Crítica – No Time To Die

No Time To Die é o filme mais emocionante e pessoal de James Bond da Era de Daniel Craig, guardando uma bonita despedida do agora icónico ator.

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Sinopse: “James Bond (Daniel Craig) deixou o serviço ativo e está a desfrutar de uma vida tranquila na Jamaica. Mas a sua paz termina rapidamente quando o seu velho amigo Felix Leiter (Jeffrey Wright), da CIA, aparece com um pedido de ajuda. A missão de resgatar um cientista raptado acaba por ser bastante mais traiçoeira do que o esperado, o que leva Bond a perseguir um misterioso vilão, armado com uma nova tecnologia perigosa.”

Mais cedo ou mais tarde, todas as maratonas inevitavelmente chegam ao fim. A maioria do público olha para No Time To Die como a última interpretação de Daniel Craig enquanto o famoso 007, mas com todo o respeito para com o ator, é muito mais do que apenas isso. Cary Joji Fukunaga (Beasts of No Nation) é o homem responsável pela despedida de uma saga que ofereceu aos espetadores uma coleção de personagens memorável, todas fantasticamente retratadas por um elenco excecionalmente talentoso. Skyfall e Casino Royale estão uns furos acima de Spectre e Quantum of Solace, mas onde se encaixa esta última longa-metragem?

Esclareço regularmente as minhas expetativas para os filmes sobre os quais escrevo devido a uma decisão pessoal, mas acredito honestamente que esta é uma daquelas obras que realmente exige esse prefácio. Como não assisto a trailers, o meu entusiasmo não diminuiu depois dos inúmeros atrasos devido à pandemia, logo mantive sempre o interesse. Também estava preparado para os dois finais mais prováveis: ou Bond morre na sua última missão ou sobrevive e vive feliz para sempre. Não havia muito mais para além disto que pudesse realmente acontecer.

No Time To Die

Um dos melhores elogios que posso oferecer a No Time To Die é que comecei o mesmo esperando que uma destas conclusões específicas fosse a que Fukunaga e a sua equipa de argumentistas escolheram, mas aos poucos mudei de ideias para desejar o cenário oposto. Se o filme realmente vai adiante com um destes finais ou não é algo que vou deixar por revelar por razões óbvias. Ainda assim, o ponto que pretende passar é que Neal Purvis, Robert Wade, Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) são capazes de escrever a narrativa mais apaixonada e emotiva de toda a saga.

Este é, de longe, o filme mais pessoal de James Bond. Não me apercebi da ligação genuína que possuía com estas personagens, mas esta peça provou-o de uma maneira impactante. Ficaria surpreendido se fãs desta saga deixassem as salas de cinema sentindo-se indiferentes perante os acontecimentos do filme. Desde as escolhas que cada personagem faz às consequências incomparáveis da última missão, No Time To Die é uma criatura completamente diferente. Permitam-me começar pelo início…

A ação enérgica presente na sequência de abertura rivaliza com a impressionante corrida de parkour de Casino Royale, mas no geral, contando com tudo o que acontece até ao genérico começar e os créditos aparecerem, acredito que esta peça entrega o melhor – e mais longo? – início de toda a saga. Não só se constrói sobre o que já tinha sido desenvolvido com Madeleine (Léa Seydoux) – criando algumas perguntas intrigantes e uma decisão surpreendente de Bond – mas também apresenta uma cena de perseguição lindamente filmada através de uma cidade deslumbrante no sul de Itália.

Deixo desde já elogios para o trabalho de duplos maravilhoso, a cinematografia extraordinária (Linus Sandgren) e a edição perfeita (Elliot Graham, Tom Cross). Estes três elementos funcionam tão bem juntos que não estou a exagerar ao escrever que No Time To Die ostenta alguma da melhor ação que a saga alguma vez testemunhou. Desde um “oner” fascinante por uma escadaria que Craig brilhantemente executa até uma cena tensa numa floresta nebulosa, Fukunaga pega no leme e comanda o barco de forma impetuosa. Sets práticos e locais reais não são tão comuns como algumas décadas atrás, por isso, devo congratular os estúdios por gastarem parte do seu orçamento em trazê-los para o grande ecrã.

Voltando ao parágrafo anterior, a transição para a montagem dos créditos de abertura vem no momento certo, mas é a música de Billie Eilish que realmente desejo aplaudir. Tornou-se no meu genérico favorito. A letra ganha um contexto muito mais rico após a sequência de abertura e a melodia é usada inteligentemente por Hans Zimmer na sua banda sonora épica. A última peça que se ouve durante o clímax do filme é tudo o que um espetador antecipa num filme desta grandeza. Eleva profundamente o que quer que esteja a acontecer naquele momento, induzindo algumas lágrimas e arrepios só de ouvir.

Como insinuo acima, todas as sequências de ação não são nada menos do que incríveis. No entanto, o período entre cada uma destas sequências cheias de entretenimento levanta alguns problemas. Não é segredo que o tempo de execução é o mais longo de toda a saga, por isso, era algo previsível que nem todos os minutos sejam justificados. Infelizmente, o segundo ato contém imensa exposição desnecessária sobre uma variação de um MacGuffin, um vilão extremamente estereotipado e uma insistência particular no tópico “007 é apenas um número”, algo que começa por originar algumas interações espirituosas entre Bond e Nomi (Lashana Lynch) e termina irritantemente repetitivo.

