Análise – Metro Exodus

por David Fialho

Numa indústria saturada de jogos na primeira pessoa com um foco competitivo, são cada vez menos os títulos deste género que oferecem experiências solitárias sem elementos multijogador ou de componente social. Felizmente, ainda existem algumas séries ancoradas ao registo mais narrativo, como o caso de Metro Exodus, que fecha a trilogia desta série de jogos na primeira pessoa, produzida pela polaca 4A Games.

Tal como a série de livros em que se inspira, de Dmitry Glukhovsky, os jogos anteriores da série Metro foram bem-recebidos pelo seu conceito de história bastante interessante e pela promessa de levarem os jogadores até a um mundo pós-apocalíptico inspirado no medo de uma guerra nuclear e de ambientes resultantes de eventos como a tragédia de Chernobyl. A estes destaques, juntam-se ainda as suas virtudes enquanto jogo, destacando-se pela sua excelente apresentação e ritmo.

Para um título da série Metro, esperam-se ambientes detalhados e sombrios, uma variedade vasta de inimigos, animações fluidas e realistas, um bom sistema de progressão e de imersão e, claro, uma história relativamente convincente. Metro Exodus tem um pouco disso tudo, ainda que pudesse ser um pouco mais afinado em algumas áreas.

Se os jogos anteriores se passavam, quase na sua totalidade, em ambientes fechados e com níveis mais lineares, a novidade de Exodus é que promete uma experiência mais libertadora, com níveis abertos, ao estilo de jogos em mundo aberto, lá está, e com um foco na exploração do mundo fora dos túneis de Moscovo.

A nossa aventura começa com o protagonista Artyom (nome que vão ouvir muitas vezes) a explorar túneis e bunkers perto da superfície de uma cidade de Moscovo congelada. Ao ser atacado por um conjunto de ratos mutantes, conhecemos as personagens secundárias mais importantes deste título, como a sua mulher Anna e o pai dela, o General Milles.

Este breve episódio, em conjunto com uma excelente cinemática de resumo, são dois momentos que colocam perfeitamente o jogador a par do que ficou para trás, em particular no que toca à (des)construção deste mundo.

Artyom, que sonha em encontrar o paraíso, descobre numa outra exploração com Anna que o mundo não está assim tão destruído como pensavam, e após uma série de peripécias e reviravoltas, temos a parte principal do jogo, com níveis de mundo aberto.

Metro Exodus tira notas de jogos de outras eras, como, por exemplo, Half-Life 2, oferecendo níveis extensos que se afunilam em momentos importantes para história, criando um sentimento de urgência por vezes desproporcional à restante experiência e tom do jogo.

Se, por um lado, os níveis mais abertos nos oferecem mais conteúdo e oportunidades de exploração e escolha de caminhos – ao mesmo tempo que nos apresentam um ritmo mais lento e reminiscente de RPGs pós-apocalípticos como Fallout – , por outro, os níveis mais fechados tendem a ser mais focados na ação e na história, com sequências longas que quebram o ritmo libertador das partes mais interessantes do jogo.

Esta liberdade vem acrescentar uma nova camada à forma como a nossa história progride, em particular quando comparamos as nossas aventuras com as de outros jogadores. Uma vez que há uma certa falta de orientação no que toca aos objetivos secundários, a exploração e o encontro com outras personagens neste mundo tornam estes momentos em episódios orgânicos e inesperados, com implicações severas, que podem, ou não, resultar com a morte de personagens secundárias.

É também fácil ficar investido nesta jornada graças ao elenco de personagens que nos acompanham. Apesar dos atores que lhes dão voz não serem os melhores, a forma como atuam, aliada à escrita cliché e à direção quase inocente das interações, tornam todos estes momentos minimamente adoráveis, mesmo sabendo que não são nada bons.

Ao longo da jornada, é fácil sentirmo-nos próximos deste grupo e temer pela sua segurança, algo que se acaba por refletir na forma como exploramos os cenários e delineamos a nossa abordagem através dos vários objectivos secundários. Um passo em falso, um combate desnecessário ou um diálogo não ouvido podem mudar o rumo da história e determinar o destino de determinadas personagens.

Apesar do grande grosso da história ser igual para todos, a jornada pode ser ligeiramente diferente de jogador para jogador, algo que também poderá ser bastante satisfatório para os jogadores que pretendem repetir Metro Exodus.

Visualmente, Metro Exodus começa a revelar os limites da geração atual, em particular nas consolas. Este foi um jogo desenvolvido com o PC em mente, tirando partido das novas tecnologias de renderização de imagem, como reflexos mais afinados e sistemas de iluminação mais realistas. Nas consolas, em particular na PlayStation 4, faz-se sentir este passo em frente. Apesar de ser uma delícia de ver no ecrã, já se nota algum sacrifício de características que baixam um pouco a qualidade da imagem final, com efeitos que tornam a imagem mais suja e difusa e uma apresentação pouco fluída e mais pesada.

Os primeiros momentos com Metro Exodus também não são muito simpáticos no que toca à jogabilidade devido à falta dessa fluidez. Há uma sensação de arrasto ao mover a arma e fazer pontaria pode ser um desafio até nos habituarmos aos movimentos da personagem. Mas apesar destes inconvenientes, Metro Exodus revela uma força enorme no que toca à diversidade de ambientes e ao modo como nos quer manter investidos e imersos neste mundo.

Ao longo do jogo, vamos viajar por locais diferentes num período de tempo que se alastra ao longo de um ano, com as quatro estações a merecerem o seu próprio nível e com ambientes apropriados. Da cidade nevada passamos para uma zona pantanosa, seguida de um deserto areoso, florestas de folhas caídas e voltando de novo a uma cidade congelada.

Mesmo nas partes mais lentas do jogo, Metro Exodus é raramente aborrecido, conseguindo injetar na ação episódios aleatórios durante as nossas aventuras mais livres.

Metro Exodus não é, no geral, o jogo polido que se fazia antecipar, mas, ainda assim, é um jogo competente que não se deixa levar muito a sério apesar dos temas que aborda e da promessa de imersão que faz. É bonito, tem charme, tem alma, é assustador quando quer e dá-nos a liberdade em doses necessárias e raras neste género de jogo.

Metro Exodus está disponível para PC, PlayStation 4 e Xbox One.

Este jogo foi cedido para análise pela Ecoplay.

Deixar uma resposta

Também pode interessar

O Echo Boomer utiliza cookies para dar a melhor experiência possível aos nossos leitores. Aceitar Ler mais

%d bloggers like this: