Crítica – Gone Girl

Com um dos melhores argumentos e elencos da década respetiva, Gone Girl não podia ser mais chocante.

Gone Girl
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Sinopse: “Em Carthage, Mo., o ex-escritor nova-iorquino Nick Dunne (Ben Affleck) e a sua glamorosa esposa Amy (Rosamund Pike) apresentam um retrato de um casamento feliz. No entanto, quando Amy desaparece no quinto aniversário do casal, Nick torna-se o principal suspeito do seu desaparecimento. A pressão policial resultante e o frenesim da imprensa fazem com que a imagem dos Dunnes de uma união feliz desmorone, levando a perguntas tentadoras sobre quem Nick e Amy realmente são.”

E é isto. O último filme de David Fincher que irei rever antes de Mank, a sua próxima obra-prima… espero eu. Já passei por Se7en, Fight Club, Zodiac, The Social Network e, agora, é altura da última película lançada por Fincher, Gone Girl.

Claramente, Fincher adora trabalhar com pessoas que conhece. Jeff Cronenweth foi o diretor de fotografia em metade dos seus filmes, tal como Kirk Baxter como parte da equipa de edição e Trent Reznor e Atticus Ross na banda sonora. Até o seu produtor artístico, Donald Graham Burt, diz “presente” desde Zodiac. No entanto, Fincher trabalha sempre com um argumentista diferente e, desta vez, associa-se a uma estreante no cinema, Gillian Flynn, autora do livro que origina esta adaptação.

Normalmente, quando se trata de argumentistas, levo esta mudança de media de pé atrás, visto que escrever um livro não é exatamente o mesmo que escrever um argumento (é completamente diferente, estava a ser generoso). Dito isto, Flynn destrói as minhas dúvidas por completo, entregando um dos melhores guiões de 2014. Desde o desaparecimento excecionalmente cativante e desconcertante de Amy ao tema subjacente sobre como a imprensa trata este tipo de notícia, o argumento de Flynn é capaz de desenvolver cada narrativa da forma mais perfeita possível.

Com um uso notável de rodapé com a data e hora do dia, o espetador acompanha de forma detalhada os eventos que se vão acumulando até ao dia trágico através de diferentes perspetivas, principalmente as de Amy e Nick.

O maior sucesso da história de Gone Girl encontra-se na capacidade de retratar a influência da imprensa no que o espetador pensa sobre as personagens, tal como na vida real. Hoje em dia, as pessoas nem clicam para ler um artigo completo e entender o seu contexto. Um simples título, por mais longe da verdade que esteja, é suficiente para iniciar um debate online a nível global. O mesmo vale para os canais de televisão e os seus noticiários: se aparece nas notícias nacionais, então deve ser verdade, pensa o público.

Posso estar errado quando escrevi acima a questão da “mudança de media”, mas disto tenho a certeza: interpretam todas as notícias de pé atrás, pois na maioria das vezes, a história completa e verdadeira não é totalmente revelada.

Gone Girl

Isto leva-me a Ben Affleck (Justice League, The Way Back) e ao que considero um dos melhores castings da década respetiva. Caso desconheçam, Affleck foi perseguido durante toda a sua vida por jornalistas que se esforçaram ao máximo para expor a sua vida pessoal, não importa o quão desrespeitosos possam ser.

Nick passa pelo mesmo obstáculo. Existem notícias infindáveis sobre Amy e torna-se uma questão de tempo até Nick começar a ser acusado de ser um marido terrível e, finalmente, o assassino óbvio e irrefutável, mesmo que a imprensa não consiga encontrar uma única prova. Affleck nem precisa de incorporar uma nova personagem, já que possui a experiência de vida necessária para oferecer uma prestação absolutamente brilhante. Definitivamente, um dos meus atores favoritos a trabalhar hoje em dia.

Continuando no reino das performances, passo para Rosamund Pike (Radioactive). A sua interpretação de Amy é praticamente o oposto de Affleck, no sentido em que este tem uma exibição aparentemente simples, mas poderosa, enquanto que Pike possui um papel muito mais complexo. Consegue ser ameaçadora e assustadora, mas também amorosa e gentil. O quebra-cabeças em torno do seu desaparecimento é baseado principalmente num enigma de perspetivas, pois é contada ao espetador a mesma história através de lentes diferentes, ao longo da primeira metade de Gone Girl.

Honestamente, esta é, provavelmente, a melhor prestação da carreira de Pike, personificando uma personagem de extremos, o que permite demonstrar o seu alcance emocional de fazer cair o queixo.

Carrie Coon (Margo Dunne) é outra atriz que comecei a gostar cada vez mais de assistir e é fantástica como irmã de Nick. A sua química com Affleck é perfeita e espero sinceramente que um dia se torne numa das atrizes mais cobiçadas de Hollywood. Tyler Perry (Tanner Bolt) também é muito bom como advogado de Nick, mas Kim Dickens é excelente como a Detective Rhonda Boney, que desempenha parcialmente o mesmo papel que o espetador, confiando que o que ela vê e ouve é, sem dúvida, a verdade final.

O argumento de Flynn encontra-se repleto com twists, algumas mais surpreendentes do que outras, mas o terceiro ato guarda uma reviravolta inesperada e chocante, levando a um final poderoso que deixará a maioria do público sem palavras, eu inclusive.

Dois pequenos problemas. Um deles provavelmente já repararam, visto que deixei Neil Patrick Harris (Desi Collings) fora dos elogios ao elenco. Harris é decente no que toca à interpretação da sua personagem, mas não consigo deixar de sentir que não é o ator certo para o papel. Este é um filme clássico de Fincher: dark, sombrio, deprimente, trágico e com a sua própria quantidade de violência e sangue. Na verdade, possui um dos usos de sangue mais nojentos e perturbadores numa única cena que alguma vez testemunhei. Harris é um excelente ator, mas destaca-se do resto do elenco e não é pela positiva.

Repetindo para deixar claro: bom desempenho, apenas não é o ator certo para o papel. O outro problema é, admitidamente, um nitpick irrelevante em relação a alguns pormenores relativos à história que arriscam um pouco a credibilidade da mesma.

Gone Girl

No entanto, não deixa de ser um filme fenomenal e é outra evidência do cinema visual magistral de David Fincher. Mais uma vez, Fincher reúne-se com membros conhecidos das suas equipas técnicas para criar um visual e uma sensação de luxo. Com uma edição perfeita, uma banda sonora memorável e um trabalho de câmara fantástico, Gone Girl é tecnicamente magnífico, mas é o argumento da estreante Gillian Flynn que rouba os holofotes.

Ostentando twists de fazer cair o queixo, incluindo um terceiro ato e respetivo final brutalmente chocantes, a narrativa de Flynn é incrivelmente envolvente devido à sua estrutura notável e mistério intrigante, nunca perdendo uma grama de entusiasmo ou interesse. Ben Affleck é um dos melhores castings da década ao interpretar um homem cuja vida é profundamente afetada pela imprensa, que nunca deve ser totalmente confiável (uma mensagem clara e poderosa para o público), enquanto Rosamund Pike entrega a melhor prestação da sua carreira com uma exibição emocionalmente devastadora.

Apesar do erro de casting com Neil Patrick Harris num filme tão sombrio e uns nitpicks insignificantes sobre a investigação, tudo e todos transformam Gone Girl num dos melhores filmes da década passada.

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