Forza Horizon 6 é O Forza Horizon que a comunidade desejava há anos. Japão é finalmente o palco do festival que celebra a cultura automóvel oriental, no jogo mais completo e bem concretizado até à data.
Austrália? Reino Unido? México? Foi com estas questões, dúvidas e alguma desconfiança que os fãs receberam cada um dos capítulos na série Forza Horizon, especialmente depois das duas primeiras entradas do spin-off de Forza Motorsport. E a razão para estas questões era simples: porque raio não fazem um Forza Horizon no Japão?
Como fã de longa data, apaixonei-me rapidamente pelo conceito de Forza em mundo aberto, ainda que com expectativas subvertidas (pois inicialmente não conseguia perceber como é que a Playground Games iria levar a experiência da Turn 10 para fora dos circuitos fechados). Também eu me questionei e esperei que Forza Horizon continuasse a sua World Tour. E agora, quase 14 anos depois, entendo porque é que tivemos de esperar: a série precisou de experimentar e maturar para entregar o melhor capítulo da saga até agora, com Forza Horizon 6.
Começando pela questão do tempo, Forza Horizon 6 é o jogo da série com mais tempo em desenvolvimento. A cadência habitual era de dois a três anos; este surge quase cinco depois do seu antecessor, tempo que a Playground Games aproveitou para cozinhar e criar uma base perfeita, já estabelecida como um jogo enquanto serviço, sem abandonar a essência de uma carreira a solo (ou co-op) que caracterizou a série desde o início. Forza Motorsport tentou reinventar-se de forma questionável com reboots e ao posicionar-se como uma plataforma social para amantes de carros e falhou em responder às expectativas internas e da comunidade na sua última tentativa. Já Forza Horizon procurou antes evoluir, tornando o 6 não numa sequela no sentido académico da palavra, mas em mais um capítulo antológico, num modelo familiar e vincado desde Forza Horizon 3, onde cada jogo pode ser jogado de forma isolada e única.

Forza Horizon 6 responde a anos e anos de pedidos de fãs e fá-lo da melhor maneira e, por vezes, com algumas surpresas. A cultura de carros japoneses sempre teve um lugar especial na comunidade Forza desde os primeiros Forza Motorsport, atingindo um pico em Forza Motorsport 3 e 4, com a simples presença do lendário circuito de Fujimi Kaido, que se tornou num ponto de encontro online para entusiastas do JDM, Touge e Drifting. Com uma jogabilidade realista, mas menos estéril que o seu concorrente direto, a série Gran Turismo, mecânicas expansivas de personalização visual e mecânica e toda uma cultura de fotógrafos virtuais – ainda antes de Forza Horizon entrar em fase de conceção -, o sonho do Japão já existia.
Apesar de todas as suas virtudes, o que torna Forza Horizon 6 o melhor jogo da saga até à data é precisamente como adapta e molda todas as ideias, conceitos e visão anteriores ao novo e emocionante ambiente e cultura característicos do Japão. Construído sobre as bases desenvolvidas na viagem pelo México, perdemos alguns dos biomas característicos dessa região, como desertos, selvas e praias até perder de vista, assim como um foco reforçado em modalidades como o off-road, invertendo a presença para um jogo mais agarrado à estrada, às longas auto-estradas, ambientes urbanos, estradas sinuosas e, claro, uma presença imponente do Monte Fuji quase sempre no horizonte.
Com um mapa sensivelmente do tamanho do seu antecessor, o cuidado de separação de regiões, a distribuição de pontos de interesse, de espaços diferenciados e um constante incentivo à exploração para derrubar duas centenas de mascotes, outras tantas de tabuletas e passar pelas suas mais de 600 estradas e ligações, criam a ilusão de um jogo mais vasto e igualmente divertido de navegar, com segredos meramente visuais e espaços extremamente interessantes de encontrar, que nunca seriam visitados sem estes pequenos objetivos.

