Em Dosa Divas, o novo RPG da Outerloop Games, a culinária é o poder capaz de unir um mundo mergulhado no corporativismo numa aventura acessível, mas igualmente pessoal sobre três irmãs em luta contra o passado.
Não menosprezem o poder de uma boa refeição. Existe sabedoria na confeção de uma receita, há uma história por detrás da combinação de ingredientes que damos como garantida. A culinária é, em vários sentidos, um retrato fiel de uma comunidade, um espelho para a sua história e para as pessoas que vivem o seu dia-a-dia. Para a minha avó, natural do Alentejo, que sentiu os efeitos da fome durante a opressão do Estado Novo, a hora da refeição era sagrada. As receitas eram passadas de mães para filhas, todas elas com passos e medidas meticulosas que representavam as memórias de antepassados, como se fossem o segredo para a longevidade de uma família. Em Dosa Divas, este amor pela culinária é o centro da aventura e da história das irmãs Samara, Amani e Lina, mas sobre o manto de um RPG acessível, mas igualmente divertido que se propõe a ser uma porta de entrada até para aqueles pouco familiarizados com o género.
O mundo de Dosa Divas é um reflexo deste amor e carinho pela culinária, representado através de uma família disfuncional, marcados por uma realidade corporativa que ameaça o tradicionalismo e a expressão artesanal que tanto associamos ao ato de cozinhar. Amani está de regresso a casa, dez anos depois, numa tentativa de se reencontrar com a família, mais especificamente com os seus pais, depois de um acidente que lhe custou uma perna. No entanto, o mundo que Amani reencontra é tudo menos o que esperava. Se a sua irmã Samara a recebe de braços abertos, ainda que esconda alguma mágoa pelos anos de distância, já Lina transformou-se na CEO de uma enorme corporação que quer terminar com a culinária. Para Lina, os alimentos artificiais, vendidos em embalagens e descartáveis, são o futuro. O plano é eliminar as horas em frente ao fogão, a procura de alimentos e receitas, tudo em prol de uma maior sustentabilidade. Para tal, Lina e a sua corporação não têm problemas em explorar os antigos amigos de Amani e obriga-los a transformarem-se na engrenagem de uma máquina capitalista que ameaça destruir o mundo. A metáfora não é propriamente complexa, mas é através da magia e calor da culinária que encontramos o lado humano num mundo cada vez mais fragmentado.
O foco de Dosa Divas é certamente a sua narrativa, a história de três irmãs separadas por dez anos, cujas mágoas são agora testadas. O passado é revisitado regularmente ao longo da campanha, onde descobrimos mais sobre a família das irmãs, o restaurante que geriram e até os mechas que encontraram escondidos no solo, seres poderosos que tanto podem ser guardiões da terra, como os seus maiores inimigos. Dosa Divas segue o modelo RPG à risca, mas sem a grandiosidade que associamos ao género, mantendo o foco nas questões familiares e nas histórias pessoais de amigos e trabalhadores que procuram melhores vidas. As personagens são sólidas, a combinação entre humor e drama funciona bem, e existe um certo mistério em torno das três irmãs que dá maior profundidade a uma campanha que acaba por ser demasiado linear para o género em que se insere.

