Crítica – Se7en

A forma como David Fincher usa o suspense, a tensão e choque, torna Se7en numa obra de arte tecnicamente perfeita.

Se7en
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Sinopse: “Quando o detetive William Somerset (Morgan Freeman) aborda um caso final com a ajuda do recém-transferido David Mills (Brad Pitt), descobrem uma série de assassinatos elaborados e estranhos. Percebem logo que estão a lidar com um serial killer que persegue pessoas que considera representarem cada um dos sete pecados mortais. Somerset também cria uma amizade com a esposa de Mills, Tracy (Gwyneth Paltrow), que vive com medo de estabelecer um futuro numa cidade cheia de crime.”

Nunca escrevi nem pensei nos meus filmes favoritos de sempre. Não acredito em ter um Top 10 ou Top 20 definitivo de todos os filmes que alguma vez vi. No entanto, se tivesse mesmo que escrever esta lista especial, não tenho dúvidas de que Se7en estaria presente. Obviamente, esta é uma visualização repetida do clássico que impactou o cinema e lançou a notável carreira de David Fincher (também ignoro o facto de Alien 3 estar conetado a Fincher, devido aos problemas de produção conhecidos). Com o seu próximo filme, Mank, a chegar à Netflix daqui a algumas semanas, decidi revisitar parte da sua filmografia. Se7en será o primeiro de cinco filmes de Fincher que irei rever ao longo desta semana.

Assisti a este filme inúmeras vezes, mas, para ser completamente honesto, não o vejo há tanto tempo que já nem me lembrava exatamente de alguns pontos importantes do enredo nem de um componente-chave sobre o final. Isto ajudou-me a experienciar Se7en de uma forma fascinante. O argumento de Andrew Kevin Walker tem uma das narrativas mais intrigantes, misteriosas e cativantes que já observei até aos dias de hoje. Desde o primeiro ao último segundo, senti-me constantemente na ponta do sofá, com níveis severos de ansiedade e incrivelmente tenso. A morder as unhas, a mexer a perna irrequietamente, a mudar de posição… é tão hipnotizante que só estou a escrever sobre o mesmo mais de 24 horas depois.

Se7en

Um dos aspetos mais impressionantes é como Fincher é capaz de deixar o espetador desconfortável ao mostrar apenas uma única morte no ecrã. Este é um filme extremamente dark, perturbador e está encharcado de sangue, repleto com exibições horríveis de cadáveres, mas nunca a cena do crime em si. Através de uma simples foto ou uma linha direta de diálogo, Fincher força a imaginação do espetador a trabalhar e é, sem dúvida, tanto ou mais eficaz do que uma sequência de assassinato visualmente horrível. Como a premissa implica, o serial killer é inspirado pelos “sete pecados mortais” e vai atrás dos respetivos pecadores, matando-os (ou deixando-os suicidarem-se) de forma inovadora, virando o pecado contra o pecador.

Os casos da gula e preguiça são visualmente brutais, mas o homicídio da luxúria é aquele que fica a assombrar a minha memória. Este último é, também, o menos explícito, deixando para as pessoas com mentalidade aberta imaginar o ato desprezível. Em 1995, um filme com um ambiente tão negro e uma história tão sombria não poderia ser bem recebido e Se7en teve a sua cota de críticas negativas, afirmando que era demasiado obscuro, sinistro, excessivamente violento e que o final era absolutamente inaceitável.

Com o tempo, encontrou o seu sucesso, ganhou fãs em todo o mundo e, agora, é considerado por muitos como um dos melhores filmes alguma vez feitos, incluindo a minha pessoa. Desde o elenco excecional ao entusiasmante trabalho de detetive, o terceiro ato destaca-se como um dos finais mais chocantes de todos os tempos.

Esta crítica encontra-se livre de spoilers, pois não desejo aos leitores que ainda não tiveram a oportunidade de ver este filme que tenham uma peça tão magnífica de cinema arruinada. Daí estar também a esconder um certo ator, tal como a equipa de marketing fez na data original de lançamento (lá chegarei). O terceiro ato de Fincher não tem quaisquer falhas a denotar. Tudo o que é exibido no ecrã nos últimos 20 minutos é perfeição cinematográfica. Desde o build-up impressionantemente carregado de suspense até ao momento climático de fazer cair o queixo, passando por uma revelação alucinante, a conclusão de Se7en é e permanecerá como um dos finais mais brutalmente chocantes da história do cinema.

Se7en

Morgan Freeman e Brad Pitt partilham uma química fantástica, retratando duas personagens icónicas que não podiam ser mais diferentes uma da outra. Somerset é um detetive notável com extrema atenção aos detalhes, muito conhecedor e sempre curioso sobre o caso em questão. Freeman incorpora esta personagem sem esforço, entregando uma prestação subtil, mas poderosa. Já Pitt interpreta Mills, um substituto infantil, pouco focado e imaturo do detetive anterior prestes a reformar-se. Apesar da sua aparente falta de ética no trabalho, Mills é inteligente, implacável na tentativa de encontrar o assassino e quer desesperadamente provar-se a si e aos outros. Pitt, assim como Freeman, encarna esta persona perfeitamente e também oferece uma interpretação incrível.

Tecnicamente, por onde começar? Desde a banda sonora assombrosa de Howard Shore à cinematografia género documentário (Darius Khondji) que oferece uma atmosfera tremendamente realista, acaba por ser a fenomenal produção artística que se destaca. Fincher queria que a cidade suja, chuvosa e deprimente parecesse autêntica e tão real quanto possível. Os primeiros diálogos do filme apontam a essa desolação e horror da cidade, mas, mesmo sem estas conversas, qualquer espetador conseguirá reconhecer a ausência de cor, alegria e vida neste local desconhecido. As técnicas de filmmaking utilizadas por Fincher são demonstradas em pleno esplendor para todos apreciarem e este foi apenas o seu início.

Filmes como Se7en são impossíveis de serem criados hoje, ponto final. Nunca seria concebível esconder completamente um dos atores principais da imprensa e/ou dos trailers. Vivemos numa época em que a publicidade para um filme deve conter tudo e todos. Hoje em dia, os trailers mostram demais, algo que não é novidade para ninguém. O final foi forçado por Pitt e Fincher, visto que o estúdio queria uma conclusão mais mainstream. Agora, os cineastas podem ter mais liberdade, mas ainda existem inúmeros casos de produtores executivos mudarem um filme sem a vontade e/ou permissão do realizador. Se7en foi um filme lançado numa altura em que nem sequer devia ter sido filmado. Felizmente, para nós e para o cinema, foi.

Se7en

Se7en é bem capaz de ser o melhor segundo filme de um realizador na história do cinema e é, sem dúvida, um dos meus filmes favoritos de sempre. O clássico de David Fincher possui um dos argumentos mais cativantes que já assisti, marcado com uma história extremamente sombria, violenta, perturbadora e visualmente nojenta, que termina com uma das conclusões mais emocionalmente chocantes de sempre.

A ausência de cenas de assassinato no ecrã é o elemento mais surpreendente e efetivamente poderoso de todo o filme, deixando o trabalho desagradável de imaginar uma sequência específica de homicídio à mente do espetador. Morgan Freeman e Brad Pitt são extraordinários ao interpretarem os detetives agora icónicos, entregando duas prestações verdadeiramente brilhantes.

O estilo de filmmaking marcante de Fincher começa aqui, com todos os aspetos técnicos a contribuírem para o realismo incrível do filme. Desde o simples trabalho de câmara quase documental à banda sonora sinistra, é a produção artística autêntica que define o tom deprimente, a atmosfera pesada e a cidade chuvosa, incolor e sem vida. No seu todo, Se7en é uma obra de arte tecnicamente perfeita. Não poderia recomendar mais.

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