Crítica – The Last of Us (Série HBO Max)

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The Last of Us é a primeira adaptação live-action de um videojogo que consegue, finalmente, quebrar a maldição frustrante e atingir um nível de excelência notável sem precedentes.

Defendo ser obrigatório começar um artigo de opinião sobre uma série baseada em determinado material – seja um livro, videojogo, banda desenhada ou outro – por esclarecer o conhecimento do autor sobre a obra original. Não possuir uma consola não me permitiu jogar The Last of Us até aos dias de hoje, mas a receção tremendamente positiva aos jogos e ao anúncio da série da HBO foi impossível de perder. O hype em volta desta adaptação altamente antecipada foi de tal forma que sinto-me orgulhoso em ter conseguido chegar ao episódio piloto sem qualquer spoiler para me estragar a experiência de testemunhar o desenrolamento da história pela primeira vez.

Em circunstâncias “normais”, não sei até que ponto teria interesse em acrescentar mais uma série sobre um mundo pós-apocalíptico à lista de visualizações depois de tantas variações das fórmulas do costume pelo cinema e televisão. Para além disso, a tal “maldição” das adaptações de videojogos permanece até este dia, mas apenas no sentido em que ainda continuo à espera da primeira adaptação excelente – Tomb Raider, Sonic the Hedgehog 2 e até Detective Pikachu não são maus filmes, muito pelo contrário, mas também estão longe de ser obras-primas.

Tendo todos estes fatores em conta, as expetativas pessoais para The Last of Us encontravam-se moderadamente elevadas. Por um lado, o facto da história original ter sido lançada há cerca de uma década não gerava confiança sobre a série entregar uma narrativa imaginativa e única dentro do género. Por outro lado, os elementos técnicos, o elenco e o feedback de colegas jogadores aumentava a curiosidade e o interesse na série. Dito isto, não podia estar mais contente por afirmar que esta é, de facto, a primeira adaptação de um videojogo que chega ao tal patamar de excelência tão desejado!

The Last of Us consegue isolar-se da vasta maioria dos argumentos do subgénero “apocalipse zombie” devido ao foco total nos seus protagonistas. Rotular ou vender a série como uma obra de ação e horror é enganar os espetadores, levando-os a antecipar mais uma versão de The Walking Dead ou dos seus inúmeros spin-offs – diga-se de passagem, nunca deixei de ser fã de Rick Grimes e companhia. Craig Mazin (criador de Chernobyl) e Neil Druckmann (co-criador do videojogo) juntam-se para apresentar um estudo complexo, intimista e extremamente detalhado sobre humanidade, amor, luto e a respetiva recuperação.

Acredito firmemente que os dois pilares de qualquer filme ou série são história e personagens. Todos os outros elementos que contribuem para a criação de uma obra podem ser absolutamente perfeitos, mas se estes dois pilares não forem bem construídos, tudo o resto se desmorona. Em The Last of Us, Joel (Pedro Pascal) e Ellie (Bella Ramsey) são dois protagonistas incrivelmente cativantes com arcos tão distintos e, ao mesmo tempo, com tantos pontos em comum. Ambos lidam com as mágoas, remorsos e eventos trágicos das suas vidas de forma bem diferente, provocando imenso interesse e investimento emocional por parte do público.

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Ao passo que Joel perdeu toda a confiança e esperança no mundo, levando o dia-a-dia de maneira cabisbaixa e deprimida, Ellie resguarda-se no seu sentido de humor único e energia infindável. Se o primeiro pouco ou nada fala, a segunda não se consegue calar. Se Joel seguiu um caminho de violência e crime, Ellie tentou simplesmente viver a sua vida da maneira mais normal possível. Se Pascal representa na perfeição a postura pouco amigável de Joel, Ramsey incorpora brilhantemente a personalidade mais aberta de Ellie.

The Last of Us é claramente uma série guiada pelas suas personagens. O enredo em si acaba por ser o aspeto menos relevante e até menos entusiasmante. Obviamente, existem sequências de ação carregadas de suspense e tensão, assim como momentos assustadores com os Clickers – humanos infetados pelo vírus. Mesmo assim, apesar da execução impecável, não existe propriamente nenhuma set piece fenomenal de deixar espetadores boquiabertos, especialmente se estes estiverem familiarizados com TWD, Train to Busan, World War Z, A Quiet Place, dezenas de obras sul-coreanas e outras tantas americanas.

Se os espetadores conseguirem criar uma conexão forte com Joel e Ellie nos primeiros episódios, The Last of Us torna-se rapidamente numa jornada repleta de interações inspiradoras e diálogos memoráveis. Seja o foco em dilemas morais sem respostas certas ou em tópicos sensíveis que ninguém tem facilidade em abordar, o caminho dos protagonistas aprofunda os sentimentos dos mesmos para com o mundo e as pessoas que os rodeiam, explorando os seus passados, mas também olhando para o presente e o futuro.