É assim que surgem alguns problemas de ritmo, mas a falta de caraterização convincente é mais preocupante. Rami Malek (Bohemian Rhapsody) interpreta um dos antagonistas mais formulaicos da saga, Lyutsifer Safin, o que é desapontante considerando os seus dois últimos antecessores. Um dos problemas mais significativos com Spectre é a falta de tempo de ecrã do vilão e No Time To Die comete o mesmo erro. Embora entenda e defenda que, tal como num filme de origem, a última obra de uma saga deve concentrar-se no protagonista, Safin não possui as caraterísticas para ser o “final boss”.

No Time To Die

Além disso, as motivações de Safin são algo confusas. O seu plano maquiavélico é tão desinteressante quanto poderia ser, visto ser a “N” variação da bio-arma apocalíptica, mas os motivos por detrás do esquema são compreensíveis. No entanto, a sua conexão com Madeleine leva os espetadores a assistir a algumas decisões estranhas do vilão. O arco de Safin encontra-se um pouco por todo o lado, sendo sem dúvida alguma o componente mais confuso do argumento.

No fim, os “bons da fita” compensam o vilão genérico com maquilhagem danificada e um sotaque ridículo. Apesar de Nomi não me convencer totalmente como uma personagem cativante, Lynch (Captain Marvel) oferece uma prestação notável como a nova agente “00”. Infelizmente para a própria, Ana de Armas (Knives Out) rouba os holofotes com uma única sequência de ação, algo que honestamente pode deixar algumas pessoas um pouco desanimadas. Com tantos clipes e imagens sobre a sua personagem, é razoável que os espetadores antecipassem um papel mais impactante ao invés de um cameo prolongado. Ainda assim, Armas brilha nos poucos minutos em que aparece como uma agente badass, engraçada e enganosamente desajeitada.

Obviamente, o apego emocional com o par Bond-Craig é muito mais forte do que qualquer outro. No entanto, No Time To Die faz um ótimo trabalho em relembrar o público que a equipa do MI6 está repleta de duplas inesquecíveis de personagem-ator. Ben Whishaw (Surge) como o sempre hilariante Q. Naomie Harris (Moonlight) como a independente Eve Moneypenny, uma das poucas mulheres que não caiu no charme de Bond, bem como uma das raras pessoas que realmente chegou perto de terminar a sua carreira. Ralph Fiennes (Harry Potter) como o respeitado Mallory/M, o perfeito par personagem-ator secundário do qual mais vou sentir saudades – Judi Dench também merece destaque.

Fora do MI6, ainda existem Jeffrey Wright (Westworld) como o aliado mais próximo de Bond, Felix Leiter, e por último, mas não menos importante, Léa Seydoux (Blue Is the Warmest Colour) como a mulher que prencheu o coração de Bond. Se Craig não entregasse a sua melhor performance como 007, Seydoux provavelmente seria a estrela do espetáculo. A atriz demonstra um alcance emocional impressionante, contribuindo tremendamente para a imensa emoção presente no terceiro ato. Uma representação vital que transforma uma aventura normal na missão mais perigosa e com as piores consequências da carreira de Bond.

Finalmente, Daniel Craig como James Bond. Não tenho vocabulário suficiente para descrever uma última prestação tão brilhante. Tal como mencionei ao longo da minha crítica, as consequências nunca foram tão altas e Craig subtilmente demonstra que Bond realmente deseja ter sucesso na sua missão final. As suas micro-expressões são incrivelmente detalhadas, mas tão poderosas. O seu compromisso e dedicação para com o papel são praticamente impossíveis de se comparar. Desde o primeiro minuto em que foi anunciado para o papel até à fase em que se tornou um ator adorado por muitos, Craig merece todos os elogios e mais alguns pela sua lendária interpretação que atravessou décadas. Numa palavra: obrigado! Muito obrigado!

No Time To Die é o filme mais emocionante e pessoal de James Bond da Era de Daniel Craig, guardando uma bonita despedida do agora icónico ator. Entregando a sua melhor prestação como 007, Craig termina a sua maratona memorável num filme de alto-risco com algumas das melhores sequências de ação de toda a saga. Tecnicamente, os cenários práticos e locais reais, trabalho de stunts, cinematografia e edição não são nada menos que impressionantes, servindo para criar momentos magníficos.

Apesar de um tempo de execução desnecessariamente longo com um segundo ato cheio de exposição pesada e um vilão terrivelmente estereotipado com motivações pouco claras, a narrativa emocionalmente convincente prepara um terceiro ato poderoso elevado pela banda sonora épica. Cary Joji Fukunaga emprega o seu papel de realizador de forma brilhante num filme repleto de performances fenomenais que não deixarão quaisquer espetadores indiferentes. Elogios gigantes para o elenco extraordinário. E um obrigado sentido para Craig… Daniel Craig.

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