Análise – Fade to Silence

por Echo Boomer

O género de sobrevivência continua a marcar presença tanto no PC, como nas consolas, com lançamentos de peso, onde a inovação mantém-se aliada a um certo classicismo. Fade to Silence, da Black Forest Games, é uma nova aposta, onde a necessidade pela homenagem e vicissitudes dos maiores nomes do género acabam por prejudicar um jogo com muito potencial.

Em Fade to Silence, o mundo foi destruído por uma estranha mutação. Os rios, as planícies e montanhas estão cobertas de um manto espesso de neve. Os seus habitantes foram transformados em estranhas criaturas que deambulam à procura de novas vítimas. A esperança parece ter morrido e a mutação continua a infetar tudo à sua volta, sem misericórdia. Como um dos sobreviventes, preso num constante ciclo de morte e ressurreição, como se fôssemos vítimas de uma maldição inescapável, temos de reconstruir o nosso acampamento, explorar o mundo destruído e encontrar respostas que nos ajudem a parar a mutação.

Apesar de não ser o seu foco, Fade to Silence consegue criar um ambiente misterioso e muito opressivo que é capaz de nos motivar a explorar. A história não é totalmente linear, com alguns acontecimentos a acontecerem aleatoriamente, mas há um fio condutor muito ténue que liga a demanda do nosso protagonista ao mundo à sua volta, nomeadamente ao seu papel na propagação do vírus e da entidade que o persegue. Existem ainda influências claras da obra de H.P. Lovecraft, ainda que Fade to Silence tenha receio de explorar esta vertente a fundo. É, portanto, uma história pouco entusiasmante ou surpreendente, sendo mais funcional do que obrigatória.

Fade to Silence pode não ser um jogo narrativo, mas é, sem quaisquer dúvidas, um jogo de sobrevivência. Através dos seus cenários gelados, iremos encontrar recursos imprescindíveis à nossa sobrevivência, desde materiais para construção até mantimentos e outros bens necessários para o bem-estar do nosso acampamento. O ciclo da jogabilidade leva-nos, assim, a explorar, a encontrar recursos, a lutar contra monstros e a melhorar o nosso acampamento enquanto desbloqueamos novas opções que nos permitem construir melhores equipamentos e armas, habitações e postos de trabalho para os sobreviventes que encontramos pelo mundo.

É um jogo muito clássico no que toca à sua jogabilidade e os fãs do género irão sentir-se em casa, especialmente no que toca à sua dificuldade. Sendo um jogo de sobrevivência, Fade to Silence não tem quaisquer problemas em desafiar os jogadores, colocando-os a gerir não só a saúde do protagonista, como também a sua energia, fome e sanidade. Com os monstros a marcarem uma presença forte no mundo gélido, é preciso não só dominar o sistema de combate, mas também os recursos em nosso redor, sendo necessário decorar o mapa em caso de fuga. O equilíbrio entre risco e recompensa poderá ser, por vezes, inconsistente, mas está suficientemente presente para tornar a exploração aliciante.

Fade to Silence dá um enorme foco à gestão do acampamento, sendo possível criar novas estruturas e recrutar sobreviventes para garantir o seu crescimento e funcionamento. Para tal, é necessário não só recolher recursos, como encontrar zonas de exploração que possam ser utilizadas por todos os sobreviventes. Através da gestão de tarefas, é possível definir quais são as personagens que devem caçar, recolher mantimentos ou construir novas estruturas no acampamento. Desta forma, os jogadores solidificam o seu papel enquanto exploradores, sendo necessário encontrar novas zonas de recolha antes que as anteriores se esgotem, algo que acontece em tempo real e de acordo com as tarefas definidas. Fade to Silence consegue, assim, criar um ritmo interessante onde sentimos que estamos constantemente a encontrar algo novo, tornando a exploração imprescindível não só para o avanço da narrativa, mas também para a nossa sobrevivência.

O mapa é extenso, ainda que não seja aberto, e apresenta-se dividido através de zonas, todas elas interligadas, mas inicialmente fechadas. Como um jogo de sobrevivência, Fade to Silence dá-nos vários pontos de interesse que teremos de explorar não só para encontrarmos novos recursos e de sobreviventes, mas também para percebermos quais as zonas contaminadas pela mutação. Nestas zonas, o protagonista terá de sacrificar parte da sua saúde para eliminar disformidades, quase como tumores, que contaminam o solo à sua volta. Estes pontos de interesse influenciam o número de inimigos nos mapas, representando sempre um risco tremendo não só pelo sacrifício do protagonista, como pelo número de monstros em seu redor. É um dos muitos elementos de Fade to Silence que demarcam bem a sua aposta no risco e na recompensa.

O mundo é ainda povoado por postos de controlos que têm de ser purificados. Estes postos, que estão rodeados por zonas infetadas, são importantes para o avanço da narrativa, funcionando também como acampamentos mais pequenos, pelo que também desbloqueiam a possibilidade de regressarem rapidamente ao acampamento principal. Até certo ponto, estes postos de controlo funcionam de uma forma muito semelhante às bases da série Far Cry, dando-nos ainda a possibilidade de desbloquearmos todos os pontos de interesse de cada zona. São, como podem prever, muito importantes para o avanço da campanha.

Apesar de não ser um jogo muito original, Fade to Silence tenta retrabalhar a ideia de ressurreição na sua jogabilidade ao dar aos jogadores um maior desafio. Ao contrário de outros jogos do género, Fade to Silence funciona quase como por vidas, que podem ser recuperadas à medida que avançam pela história. Sempre que perdem uma vida, regressam ao vosso acampamento sem quaisquer prejuízos, a não ser de tempo. No entanto, quando perderem todas as vidas, regressam ao início de jogo, perdendo todo o seu progresso. O jogo não é cruel e, apesar de perderem tudo o que recolheram e do acampamento voltar à estaca zero, têm a oportunidade de melhorar uma das habilidades inerentes do protagonista, algo que se manterá de campanha em campanha. Há, portanto, a sensação constante de que estamos a progredir em Fade to Silence, ainda que seja frustrante recomeçar do zero.

A cooperação é um dos destaques de Fade to Silence, dando-nos a possibilidade de explorar o mundo gélido com um amigo. O modo centra-se nas expedições e leva os jogadores a colaborarem na recolha de itens e recursos, mas também no combate contra as monstruosidades que vagueiam pelo mundo do jogo. Esta opção fica disponível após recrutarem o primeiro habitante para o vosso acampamento e dá aos jogadores a possibilidade de explorarem livremente o mundo do jogo com um companheiro. Não é um modo muito completo, mas ajuda a quebrar a monotonia da jogabilidade, ainda que o progresso seja restrito à sessão de jogo e não aos perfis dos jogadores – todos os recursos serão do dono da sessão. Sublinhamos ainda a possibilidade de utilizarem esta cooperação com a IA do jogo, com os sobreviventes a acompanharem-vos durante as expedições.

Estes seriam elementos interessantes, ainda que pouco surpreendentes, se Fade to Silence fosse um jogo coeso tanto a nível da jogabilidade, como da sua performance. Só que não é. Não só é um jogo extremamente repetitivo, como não oferece nada de novo após a sua primeira zona, repetindo constantemente objetivos e pontos de interesse. Fade to Silence nunca vai além da recolha de itens, da construção de novos equipamentos e da luta contra inimigos, ainda que adicione a defesa do acampamento em alguns momentos da história. É um jogo pouco original, sem dúvidas, mas igualmente sem alma e com uma jogabilidade rígida, pouco fluída ou interessante para nos manter agarrados ao comando até ao seu final.

A exploração é quase sempre aborrecida, apesar de nos dar vários pontos de interesse. A navegação entre as zonas é também lenta e a movimentação do nosso protagonista é demasiado pesada e incapaz para justificar o tamanho do mapa. Mesmo com um trenó, que é puxado por lobos, a exploração nunca deixa de ser cansativa, demasiado lenta e repetitiva, algo que é agravado por um mapa pouco interessante e com cenários difíceis de ler e de reconhecer.

Imaginem que estão sempre a encontrar as mesmas zonas, a matar os mesmos monstros e a depender da aleatoriedade dos cenários para recolher novos recursos. E para um jogo de sobrevivência, Fade to Silence só nos consegue desafiar através do sistema de combate, que é insípido, completamente desnivelado e repetitivo, dependendo quase sempre de um só botão para matarem todos os inimigos do jogo. Lutar é tão cansativo que nos vimos a fugir de confrontos não pela sua dificuldade, mas porque não tinham qualquer peso na jogabilidade e na nossa progressão.

A gestão do acampamento é, também, uma oportunidade perdida, e dá-nos poucas opções de personalização. Fade to Silence teria ganho mais em colocar-nos responsáveis pela construção das estruturas, tal como 7 Days to Die, e pelo seu funcionamento. A sua gestão automática tira-lhe parte do encanto e cria até um certo distanciamento entre o jogador e os restantes sobreviventes – algo que é agravado pela presença de histórias pouco convincentes para cada personagem, que poderemos conhecer melhor ao longo da campanha.

Fade to Silence merecia um maior envolvimento por parte dos jogadores e uma mecânica mais desafiante que equilibrasse a construção e o crescimento do acampamento com a exploração e a própria narrativa. Como está, Fade to Silence não domina nenhuma destas mecânicas.

E por fim, temos a péssima performance e otimização da versão PS4. Não só encontrámos bugs constantes (por exemplo personagens a desaparecerem nos cenários), como nos deparámos com popups, texturas por carregar, quedas no frame rate e animações robóticas e demasiado arcaicas. Não sabemos como Fade to Silence funciona no PC, mas é horrível na PS4. A sua performance tem tantos problemas que se torna difícil de explorar e de aproveitar os melhores elementos da jogabilidade, especialmente com um frame rate tão inconsistente como o que apresenta. Os menus não são deploráveis, mas demonstram também uma falta de criatividade por parte da equipa, algo que se torna mais irritante à medida que avançamos na campanha.

Fade to Silence é um jogo interessante que peca por ser pouco original, repetitivo e difícil de jogar na PS4. A sua performance é, sem quaisquer dúvidas, o seu maior problema, mas é difícil de ficar investido num jogo que não consegue equilibrar a sua exploração com a história que apresenta, apesar dos seus esforços. É um jogo perfeito para adquirir durante uma promoção, sem grandes expectativas ou esperanças de encontrar uma experiência única. Se quiserem um jogo de sobrevivência num mundo gélido e opressivo, joguem antes The Long Dark.

Fade to Silence está disponivel para PC, Xbox One e PlayStation 4.

Este jogo (versão para PlayStation 4) foi cedido para análise pela Dead Good Media.

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