De facto, Dosa Divas propõe-se a dar-nos uma experiência destilada do género RPG em vários sentidos. A exploração, por exemplo, é limitada a um conjunto de áreas, mas a liberdade de movimentos é constantemente condicionada por níveis com pouco para conhecermos e descobrirmos. As zonas são interligadas por um mapa-mundo simples e limitado em zonas exploráveis, onde não existe mais nada a visitar senão as cidades principais da região, e a maioria dos cenários são construídos sobre uma certa verticalidade, interligados por pequenas ilhas que separam personagens e inimigos ou então pontos de interesse – como locais de pesca, um clássico para o género – e pouco mais. O design é limitado, mas Dosa Divas tenta compensar ao dar-nos atividades secundárias, como alimentar personagens esfomeadas e destruir a propaganda de Lina e da sua corporação. Quanto mais ajudamos os habitantes de cada zona, mais aumentamos a sua qualidade de vida e desbloqueamos habilidades e itens para a nossa equipa.
Como seria de esperar, a culinária está no centro da ação e muitos dos problemas que enfrentamos em Dosa Divas podem ser resolvidos pela receita certa. Ao controlo do seu mecha, Samara e Amani podem criar vários tipos de dosas, que variam de qualidade e quantidade de acordo com os ingredientes que encontramos. O processo de culinária é representado através de minijogos, onde temos de acertar no timing certo, rodar o analógico ou então carregar rapidamente até aumentarmos uma barra de progresso. Quanto melhor for a nossa prestação, maior será o número de dosas que conseguimos criar através de uma só confeção. O processo é simples, ainda que não chegue a ser automatizado, e algum do desafio vem da descoberta e troca de ingredientes para darmos aos nossos clientes e amigos o que eles procuram. Os ingredientes podem ser encontrados pelos cenários, cada zona tem o seu leque de frutos e vegetais, mas também através da loja de Kabi, onde podemos trocar e comprar tudo o que nos falta. É absolutamente necessário estarmos atentos aos cenários para garantirmos que temos todos os ingredientes possíveis porque nem todas as receitas são iguais.
O que seria um RPG sem um sistema de combate sólido? Inspirado por Super Mario RPG e as suas sequelas, Dosa Divas adapta o sistema por turnos da série da Nintendo e aproveita a mecânica de timing para dar alguma vida à jogabilidade. Apesar de termos poucas opções em combate – ataque normal, habilidades e a possibilidade de realizarmos um ataque especial em equipa –, a aposta nos timings é acertada e dá mais dinamismo aos combates porque temos de estar sempre atentos. Para aumentarmos o poder de ataque ou evitarmos ataques, temos de acertar no tempo certo. Se tivermos sucesso, vemos o dano a aumentar ou, então, temos a doce certeza de que evitamos um ataque inimigo. Os ataques e habilidades regem-se por este timing e Dosa Divas faz um excelente trabalho ao definir os tempos de resposta, e nunca senti que estava a ser prejudicado por um mau input.

O combate não se limita à utilização do timing e Dosa Divas introduz mais dois sistemas que irão facilmente reconhecer de outros jogos do género. O primeiro é um sistema de fraquezas, onde temos de descobrir que tipo de ataque é o mais eficaz contra um dos capangas de Lina. Os elementos em Dosa Divas seguem o esquema da alimentação, como seria de esperar, e são divididos entre condimentos, especiarias, acidez, entre outros. Se acertarmos na fraqueza do nosso inimigos, nós estamos lentamente a baixar as suas defesas, até que ficam atordoados. Em Dosa Divas, o stagger é representado por um estado de fartura, com os inimigos a ficarem de barriga cheia depois de tantos ataques. Neste estado, a defesa dos capangas é muito reduzida, ao ponto dos combates sofrerem uma mudança de ritmo enorme – tudo se torna mais fácil quando atordoamos os nossos inimigos.
Se já jogaram Braveley Default, certamente vão reconhecer o sistema de Boost em Dosa Divas, que é, ainda que numa versão mais acessível, próximo à mecânica Brave/Default introduzida pela série da Square-Enix. Com o Boost, nós podemos garantir que a nossa equipa é capaz de fazer mais do que um ataque por turno, algo que nos dá uma enorme vantagem sobre os nossos inimigos. Ao contrário de Bravely Default, não existe uma penalidade sempre que utilizamos o Boost, o que é desapontante, e ficamos apenas limitados ao tempo de espera até que a opção fique novamente disponível. Dosa Divas tenta ser o mais acessível possível para os jogadores e às vezes torna-se redundante e pouco desafiante, apesar de ter mecânicas interessantes e que combinam perfeitamente entre si. De facto, não procurem em Dosa Divas um RPG profundo, não vão encontrar um sistema de inventário complexo, várias armas e equipamentos para adquirir ou uma árvore de habilidades para aperfeiçoar. Em Dosa Divas, o máximo que fazemos é escolher o bónus que queremos sempre que ganhamos um nível, seja vida, poder ou magia, e pouco mais.

Apesar das suas limitações, Dosa Divas é uma experiência sólida dentro do género e as suas influências revelam um RPG mais descontraído e pouco desafiante que permitiu à Outerloop Games contar as histórias de Samara, Amani e Lina. Dentro da sua simplicidade, o sistema de combate é divertido, a confeção dos pratos é muito funcional e o mundo de Dosa Divas é peculiar e mais profundo do que antevia. Mesmo com uma longevidade reduzida e mapas repetitivos no seu design, o novo título da Outerloop Games vale o vosso tempo se procuram um RPG mais descontraído, livre da personalização desmedidas dos títulos mais populares do género, e se têm um enorme amor pela culinária.
Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Outerloop Games.
