Crítica – “Pokémon: Detetive Pikachu”

por Manuel São Bento

A história começa quando o detetive Harry Goodman desaparece misteriosamente, levando Tim (Justice Smith), o seu filho de 21 anos, a investigar o sucedido. Tim conta com a ajuda do antigo parceiro de Harry, o Detetive Pikachu (Ryan Reynolds): um super-detetive adorável e hilariantemente cómico, intrigante até para si mesmo. Descobrindo que reúnem condições únicas para trabalhar em conjunto, os dois juntam as suas forças numa aventura emocionante para desvendar o mistério.

À luz dos néons de Ryme City – uma vasta e moderna metrópole onde humanos e Pókemon vivem lado a lado – o par vai seguindo pistas e cruzando-se com um elenco diversificado de personagens Pókemon até descobrir uma perturbadora conspiração que pode destruir esta pacífica coexistência e ameaçar o próprio universo Pókemon.

Sem demoras, Pokémon: Detetive Pikachu desilude, de alguma forma. Agora, provavelmente estarão pensando “Oh, ele é uma daquelas pessoas que nunca viu ou jogou Pokémon na vida e agora vai destruir o filme porque nunca entendeu porque as pessoas gostam”. Nem perto. Existem sempre três grupos de pessoas quando se trata destas sagas famosas que têm fandoms gigantes: os fãs hardcore que seguem a franchise respetiva desde que esta foi criada e nunca pararam de apoiá-la; os fãs que gostam ou até mesmo adoram, mas ou não viram/jogaram ou desistiram a partir de determinada altura; e os não-fãs que nunca realmente entraram na onda e não se interessam por nada dos que os dois grupos anteriores apreciam.

Eu pertenço ao segundo grupo, mas, para fãs hardcore, este filme poderá ter tudo o que sempre desejaram. Fui capaz de perceber que algumas cenas estão carregadas (isto é, literalmente o ecrã inteiro) com referências e Easter Eggs que os fãs mais dedicados vão absolutamente adorar. Apenas estes momentos podem fazer os leitores mais apaixonados desfrutarem deste filme muito mais do que fãs como eu.

Os Pokémon são lindos e estive constantemente de queixo caído. Haverá sempre pessoas a odiar este tipo de filmes apenas e só pelo facto de serem live-action, mas não se consegue entender como as pessoas acham um Pikachu incrivelmente realista como algo feio ou nojento quando este parece incrivelmente adorável e visualmente impressionante.

No entanto, todos nós sabemos que, apesar destes momentos oferecerem um monte de emoções, não são suficientes para manter uma narrativa consistente ou torná-la cativante.

Os grandes problemas de Pokémon: Detetive Pikachu são o argumento e a maioria das personagens, sem dúvida alguma. Entendo que a equipa de produção tenha que mudar o foco principal para os VFX sobre os Pokémon, visto que muitos dos espetadores vão comprar o bilhete apenas para assistir a um belo mundo real preenchido com eles, mas os dois pilares de qualquer filme nunca devem ser mantidos de lado por muito tempo: história e personagens.

Justice Smith protagoniza a única personagem humana que tem um passado convincente e uma personalidade fácil de se conetar com. Sim, Kathryn Newton (Lucy Stevens) oferece um bom desempenho e também interpreta uma personagem que muitas pessoas irão gostar, mas a partir do momento em que Lucy tem mais para fazer no filme, é como se o seu desenvolvimento estagnasse. No entanto, Smith é brilhante como Tim e mostra uma grande variedade de emoções, fazendo não só rir, mas também provocando momentos emocionais.

Infelizmente, estas são as únicas personagens humanas que não são ou um vilão clichê que quer governar o mundo ou um polícia ou cientista que servem apenas como dispositivos de exposição. Honestamente, este é bem capaz de ser um dos filmes mais guiados por exposição de 2019. A quantidade de despejos de informação barata e preguiçosamente espalhadas pelo tempo de execução é demasiado para se aguentar, especialmente quando a mesma informação é repetida várias vezes. Desequilibra o ritmo e até mesmo o tom do filme, tornando-o aborrecido durante alguns períodos.

Pokémon: Detetive Pikachu realmente precisava de momentos mais entusiasmantes, de preferência envolvendo Pokémon. Das poucas sequências de ação, a maioria são apenas os protagonistas a fugir de algo e a saltar de penhascos. Muito raramente vemos Pokémon realmente a fazer alguma coisa até ao último ato.

Rob Letterman mostra que tem um leque de grandes qualidades de um realizador competente, mas necessita de trabalhar nos seus defeitos e deixar o papel de argumentista para pessoas mais experientes. Para uma história que se guia fundamentalmente por um mistério, o mesmo é bastante evidente desde os primeiros minutos, com uma exceção notável no final e que terminou o filme numa nota alta.

A voz de Pikachu é brilhantemente trabalhada por Ryan Reynolds e, se estavam preocupados com a sua voz não se misturar bem com o Pokémon amarelo, não estejam. Pikachu é extremamente engraçado e charmoso, carregando o espetáculo inteiro nos seus ombros com uma pequena ajuda de Psyduck. Cubone e Ditto também têm alguns grandes momentos, mas Mewtwo é uma beleza para se contemplar, como esperado. Mesmo não sendo um fã hardcore, senti a imersão do incrível mundo Pokémon que a Warner Bros. construiu e esse é o melhor elogio que posso dar: senti-me como se estivesse num verdadeiro universo Pokémon.

Ao todo, Pokémon: Detetive Pikachu é okay. Para fãs hardcore, pode ser tudo o que alguma vez sonharam, mas para fãs de Pokémon do início dos anos 2000, que pararam de seguir a saga após o início da nova década, os numerosos Easter Eggs e referências podem não ser suficientes para superar as inegáveis questões narrativas. Justice Smith oferece uma excelente performance e Ryan Reynolds é perfeito como a voz de Pikachu, sendo extremamente engraçado e incrivelmente adorável. O CGI é inovador, tornando os Pokémon inacreditavelmente realistas e o seu mundo notavelmente imersivo.

No entanto, mesmo o filme terminando com um toque fantástico, as personagens pouco ou nada desenvolvidas e convencionais, os despejos pesados de exposição, e o mistério não-tão-misterioso abrandam o ritmo e transformam esta adaptação live-action em algo apenas razoável.

Nota:

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