Para esta aventura, a estrutura da campanha foi novamente revista, trazendo de volta as pulseiras e um desafio menos competitivo. As provas e desafios para ficar em primeiro lugar, bater tabelas de tempo e pontuações altas continuam a fazer parte da experiência (com pop-ups a avisarem-nos que os nossos amigos fizeram melhor que nós), mas Forza Horizon 6 propõe claramente um nível de envolvimento mais relaxado, com muito mais provas de histórias e objetivos narrativos espalhados por todo o mapa.
Para além do óbvio mapa e ambiente, uma grande parte da experiência nipónica é introduzida através destes momentos, onde ajudamos mecânicos a modificar algumas máquinas mais icónicas da cultura de carros japonesa, outros em que treinamos os nossos dotes fotográficos para ilustrar uma revista e, claro, há até um clube de drift, onde nos é proposto deslizar para as pontuações máximas. A estas histórias, o jogo acrescenta outras novidades, como pequenos circuitos de exploração livre para bater os tempos mais rápidos, drag-races no mesmo modelo, parques de estacionamento para meet-ups online (ou simplesmente para admirar as vistas), e, talvez a minha funcionalidade favorita, carros aleatórios à venda com descontos espalhados pelo mapa.
Sempre senti que o desbloqueio de carros em Forza Horizon, e até em Forza Motorsport, era desequilibrado e desinteressante, em particular nos jogos mais recentes. Até aqui, o jogo abria as portas a toda a coleção como um buffet a lá carte, permitindo test drives e compras imediatas aos melhores veículos (havendo créditos), descartando qualquer sentimento de progresso, de recompensa por mérito e de exploração progressiva da garagem. Forza Horizon 6 ainda mantém um pouco disso, mas dilui-se de alguma forma ao oferecer aos jogadores uma seleção de carros aparentemente mais modestos e interessantes de conhecer, com o incentivo a comprá-los espalhados pelo mundo em vez de abrir logo o autoshow para adquirir os carros de sonho.
Esta mecânica de compra pelo mundo aberto torna-se interessante pela imprevisibilidade daquilo que podemos encontrar, dado que há um fator de aleatoriedade na maioria dos pontos, e porque neles também podemos encontrar carros de sonho e até os antigos unicórnios, os Forza Edition, que até agora só eram encontrados nas Auction Houses ou através das Wheelspins, que (infelizmente, na minha opinião) estão de regresso para nos irritar com mais prémios decorativos, buzinas e créditos do que bons carros.

Forza Horizon 6 também se expande na forma como progredimos ao longo da jornada e como vão surgindo mais corridas e desafios. Podemos optar por fazer as stunts espalhadas pelo mapa, corridas e as tais histórias, acumulando pontos que abrem caminho para os Showdowns, eventos que definem a experiência Forza Horizon. Para este capítulo a Playground Games inventou um pouco, mexendo demasiado na fórmula e com um resultado francamente frouxo e demasiado seguro. Com exceção de uma incrível corrida meio-scripted com uma mecha perigosamente semelhante a um Gundam, os restantes eventos do género não são propriamente tão emocionantes ou loucos como alguns que tivemos no passado, que nos colocavam a correr contra comboios, motas, carros, hovercrafts e aviões. Sim, continua a haver um evento com umas avionetas, mas longe de provocar níveis de adrenalina elevados de entradas passadas. Para além disso, temos a introdução das Horizon Rush no lugar de potenciais Showdowns, que são corridas contra o tempo com um formato de gincanas, com circuitos muito trabalhados e de curvas apertadas. São desafiantes e divertidos, não há dúvidas, mas aproximam-se demasiado de eventos personalizados por outros jogadores, perdendo aquele cunho autêntico de “set pieces”.
No que toca a mudanças mais positivas, o grande destaque vai para a condução, onde senti verdadeiramente a maior evolução na série. Arrisco-me a dizer que Forza Horizon 6 aperfeiçoou o seu registo sim-arcade até à melhor condução da saga. Desde o primeiro momento, mesmo com as ajudas desligadas, que se sente um controlo dos veículos mais preciso, pesado e com maior aderência aos diferentes terrenos. Os carros sentem-se perigosos, mas estranhamente mais fáceis de controlar. Há peso e embalo com física realista e afinações de controlo que encaixam na perfeição nos temas do jogo, como os momentos de drifting mais divertidos e emocionantes. A condução mantém-se arcade e adaptada às altas velocidades deste modelo, com o design do ambiente a refletir essa visão. As estradas mais alargadas que alguns críticos apontam não surgem por acaso, dado que não está pensado para ser um simulador, assim como a quantidade de tráfego, também ela muito equilibrada para dar vida ao mundo sem afetar demasiado a diversão.
A variedade de veículos é gigante, com mais de quinhentos carros com comportamentos, sons e perfis completamente diferentes, que se moldam facilmente ao gosto dos jogadores com configurações e afinações automáticas ou personalizadas. Por se tratar de um jogo passado no Japão, a seleção é tendencialmente adaptada a esta realidade e à cultura JDM. Se no México havia uma seleção de veículos mais dedicados ao off-road, para serem usados em desertos, selvas e outras regiões mais montanhosas, no Japão temos uma presença maior de carros dedicados à alta velocidade das auto-estradas e dos caminhos sinuosos que são o palco do Touge e do Drift. Em consequência disso, muitos veículos de longa data recebem modelos novos, novas variantes e conjuntos de personalização e de tuning a condizer, para satisfazerem as delícias dos adeptos da cultura automóvel japonesa, que incluem também uma quantidade saudável de veículos de outras regiões, populares neste país.

Mais uma vez, Forza Horizon volta a ser um destino perfeito para o turismo virtual e o esforço em envolver os jogadores neste Japão virtual é fantástico. Dos pontos de referência escolhidos para a versão reduzida de Tóquio, passando pelas arquiteturas e decorações regionais, ao tipo de estradas e infraestruturas exploráveis, das planícies agrícolas às estradas entre florestas, às flores de cerejeira na primavera e ao monumental Monte Fuji (que não é visitável, mas fica sempre bem nas fotografias), nunca tendo estado no Japão, senti-me lá, num sítio familiar que só visito nos sonhos e através do entretenimento como filmes, jogos e animes.
Para acentuar todo esse lado imersivo, a música volta a ter um papel de destaque. Ainda que Forza Horizon 6 opte por ter só um festival central, descartando um pouco esta sua vertente, as rádios e as suas playlists são provavelmente as melhores que a série já entregou. Para lá de encontrar algumas das minhas bandas e artistas favoritos da atualidade, com destaque para uma banda relativamente nova chamada South Arcade ou a presença dos veteranos Linkin Park, é a seleção de artistas japoneses ao longo de várias rádios que se torna tão importante como os próprios carros. De jazz a city pop, passando por bom rock e eletrónica, há ainda a oportunidade para colocar o Trueno de lado ao som de músicas retiradas de alguns animes bem populares. Infelizmente, o eurobeat parece ter ficado de fora, mas talvez fosse uma referência já bastante gasta.
Forza Horizon 6 volta a ser um portento visual, ainda que o salto de fidelidade gráfica seja mais contido do que seria de esperar, especialmente sendo o único Forza Horizon lançado em exclusivo nesta geração de consolas e surgindo meia década depois do anterior. Visualmente, os dois jogos são muito semelhantes e um olhar menos atento até pode confundir os dois. Ainda assim há melhorias e avanços significativos. Forza Horizon 6 é o primeiro com suporte completo de Ray-Tracing em reflexos entre carros, com sombras também neste formato e, para quem tiver um PC à altura, RTGI, ou iluminação global via Ray-Tracing. Esta técnica é bastante exigente para um resultado subtil, mas que uma vez notado é quase impossível de ignorar, já que cria uma apresentação subtilmente mais sólida, com a luz e as cores de diferentes superfícies a refletirem entre si, como na vida real. Não torna o jogo mais foto-realista, mas visualmente mais coeso e agradável.

Na Xbox Series X, onde também testei, voltamos a ter os dois modos tradicionais de Desempenho e Qualidade. O RTGI não está presente, mas o Ray-Tracing e os seus reflexos sim. A nível de jogabilidade a diferença entre os dois modos é francamente impercetível. Ambos apontam para uma resolução 4K, sendo que o modo Qualidade apresenta resolução nativa e o modo de Desempenho, via reconstrução de imagem. A qualidade de imagem é fantástica em ambos os casos, com desempenhos sólidos e fixos nos 30 FPS e 60 FPS, respetivamente. Para jogar casualmente na consola o modo de Desempenho é aquele que recomendo, mas para os fãs da fotografia virtual vão querer todos os detalhes na qualidade mais elevada no modo de Qualidade.
A experiência Forza Horizon 6 conta ainda com uma sólida oferta de funcionalidades online, com destaque para a introdução de uma área dedicada à criação ao estilo do Forge de Halo, garagens altamente personalizadas e, claro, uma suite de Playlists de eventos rotativas, que infelizmente não estavam ativas durante o período de análise. Com sistemas tão robustos e completos de personalização, continua a ser de estranhar que Forza Horizon 6 persista com um criador de personagens tão limitado e com modelos tão pouco trabalhados. Ao sexto jogo da série esperava-se mais. Mas isto é apenas um apontamento menor.
Forza Horizon 6 não reinventa, tão pouco se faz sentir como uma sequela a sério no seu sentido mais puro, mas amadurece bastante este spin-off, que há muito ultrapassou a série principal. No seu lançamento, Forza Horizon 6 faz-se sentir o mais completo da saga, com as melhores atualizações e melhorias ao formato e, finalmente, com a região e os temas que a comunidade mais ativa há tanto esperava. Finalmente chegamos ao Japão e agora não queremos sair de lá tão depressa.

Cópia para análise cedida pela Xbox Portugal.
