Crítica – A Quiet Place (2018)

A Quiet Place permanece emocionalmente impactante, assim como incrivelmente tenso e repleto de suspense, mesmo após múltiplas visualizações.

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Sinopse: “Uma família vive em silêncio numa quinta, aterrorizada por misteriosas presenças malignas que caçam através do som.”

Desde que Jordan Peele chocou tudo e todos com a sua primeira longa-metragem enquanto realizador, Get Out, ninguém mais questionou o potencial que um ator conhecido pelos seus papéis cómicos podia trazer para o género de horror. Como tal, lembro-me vivamente de descobrir que John Krasinski iria realizar, escrever e protagonizar uma obra de horror original e de baixo orçamento e sentir-me incrivelmente interessado, ao ponto de o considerar um dos meus filmes mais antecipados do ano respetivo. Adoro absolutamente a prestação memorável do ator em The Office, mas nunca voltei a ver nada de relevo por parte do mesmo depois desta série. Adicionar Emily Blunt (Sicario, Edge of Tomorrow) – a sua esposa “um bocadinho mais famosa” – foi definitivamente uma jogada que despertou ainda mais a atenção do público, especialmente tendo em conta que os jovens atores ainda eram desconhecidos na altura do lançamento.

Com a ajuda de Bryan Woods e Scott Beck, Krasinski desenvolveu um argumento baseado numa premissa relativamente simples, mas altamente imaginativa e impactante. Monstros assustadores e letais que caçam exclusivamente através do som não é exatamente um aspeto de história arrebatador, mas a quantidade extrema de tensão e suspense transformam uma sessão de cinema normal numa experiência cinemática de fazer roer as unhas e deixar os nervos à flor da pele.

Felizmente, aquando da minha primeira e única exibição no cinema com A Quiet Place, o público encontrava-se realmente investido no filme, o que acabou por marcar um momento verdadeiramente inesquecível que sei que algumas pessoas não tiveram devido a outros espectadores desrespeitadores. No entanto, se há caraterística que ninguém pode retirar a A Quiet Place, é que funciona tão bem ou melhor ao ver em casa com as luzes apagadas no silêncio do nosso lar.

Alguns espectadores podem olhar para este filme simplesmente como uma peça de horror com muito entretenimento, jumpscares eficazes, valor de choque e monstros fantásticos, tudo excelentes atributos. No fim, a razão pela qual tudo funciona tão bem deve-se indiscutivelmente à família profundamente explorada. Tematicamente, parentalidade e amor familiar são assuntos que Krasinski e a sua equipa de argumentistas expandem detalhadamente, principalmente através da relação entre pai e filha. Ter uma criança é visto por muitos como uma tarefa assustadora, cheia com o medo inevitável de não ser considerado um bom pai ou mãe. As dificuldades que Lee e Regan (Millicent Simmonds) têm em se entenderem um ao outro não só são notavelmente relacionáveis, mas o seu laço também contribui para as cenas mais emotivas do filme.

Lee e Evelyn apenas desejam manter os seus filhos a salvo, mas quando o mundo se encontra repleto com criaturas impiedosas que matam se um alfinete cair no chão, alguns detalhes como ter uma filha surda certamente não ajudam na sua missão. Por outro lado, elevam os níveis de tensão e suspense ao máximo. Krasinski mostra uma tremenda habilidade enquanto realizador ao proporcionar builds-ups excruciantes carregados com suspense e sustos excecionalmente eficientes. A sua capacidade de mudar drasticamente o ambiente de uma cena oferece aos espectadores imensas sequências verdadeiramente cativantes. Em termos de horror, há muito para desfrutar. Desde sequências atmosféricas criativas a pontos de enredo chocantes, A Quiet Place tem algo para todos.

Já abordei o trabalho de Krasinski enquanto realizador e argumentista, mas também oferece o que acredito ser a sua melhor prestação da carreira em longas-metragens. Tanto o próprio como Emily Blunt capturam perfeitamente a sensação aterradora de viver num ambiente pós-apocalíptico. A proteção dos seus filhos transporta um receio avassalador de os perder para os monstros visualmente distintos e ambos os atores brilham nos seus papéis. No entanto, o meu destaque pessoal vai para Simmonds (Wonderstruck) e Noah Jupe (Honey Boy, Ford v Ferrari). Ambos eram jovens atores desconhecidos à data de lançamento original, mas roubam os holofotes das grandes estrelas. Jupe prova que tem tudo para vencer um Óscar – a procura por ele está a aumentar exponencialmente – e Simmonds apresenta uma das melhores interpretações que alguma vez vi de uma atriz surda na vida real, trazendo uma grande autenticidade ao seu papel.

a quiet place 2018 critica echo boomer 3

Todos incorporam as suas personagens na perfeição. As interações entre os atores adultos e mais novos parecem tão realistas e honestas quanto possível, também devido aos guiões lindamente escritos. Tecnicamente, devo elogiar o trabalho fenomenal feito com um orçamento tão baixo. Desde os locais de filmagem ao departamento de som, é um projeto que dá a sensação clara de que todos tiveram uma função essencial na produção deste filme. Nem sequer os monstros contêm defeitos visuais e existem vários close-ups que podiam facilmente ser horríveis, mas os artistas de VFX cumprem com o nível de qualidade necessário e entregam criaturas maravilhosamente “terríveis”. Bem editado (Christopher Tellefsen), bem filmado (Charlotte Bruus Christensen) e a banda sonora (Marco Beltrami) é empregue apenas nos momentos certos.

Só tenho um problema com o filme. Relativamente à narrativa principal, apesar do público ser colocado num mundo fictício, este parece tão real que é difícil ignorar algumas questões lógicas sobre o destino do resto da humanidade. Estas nitpicks não me incomodam muito, mas o final do filme continua a não me deixar satisfeito depois de várias visualizações. Sem spoilar, claro, a última cena parece mais um grito para Hollywood fazer uma sequela, o que tenho de admitir que é um pouco dececionante. Finalmente, um filme que não pertence a universos cinemáticos ou franchises titânicas centra-se em contar uma história envolvente com personagens em quem vale a pena investir o nosso tempo… tudo para terminar num momento algo fora-de-personagem para que mais filmes possam ser feitos?

A Quiet Place permanece emocionalmente impactante, assim como incrivelmente tenso e repleto de suspense, mesmo após múltiplas visualizações. Com um conceito tão único mas tão simples, John Krasinski e os seus co-argumentistas criam uma história de horror guiada por personagens profundamente bem exploradas, carregada com problemas familiares relacionáveis e com prestações impressionantes de todo o elenco.

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Através do valor de choque justificado e dos diálogos não-verbais fortemente cativantes, este filme é mais uma prova de que o melhor horror emerge da notável construção de personagens. O ator popular também demonstra ser um realizador fenomenal, gerando suspense extremo rapidamente, alterando drasticamente toda a atmosfera de uma cena sem perder equilíbrio tonal.

Tecnicamente, não só é como parece genuinamente um filme de orçamento reduzido, onde todos os departamentos têm um impacto percetível no produto final, mas os monstros CGI ameaçadores de aspeto distinto roubam os holofotes. Apesar de algumas questões lógicas e de um final que parece mais corporativo do que indie, o meu amor por esta obra mantém-se intacto.

Esperemos que a sequela não seja uma desilusão.

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