Crítica – Citizen Kane

Inegavelmente, uma das obras-primas mais magníficas da história. Uma que todos os amantes de cinema devem assistir.

Citizen Kane
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Sinopse: “Quando um jornalista é designado para decifrar as palavras moribundas do magnata de um jornal, Charles Foster Kane (Orson Welles), a sua investigação gradualmente revela o fascinante retrato de um homem complexo que fugiu da obscuridade para alturas impressionantes. Embora o amigo e colega de Kane, Jedediah Leland (Joseph Cotten), e a sua amante, Susan Alexander (Dorothy Comingore), tenham derramado fragmentos de luz sobre a vida de Kane, o jornalista teme que nunca consiga desvendar o mistério da palavra final de Kane: “Rosebud”.”

O “melhor filme de todos os tempos”, assim todos declaram. Tenho revisitado a carreira de David Fincher na última semana (Se7en, Fight Club, Zodiac, The Social Network e Gone Girl), visto que está para chegar a sua próxima película, Mank, cuja premissa se baseia na história por detrás da polémica gerada em torno dos créditos de argumento de Citizen Kane, em 1941. Herman J. Mankiewicz ajudou Orson Welles a escrever o guião para este filme, mas se essa contribuição foi suficiente para justificar o seu nome nos créditos do mesmo, bem… Aparentemente, ficou decidido que Mankiewicz (conhecido como Mank) realmente merecia esse reconhecimento, tendo em conta que o seu nome se encontra na secção “argumento por” em todos os sites conhecidos. No entanto, esta crítica não diz respeito a essa questão externa, mas sim ao filme mais globalmente aclamado na história do cinema.

Sempre defendi que a opinião de alguém sobre um filme é tão válida quanto a de todos os outros. A menos que os argumentos utilizados sejam desrespeitosos e redutores como o clichê “é uma seca” ou “não gosto deste ator na vida real, portanto o filme é horrível”, estarei sempre disponível para discutir um filme com qualquer pessoa que mostre respeito pelo mesmo.

Há uma pergunta interessante que me fazem frequentemente: “devo assistir a este filme antigo de que todos falam? É só que…” e geralmente param por aqui. Provavelmente, com medo de dizer algo como “é que é em preto e branco” ou “os visuais são tão antiquados”. Este é um comportamento bastante comum no mundo do entretenimento que é assistir a filmes.

Respondo sempre com outra pergunta: “se realmente adoram filmes, por que razão não haveriam de querer ver um filme tão aclamado? Que importa o ano de lançamento?” E, novamente, as pessoas hesitam porque nunca se perguntaram sobre isto mesmo. Temem que a sua “discriminação” contra filmes antigos possa afetar a sua opinião geral sobre os mesmos e, consequentemente, encontrarem-se naquela posição complicada que é fazer parte de uma minoria muito pequena.

Citizen Kane

Se há algo que nunca mudou nesta área é a falta de bom senso que as pessoas têm por não saberem como comportar-se quando fazem parte de um pequeno grupo com uma opinião pouco popular. Uns seguem o caminho da ofensa, atacando qualquer pessoa que discorde deles. Outros criam teorias da conspiração, defendendo firmemente que a maioria das pessoas pensa o contrário porque “seguiram o rebanho”, não possuindo uma opinião pessoal genuína. Concluindo o que quero dizer, se realmente amam a arte que é o cinema, se gostam de ver filmes no grande ecrã, então assistir a filmes mais antigos só vai aumentar essa paixão.

No entanto, existe uma certa responsabilidade que as pessoas devem sempre ter. Como espetadores, devemos ser capazes de nos colocarmos no período adequado. Não podemos assistir a um filme de 1941 com as regras culturais, tecnológicas e sociais atuais nem com uma mentalidade de 2020. Seria extremamente injusto para estes filmes, uma vez que o nosso prazer será afetado por visões políticas modernas, perspetivas religiosas do século XXI e diferenças históricas. Iremos observar um filme como Citizen Kane e pensar de forma enganadora: “não vejo nada remotamente novo ou inovador de qualquer forma ou feitio”.

Isto leva-me a algo que costumo recomendar a todos os amantes de cinema como eu. Não importa se fazem isto antes ou depois da visualização de um “filme antigo”, mas não custa nada fazer uma pesquisa rápida sobre o seu impacto no cinema e na nossa cultura. Tentem entender as razões pelas quais o filme é tão especial. Aprendam o que procurar ao assistir ao filme e ajustem o vosso conhecimento geral para o ano de lançamento respetivo. Tentem imaginar-se a viver nesse ano, a sair de casa para ir ao cinema mais próximo e a sentarem-se no vosso lugar favorito para ver um filme de estreia dessa semana. Se forem capazes de fazer tudo isto, então não há absolutamente nenhuma maneira de não reconhecerem um Citizen Kane sem precedentes, inovador e historicamente impactante.

Ainda hoje, os críticos de cinema recebem aquele julgamento infantil e ignorante do género: “os críticos não se sabem divertir, só valorizam coisas artísticas com as quais ninguém se importa”. Não vou entrar no debate sobre este comentário típico, caso contrário, teria que escrever uma tese, mas vou abordar a última parte. As “coisas artísticas” são do que os filmes são feitos. Sem os artistas responsáveis por cada componente técnica, não teríamos evoluído ao ponto de ter os filmes visualmente alucinantes que recebemos todos os meses.

