Gears of War E-Day Review: Colegas de Armas

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A premissa de Gears of War E-Day é, em teoria, aliciante e sua jogabilidade pode ser a melhor que a série já entregou. Mas entre inimigos esponjosos, um design focado no coop e uma história com pouco para contar, esta pode muito bem ser a campanha mais fraca de Gears até à data.

Talvez eu esteja na minoria, mas para mim Gears 5 é um excelente jogo, e uma fantástica entrada enquanto legacy sequel, que pegou elegantemente nas bases técnicas e narrativas, sem medo de sair da sua zona de conforto, ao experimentar com algumas tendências da altura, como áreas abertas, mesmo correndo o risco de deixar os fãs um pouco alienados. Para mim funcionou, porque tudo conjugou de forma muito natural, com áreas bem abertas, fáceis de navegar e de objetivos bem focados, ao mesmo tempo que tinha uma vertente linear sólida, suportada por uma história boa para contar, com personagens cativantes, bons dramas interpessoais e sem medo de riscos narrativos.

O final de Gears 5, que não vou mencionar aqui, é absolutamente memorável, para o bem e para o mal. Divisivo e frustrante, com eventos que acontecem quando devem acontecer e que, acima de tudo, me deixaram com vontade de continuar naquele mundo e ver como é que a The Coalition poderia dar continuidade à história, com uma tela tão grande e difícil de pintar à sua frente. O futuro de Gears é definitivamente emocionante. Mas Gears of War E-Day não me parece ser esse futuro. Não é porque dá um passo atrás, recuperando o nome antigo da série (de apenas Gears, para Gears of War novamente), porque é uma prequela (claramente inspirada na premissa de tragédia antes da primeira aventura de Star Wars: Rogue One e de Halo: Reach), e porque infelizmente é, possivelmente uma das piores entradas na série sem nada para contar. Não querendo exagerar no meu tom e palavras, mas ao rolar os créditos – onde ouvia um needle drop dos bons, mas já batido -, o único sentimento que conseguia verbalizar na cabeça acompanhado de alguma dúvida era “Desilusão?”.

Admito que quando Gears of War E-Day foi anunciado não fiquei imediatamente rendido à ideia de uma prequela. Especialmente com a forma como Gears 5 terminou. Mas, com aquele teaser cheio de nostalgia bait, extremamente bem realizado, que deixava antever a premissa interessante desta aventura, o meu interesse aumentou substancialmente. Em Gears of War E-Day, como o nome sugere, viajamos no tempo até ao dia em que os Locust atacaram a superfície. Dia esse que aconteceu praticamente logo a seguir ao início da paz entre humanos que andavam há 70 e tal anos à batatada, numa guerra que tirou a vida a Carlos, irmão de Dom e melhor amigo de Marcus.

A premissa de Gears of War E-Day é interessante e a jogabilidade a melhor da série.

As primeiras horas de Gears of War E-Day alimentaram bem o meu interesse nesta aventura. O setup feito era intrigante, apresentando a dupla de protagonistas numa fase muito inicial e até bastante carga emocional, algo até inocente face à tragédia que em jogos seguintes, passados 14 anos, irão confrontar. Chega até a ser adorável. Para além disso, a apresentação visual de Gears of War E-Day é do melhor que a série já entregou, com belíssimos visuais e animações e uma direção de cinemáticas que emula técnicas fílmicas extraordinariamente bem. Nas primeiras horas, também somos introduzidos a mais duas novas personagens, Mags e Lucas, que o destino junta à Bravo Squad. E claro, assistimos ao prato principal desta proposta, que é o terror dos Locust à superfície do planeta, com a humanidade em pânico a enfrentar algo reminiscente de horror cósmico, uma força da natureza incompreendida.

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Gears of War E-Day (The Coalition)

Há imenso para amar durante o primeiro ato, onde também temos o nosso primeiro contacto com a nova jogabilidade de Gears. Gears of War E-Day pega nas bases tradicionais da série que influenciou toda uma geração dentro do género, com o seu sistema de shooting e cover. Aqui, apimentado com um novo sistema de cover, de locomoção e de animações mais fluidas e naturais, com um ritmo que em certa altura evocou ecos do salto entre The Last of Us Part I e Part II. Em Gears of War E-Day, o protagonista que pretendermos escolher controlar consegue saltar, deitar-se entre covers, subir caixas e veículos, correr e recarregar armas, e até deslizar em direção a inimigos ou por baixo de camiões e aberturas, como um M3 GTR de Need For Speed Most Wanted – mas sem slow-motion. Esta mobilidade é fantástica e muito sólida, oferecendo oportunidades de locomoção muito maiores do que alguma vez a série introduziu até aqui, e permite também explorar um pouco mais da verticalidade dos níveis, subindo obstáculos e até andares aumentando as oportunidades estratégicas de cada combate.

Mas temo que os meus elogios terminem por aqui, como a minha apreciação positiva ao jogo terminou com o primeiro ato. Ao longo desta aventura de cerca de 15-16 horas acabei por me deparar com um jogo repetitivo, por vezes aborrecido, condicionado pela sua natureza co-op e, talvez o pior de tudo, sem nada para contar, com uma narrativa tão vazia e cheia de momentos forçados que se torna quase impossível de spoilar.

Velhas ideias mal implementadas.

Gears of War E-Day segue de alguma forma alguns dos elementos introduzidos em Gears 5. O maior de todos é o modelo de jogo em mundo semi-aberto, onde somos introduzidos à cidade de Kolona, alvo dos Locust, e que ao longo dos 3 dias de jogo vamos vendo a ficar cada vez mais reduzida a cinzas. A ideia de um ambiente que se transforma ao longo do jogo é, como a premissa principal, também ela interessante, mas há um risco de repetição e de revisitação que o jogo tem dificuldades em evitar. De ruas apertadas, semelhantes entre si e por vezes labirínticas, o jogo convida-nos a explorar Kolona indo de ponto A a ponto B, percorrendo ruas, apanhando colecionáveis e caches de mods para as nossas armas, assim como participar em ocasionais objetivos secundários, normalmente reduzidos a um confronto ou proteção de área.

Tudo bem no papel, não fossem estas viagens intrusivas ao ritmo da campanha, e o ambiente em si desinteressante, tão monocromático como o primeiro jogo na sua versão original e desorientante. Eventualmente a sua escala também se revela bem mais reduzida do que parece e a história do jogo leva-nos a andar às voltas ou a regressar aos mesmos sítios demasiadas vezes. A aventura também tem dificuldades em sair deste ambiente, alguns capítulos levam-nos a zonas subterrâneas, a florestas e outros complexos industriais abandonados, mas rapidamente lá temos mais um evento prioritário em Kolona para nos mostrar os mesmos locais, mas agora mais danificados. Estas voltas todas acabam por ditar ao jogo uma variedade muito reduzida de locais e de ambientes, que nunca atingem as alturas da escala e encanto dos jogos anteriores, onde cada capítulo era emocionante e novo, apresentando também novos tipos de inimigos, que requeriam abordagens diferentes para os eliminar.

Gears of War E-Day (The Coalition)
Gears of War E-Day (The Coalition)

Por falar em inimigos, Gears of War E-Day ainda consegue evocar, pelo menos nos primeiros capítulos, essas sensações de descoberta de mais um novo monstro para analisar e derrotar. Mas as novidades essas, salvo raras exceções, ficam conhecidas muito rapidamente e a abordagem de os derrotar, incluindo bosses, é transversal a todos. Encher de balas até caírem e se houver pontos fracos, tirar partido dos mesmos. E se estou a ser redutor, é propositado porque infelizmente os inimigos de Gears of War E-Day são autênticas esponjas de balas.

Este efeito começa a fazer sentido, como uma escolha de design consciente, à medida que vamos tendo modificadores para as nossas armas, que multiplicam as suas características, com mais dano ou estabilidade. No entanto há dois outros aspetos negativos deste sistema. Um é que arrancar a carne dos inimigos com o impacto das balas não é propriamente satisfatório e controlado, o outro é que os mods das nossas armas vão ficando disponíveis com as caches que vamos encontrando espalhadas pelo mapa e, por vezes, no meio de combates. Caches essas que nem sempre dão exatamente algo útil. Ou seja, o jogo obriga-nos artificialmente à procura dessas caches, ao mesmo tempo que nos atira notificações constantes a indicar que estão por perto e coloca marcadores no mapa. É um enorme contrassenso, entre convite à exploração e à necessidade de aumentar as nossas stats, que seria resolvido de uma forma muito mais interessante. Eliminar este sistema, que nem na trilogia original existia. Simples.