Mazin é o responsável único pelo argumento em praticamente todos os episódios, sendo que Druckmann ajuda no piloto, finale e redige sozinho o episódio 7. No que toca à realização, ambos tratam dos primeiros dois episódios, mas depois abrem as portas do seu projeto a Peter Hoar, Jeremy Webb, Jasmila Zbanic, Liza Johnson e Ali Abassi. Mazin entrega um episódio piloto sólido sem impressionar – muitas personagens, locais e pontos de enredo para montar – ao passo que Druckmann beneficia do trabalho anterior do seu colega para apenas ter de se preocupar com a construção do laço entre Joel e Ellie.

Hoar toma conta do terceiro episódio e é aqui que The Last of Us apresenta a estrutura narrativa repetitiva que se prolonga durante o resto da série. No início de cada capítulo, os holofotes viram para a introdução e desenvolvimento rápidos de novas personagens, sendo que estas terão algum tipo de impacto nos arcos dos protagonistas. A eficiência desta fórmula é inegável, pois consegue criar uma empatia entre os espetadores e as personagens secundárias, aumentando os níveis de emoção e intensidade de cada episódio, em vez de simplesmente atirar as tais personagens contra Joel e Ellie enquanto se espera que o público se preocupe com alguém. Dito isto, não resulta sempre…

Dos nove episódios, o quinto de Webb é, de longe, o meu favorito. Consegue um balanço perfeito entre storytelling, desenvolvimento de personagem e sequências de ação/horror. Independentemente daquilo que cada espetador vem à procura em The Last of Us, este capítulo irá satisfazer tudo e todos. Do lado oposto, o episódio oito de Abassi acaba por ser o menos interessante e mais genérico, apresentando personagens vistas mil e uma vezes em centenas de narrativas diferentes, sem desenvolvimentos surpreendentes e apenas com um momento em específico a sobressair devido à brutalidade e valor de choque da cena em si.

Pelo meio, The Last of Us entrega um dos melhores episódios individuais de televisão dos últimos anos. Uma das histórias mais bonitas, românticas e sinceras que alguma vez testemunhei num mundo pós-apocalíptico. No entanto, encontra-se tão afastado do enredo principal de The Last of Us e possui um impacto tão insignificante nos protagonistas que dá a sensação de que os espetadores saíram da série para entrar num (magnífico) spin-off. O quanto este detalhe afeta a desfrutação do episódio depende de cada um, mas que levanta a questão “porquê?”, levanta.

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Assim, a estrutura narrativa episódica acaba por ser o único problema menor com The Last of Us, sendo um pormenor que não prevejo que incomode a vasta maioria dos espetadores. Re-enfatizo a importância da ligação emocional entre o público e os protagonistas e o quão vital para o sucesso da série este laço é. Em relação ao elenco secundário, prefiro não destacar nem aprofundar o arco de ninguém para evitar spoilers, mas tenho que elogiar a prestação soberba de Anna Torv, atriz que marcou a minha adolescência com Fringe e que me deixou chocado – pela positiva – ao descobrir que também tinha uma participação ativa nesta série.

Tecnicamente, gostava de poder aprofundar os vários elementos, mas a maioria dos episódios de The Last of Us entregues à imprensa não eram o produto final – efeitos visuais, mistura de som, ADR e outros componentes técnicos encontravam-se incompletos. Mesmo assim, a banda sonora de Gustavo Santaolalla (compositor do videojogo) destaca-se facilmente, envolvendo as inúmeras conversas emocionalmente poderosas com um som imersivo de guitarra. Os efeitos especiais concluídos ajudam com o world-building visual do mundo “abandonado” e, juntamente com a maquilhagem, oferecem uma caraterização aterrorizadora aos Clickers que, pessoalmente, gostava que tivessem tido mais tempo de ecrã.

The Last of Us é a primeira adaptação live-action de um videojogo que consegue, finalmente, quebrar a maldição frustrante e atingir um nível de excelência notável sem precedentes. Craig Mazin e Neil Druckmann constroem um estudo de personagem complexo guiado pelos protagonistas fascinantes Joel e Ellie, explorando o luto, os traumas e tragédias das suas vidas através de dilemas morais inimagináveis, conversas emocionalmente pesadas e momentos absolutamente devastadores.

Tirando raras exceções, a fórmula narrativa episódica criada é incrivelmente eficiente, oferecendo uma panóplia de personagens intrigantes e prestações soberbas – Pedro Pascal e Bella Ramsey destacando-se claramente dos restantes. Uma versão mais intimista e pessoal de um mundo pós-apocalíptico que não deixa de possuir sequências de ação/horror repletas de suspense, tensão, gore e crueldade. A banda sonora de Gustavo Santaolalla não podia encaixar melhor.

Se já estava entusiasmado para me aventurar no videojogo, agora mal posso esperar por esse dia.

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