Bem, Citizen Kane impactou todas as peças de cinema e moldou a indústria cinematográfica. As pessoas reclamam que os realizadores não conseguem partilhar a sua visão original em 2020? Tentem criar um filme há 80 anos, onde os estúdios eram constantemente responsáveis pela versão final.

Citizen Kane

Orson Welles mudou este processo e muito, muito mais. Desde a campanha de marketing original (foi a primeira vez que um trailer não conteve uma única imagem do filme em si) à estrutura inventiva de storytelling, não é possível negar que os aspetos técnicos inovadores transformaram o cinema para sempre. Naquela época, os tetos não eram mostrados, câmaras hand-held não eram conhecidas, a iluminação tinha regras rígidas e ângulos não convencionais simplesmente não eram usados. A cinematografia de Gregg Toland mudou tudo isso e influenciou tremendamente a maneira como os filmes são feitos hoje em dia. Os seus métodos experimentais deram origem ao uso imaginativo do “deep focus”, onde a câmara mostra o primeiro plano, o fundo e tudo entre os mesmos, todos perfeitamente focados.

Toland foi tão crucial para o sucesso de Citizen Kane que Welles decidiu dividir a última “página” de créditos com ele. Vernon L. Walker, supervisor de VFX, aplicou técnicas tão impressionantes que, há alguns meses, tivemos a conhecida equipa dos Corridor Crew a analisar uma sequência específica do filme e a maioria não sabia como Walker tinha feito. Este último foi pioneiro em criar planos com grandes multidões e espaços interiores amplos. A edição de Robert Wise é o componente principal na famosa montagem do pequeno-almoço, criando uma sequência fluida no mesmo local, enquanto os atores mudam de roupa e maquilhagem entre cortes, dando a sensação do tempo a voar, mesmo que a cenografia permanecesse igual.

Em todos os outros aspetos técnicos, inovação é a palavra-chave. Bailey Fesler e James G. Stewart utilizaram técnicas de rádio raramente aproveitadas para simular barulho e cantigas da multidão. Bernard Herrmann compôs uma banda sonora pouco convencional devido às suas pausas e trechos curtos, algo totalmente diferente da típica música non-stop dos filmes de Hollywood.

Finalmente, o argumento de Mankiewicz e Welles. A sua estrutura baseada em flashbacks e numa linha temporal não linear foi única para aquela época. É provavelmente devido a esta característica que o filme não parece ser tão antigo como outros filmes da mesma altura, ao vê-los nos dias de hoje. Citizen Kane estava décadas à frente do seu tempo, tanto tecnicamente como em termos da sua história. E o final… tão ou mais poderoso e surpreendente como da primeira vez que o vi.

Citizen Kane

Tornou-se o filme mais influente da história do cinema. Está constantemente no topo de muitas listas de “melhores filmes de sempre” e mantém-se o filme número um para vários críticos. O filme de Orson Welles é, provavelmente, o que mais hype recebeu até hoje, gerando algum receio nas pessoas que apenas acharam que foi “okay” ou que simplesmente não apreciaram. Se acham que Citizen Kane é um pouco aborrecido ou que os atores não são lá muito bons ou até que não se sentiram fascinados por nada… não estão sozinhos. Uma grande maioria fala sobre este filme como se fosse uma experiência única na vida, um filme que transportará os espetadores para Marte ou para outra galáxia. É compreensível que muitos simplesmente não encontrem nenhuma das qualidades fenomenais que todos mencionam.

O facto da maior parte do filme ser incrivelmente inovador não retira o outro facto de que é um filme de 1941. Se fosse lançado hoje (com todas as modificações naturais), a maioria do público consideraria-o um filme muito bem realizado, tecnicamente excecional e possuindo um estudo de personagem notável. Não significa que tem que ressoar com todos. Não existe nem existirá nenhum filme na história que seja adorado ou odiado por toda a gente. Não peço que aprendam a adorar Citizen Kane. Peço que compreendam o seu legado, origem e o impacto inegável que tem no cinema e na nossa cultura. Praticamente todos os filmes que vemos em IMAXs gigantes hoje em dia devemos a Orson Welles e à sua produção visionária.

Praticamente 80 anos após o seu lançamento, Citizen Kane continua a ser considerado por muitos como “o melhor filme de sempre”. Tornou-se, sem dúvida, na peça de cinema mais popular de sempre, passando por décadas de análises profundas.

Tudo o que necessitava de ser dito sobre o mesmo já foi declarado, gravado e escrito. Nenhum filme justifica expetativas maiores por parte dos espectadores, mas este hype tremendo torna o filme perigoso. As pessoas temem ser julgadas por não entender a aclamação mundial ou por simplesmente não gostarem. É um pouco aborrecido? Alguns atores são pouco convicentes? A história não é tão memorável e hipnotizante como esperavam? Não tenham receio de responder “sim”, pois todas estas opiniões são totalmente compreensíveis. Nada disto contradiz a influência indiscutível que teve no cinema e na sua história.

Tudo sobre a produção e origem deste filme, os aspetos técnicos impressionantes que definiram inúmeros precedentes e a narrativa inovadora, tudo isto prova que Orson Welles foi um cineasta perfecionista muito à frente do seu tempo. É o melhor filme de todos os tempos? É um debate interminável do qual não desejo fazer parte. Mas é inegavelmente uma das obras-primas mais magníficas da história, uma que todos os amantes de cinema devem assistir.

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