Gears of War E-Day também falha em oferecer confrontos interessantes e variados. Ainda que existam muitos momentos de derrotar inimigos e avançar em frente, que são os melhores momentos do jogo, a maioria dos combates reduz-se a controlo e proteção de áreas. O potencial de aplicar aqui elementos estratégicos é enorme, e o jogo parece estar desenhado para isso, com inimigos quase sempre nas mesmas posições, apenas com os mais pequenos a serem corajosos para nos saltar para cima, e com o design dos ambientes pronto para a nossa posição dinâmica atrás de qualquer cover. Há definitivamente ecos de Gears Tactics aqui. No entanto, esta vertente estratégica é quase impossível de aplicar a solo. Apesar de termos sempre um elenco de quatro personagens, num jogo 100% desenhado para a experiência co-op, a solo os nossos três parceiros são autênticas araras em pânico. Agem autonomamente, atiram-se para cima dos inimigos, caem com frequência, etc. O único aspeto redentor? É que nos salvam quase sempre que é preciso. A minha grande pena aqui é precisamente a falta de controlo sobre o resto da equipa. Há um sistema de ping, mas este parece apenas servir para o ambiente online, e é isso. Teria sido muito interessante que o jogo nos desse o poder de comandar ações, ou definir pontos para os nossos colegas se moverem. Num mundo em ressaca de um novo Mass Effect, a The Coalition podia aqui ter tirado umas notas. Em vez disso escolheu fazer um jogo demasiado dependente de sessões com amigos.

Dois sempre bom, quatro são demais.

E isto leva-me aos últimos pontos desta minha experiência com Gears of War E-Day. Começando com a forma como a sua estrutura co-op condiciona também a narrativa. Porque estamos constantemente a acompanhar o POV de quatro personagens, o jogo nunca se sente uma experiência propriamente íntima e usa as poucas oportunidades que tem, para fazer simples exposição. De facto, chega a ser chocante como um jogo tecnicamente tão avançado e que se gaba do seu motor de jogo para resultados tão fílmicos, ser tão tímido no recurso a cinemáticas, sejam elas com diálogos ou momentos de maior escala. Eles existem, maioritariamente no início e no fim do jogo, mas com dificuldades em apresentar cenas e/ou diálogos memoráveis. E também é trágico como o jogo em momento algum apresenta momentos como o do fantástico teaser de revelação, que se apresentava in-engine, onde Marcus lutava pela sobrevivência num confronto visceral com um Locust, antes de Dom o salvar de uma queda mortal. Em parte, até me sinto traído.

Gears of War E-Day (The Coalition)
Gears of War E-Day (The Coalition)

O storytelling de Gears of War E-Day também não é o melhor. Não só o jogo faz um mau trabalho ao desenvolver a relação de Marcus e Dom, como a presença de Mags e Lucas é anémica, sendo que estes dois existem simplesmente para serem stand-ins para o terceiro e quarto jogador. Mags e Lucas têm, obviamente histórias e um passado, onde hilariantemente cada um só tem uma cinemática de exposição para os conhecermos, e é isso. As interações entre as personagens ocorrem maioritariamente em diálogos durante a exploração, combate e em muitos momentos de slow-walk – que podiam ser substituídos por cinemáticas realizadas – com pedaços de informação que recorrentemente me passaram despercebidos, obrigando-me a fazer clipes constantes para reouvir o que raio estavam a dizer. E já em ambiente co-op, torna-se ainda mais difícil de acompanhar estes momentos se estivermos na galhofa com amigos.

Por fim, resta-me apenas desabafar que também não achei a história de Gears of War E-Day grande coisa. A tragédia e o tom miserável – mas com sentido – estão lá, mas o jogo não tem absolutamente nada para contar, para lá de pequenas vinhetas de sobreviventes, e arcs narrativas sem pulso onde Marcus pouco ou nada faz para além de estar em constante luto por uma personagem que nunca conhecemos na série, e Dom confronta-se com a possibilidade de nunca mais ver a família, num desfecho que já conhecemos. E dado que existe toda uma trilogia a seguir a esta prequela, a possibilidade de vermos Marcus e Dom a falharem as suas missões é reduzida e a falta de tensão e de risco é extremamente palpável.

A minha desilusão com Gears of War E-Day não existe apenas por o jogo não me encher as medidas. Até porque há aqui um ótimo jogo escondido. A minha desilusão prende-se apenas com o facto de estarmos há sete anos à espera da resolução de um cliffhanger e a The Coalition ter decidido explorar uma história que para todos os efeitos era desnecessária e no fim até é mal contada. Resta-me agora cruzar os dedos para que o trabalho em Gears 6 tenha ideias e uma direção mais diversa, divertida e bem trabalhada que isto.

Mas hey, ao menos ficámos a saber a origem da Chainsaw Lancer.

Gears of War E-Day (The Coalition)
Gears of War E-Day (The Coalition)

Cópia para análise (versão PC) cedida pela XBOX.

David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
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