores afetados em cada área.
Na mensagem dirigida à sua equipa, Sharma assume que a estratégia seguida pela XBOX nos últimos anos não produziu os resultados esperados. A responsável afirma que a empresa entrou na atual geração de consolas com uma base instalada inferior à da concorrência e com custos operacionais mais elevados, apostando no muito no popular Game Pass, na expansão para múltiplas plataformas e no crescimento do portefólio de conteúdos para inverter essa situação. De acordo com a CEO, essas iniciativas criaram valor, mas ficaram aquém das previsões de crescimento, enquanto o negócio principal da XBOX continuou a perder força.
“À medida que isso acontecia, o nosso negócio principal enfraqueceu e continuámos a acrescentar mais equipas, mais investimento e mais tempo, na esperança de obter um resultado diferente“, escreve Sharma. “Agora, a indústria enfrenta a mais grave crise de hardware da sua história. Temos de redefinir a XBOX.”
A CEO identifica igualmente a rápida expansão do número de estúdios como um dos fatores que conduziram à situação atual. Desde 2018, a XBOX adquiriu um número significativo de equipas de desenvolvimento numa tentativa de reforçar o catálogo exclusivo e de aumentar a oferta de jogos disponíveis através do Game Pass. Porém, Sharma considera que o mercado mudou de forma significativa e que essa estratégia deixou de ser sustentável.
“Hoje competimos não apenas com as maiores editoras da indústria, mas também com pequenos estúdios independentes. Não é possível, nem desejável, possuir todos os grandes estúdios independentes“, afirma. A responsável acrescenta ainda que a empresa concluiu que “não é o melhor lugar para todos os tipos de estúdio” e revela um dado particularmente significativo sobre a rentabilidade da estratégia seguida, “Num ano típico, perdíamos 64 cêntimos por cada dólar investido.”
A reestruturação estende-se também à organização interna da XBOX. A empresa anunciou alterações profundas na forma como a divisão será gerida, começando pela criação de um novo cargo de Chief Operating Officer (COO). Helen Chiang, que liderou a marca Minecraft durante a última década, assume agora essa função e passa a responder diretamente a Asha Sharma. Pela primeira vez, um único responsável terá autoridade sobre conteúdos, hardware, plataforma e serviços, bem como responsabilidade direta pelos resultados financeiros de toda a operação.
Em paralelo, a Mojang e a King deixam de responder às estruturas intermédias e passam igualmente a reportar diretamente à CEO. Sharma justifica a decisão com a dimensão que ambos os negócios alcançaram, descrevendo-os como plataformas próprias e como as maiores operações da XBOX em número de jogadores ativos mensais, capazes de alcançar públicos e mercados distintos do restante portefólio.
Outra das prioridades passa por reduzir significativamente a complexidade da organização. De acordo com a CEO, algumas áreas da empresa acumulam atualmente até 14 níveis hierárquicos, enquanto as equipas responsáveis pela plataforma cresceram cerca de 40% desde o início da atual geração de consolas, apesar de a base de jogadores e o tempo de utilização terem diminuído. Na mensagem enviada aos trabalhadores, Sharma considera que esta estrutura tornou a empresa mais lenta, dificultou a tomada de decisões e reduziu a responsabilização das equipas.
Para inverter essa situação, a XBOX pretende assim limitar a estrutura de gestão a um máximo de cinco níveis hierárquicos e, sempre que possível, apenas três. A empresa quer ainda simplificar o desenvolvimento tecnológico através de uma base de código mais unificada, reforçar a utilização de serviços partilhados e reduzir em 50% os gastos com fornecedores externos. A nova organização será assente em equipas mais pequenas, com maior autonomia e responsabilidade direta sobre as decisões tomadas.
Sharma aproveitou também para apresenta uma avaliação pouco habitual do estado financeiro da divisão, afirmando que a XBOX opera atualmente com margens entre três e dez vezes inferiores às de outras empresas comparáveis do setor das plataformas e publicação de jogos. Para Sharma, a empresa continuou a aumentar equipas, investimento e recursos enquanto esperava que a estratégia centrada no Game Pass, na expansão multiplataforma e no crescimento do catálogo produzisse resultados superiores, algo que acabou por não acontecer.
Entre as razões apontadas para esta mudança está também aquilo que Sharma descreve como “a mais grave crise de hardware da história“, referindo-se, obviamente, ao aumento dos custos dos componentes que tornou o fabrico de consolas significativamente mais caro, obrigando a empresa a rever toda a sua estratégia. A responsável defende ainda que a XBOX deve deixar de medir o seu sucesso pela quantidade de estúdios sob o seu controlo direto e passar antes a apoiar criadores independentes através de ferramentas de desenvolvimento e do acesso ao público.
Esta é a quinta grande vaga de despedimentos anunciada pela Microsoft desde a aquisição da Activision Blizzard, concluída em 2023 por cerca de 69 mil milhões de dólares. Apesar dessa compra ter colocado sob o mesmo grupo algumas das maiores propriedades da indústria, como Call of Duty e World of Warcraft, a direção da XBOX reconhece assim que o negócio principal perdeu força nos últimos anos e que a expansão realizada desde 2018 acabou por criar uma estrutura demasiado pesada para responder à evolução do mercado.
A empresa garante que continua comprometida com o futuro da marca e insiste que a reestruturação não representa um recuo no investimento. Sharma afirma que a Microsoft irá investir este ano tanto na XBOX como em qualquer outro momento da sua história, mas assegura que esse investimento passará a ser feito com maior disciplina e foco. A responsável conclui ainda que a ambição passa por voltar ao crescimento em 2027 e transformar a XBOX numa plataforma capaz de entreter mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo.
