Crítica – I Care a Lot

I Care a Lot é um dos melhores filmes que a Netflix ofereceu este ano, até agora. Rosamund Pike brilha, mas o argumento de J Blakeson é o verdadeiro espetáculo.

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Sinopse: “Armada com uma confiança de leoa, Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma tutora profissional nomeada pelo tribunal para a tutela de dezenas de idosos, de cujos bens se acaba por apropriar indevidamente através de meios duvidosos, mas legais. Trata-se de um esquema bem montado que Marla aplica em conjunto com a parceira de negócios e amante Fran (Eiza González) com uma eficácia brutal à sua mais recente ‘cereja’ Jennifer Peterson (Dianne Wiest) – uma abastada aposentada sem herdeiros na família. Mas quando a vítima revela esconder um segredo tão sombrio quanto o dela e ter ligações a um criminoso volátil (Peter Dinklage), Marla é obrigada a mostrar o que vale num jogo em que apenas os mais ferozes predadores podem participar – um jogo que nada tem de justo, nem limpo.”

Quando se trata de Rosamund Pike, não importa o tipo de filme que faz – pode contar sempre com a minha presença. As suas prestações constantemente dedicadas e impressionantes agarram-me sempre ao ecrã, logo esperava que I Care a Lot (Tudo Pelo Vosso Bem) seguisse o mesmo caminho. Desde o mais recente Radioactive a um dos seus papéis mais famosos em Gone Girl, passando por inúmeras outras representações memoráveis, Pike simplesmente não consegue entregar uma má interpretação. Sendo esta a minha primeira visualização de um filme de J Blakeson e com a Netflix a oferecer o seu valor de produção impecável, devo afirmar que me sinto surpreendido com o quanto desfrutei deste filme. Permitam-me começar com o que acho que realmente torna este filme tão atraente: o seu argumento.

Pike e companhia entregam performances espetaculares e já lá chego, mas o argumento de Blakeson é simultaneamente louco e inteligente. Se a premissa não é clara o suficiente, o capitalismo é um tema significativo durante todo o tempo de execução. Desde as comparações deprimentes, mas realistas, entre pessoas ricas e pobres, até à competição implacável entre os chamados tubarões deste sistema económico, I Care a Lot oferece excelente paralelismo com o mundo real. As mensagens não tão implícitas sobre este tópico são entregues principalmente por Marla Grayson, uma protagonista que não se esconde de assumir o seu status de leoa.

I Care a Lot

Possuindo conhecimento dos prós e contras do capitalismo e das suas fraudes no limite do legal, os espectadores acompanham Marla através do seu cativante processo de adquirir e lucrar com um novo alvo, tal como centenas de empresas e CEOs por todo o mundo o fazem sem que a maioria das pessoas se aperceba. Quando Marla encontra um concorrente a sério, Blakeson arrisca a sua história fundamentada, substituindo-a por uma segunda metade absolutamente lunática, caraterizada por decisões de enredo e de personagem absurdas, o que seria um grande problema se o seu propósito não fosse justamente mostrar a ambição ridícula – e criminosa – dos capitalistas de topo.

Não consigo negar que fica demasiado tonto e irracional para o meu gosto, mas tendo em conta o contexto e o objetivo de Blakeson, considero uma jogada de sucesso. Além disso, o valor de entretenimento não cai, muito pelo contrário, dispara até um ponto onde saúdo algumas das suas loucuras. O terceiro ato possui tremenda tensão e suspense, desenvolvimentos algo inesperados e um final chocante, mas absolutamente perfeito, que deixará a maioria dos espetadores dizer “karma is a b*tch, right?” É uma história bastante esclarecedora sobre os tutores da vida real que exploram os seus idosos. Blakeson educa brilhantemente o público sobre o poder da burocracia, os compromissos morais que as pessoas excessivamente ambiciosas fazem e também explica como lucrar para uns pode significar falta de liberdade para outros.

A banda sonora de Marc Canham é o destaque técnico, com sons eletrónicos que normalmente não aprecio muito, mas aplicaram o tipo certo de faixas nos momentos ideais. Só pela música de fundo, o espectador é capaz de entender a importância de certas cenas, e isto é uma grande conquista. A cinematografia de Doug Emmett também permite algumas imagens lindas com iluminação requintada, mas preciso de passar para as prestações fantásticas do elenco. A performance de Pike já foi apreciada o suficiente e, à data desta crítica, já recebeu uma nomeação para os Golden Globes, logo não necessito de elogiar ainda mais a sua exibição.

No entanto, não posso deixar o resto do elenco ir embora sem menções. Peter Dinklage (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Avengers: Infinity War) oferece uma das minhas representações favoritas da sua carreira de cinema com uma interpretação ligeiramente exagerada, mas intrigante, de um gangster perigoso. Eiza González (Bloodshot, Hobbs & Shaw, Alita: Battle Angel) também é excelente como Fran, amante de Marla, e a sua química com Pike está no ponto. Os seus momentos emocionais são poucos, mas impactantes, e bastante convincentes. Dianne Wiest é uma autêntica badass como Jennifer Peterson, uma idosa não-tão-inocente e, finalmente, um último sinal de apreço para Chris Messina (Birds of Prey), que entrega o seu charme como um advogado que chama imenso a atenção.

I Care a Lot

I Care a Lot é um dos melhores filmes que a Netflix ofereceu até agora nestes dois primeiros meses de 2021. Possuindo uma premissa intrigante, J Blakeson expande brilhantemente a sua ideia através de um argumento esclarecedor que aborda a relação, por vezes enganadora e oportunista, entre cuidador e idoso. Repleto com analogias inteligentes ao capitalismo do nosso mundo, Blakeson transmite mensagens impactantes sobre o poder da autoridade, ambição excessiva e os compromissos morais que se fazem para ganhar dinheiro e sucesso ao custo da liberdade de outros.

Rosamund Pike lidera impecavelmente um filme que começa como uma visão realista do processo de aquisição e lucro de uma nova “vítima” e que, de seguida, evolui para uma segunda metade absolutamente louca com resultados absurdos. Este desenvolvimento ridículo torna-se um pouco irracional em demasia, mas o seu objetivo propositado de demonstrar o comportamento imoralmente implacável dos capitalistas em relação à concorrência é, sem dúvida, cumprido.

Prestações excelentes de todos os envolvidos e uma banda sonora eletrónica surpreendentemente eficaz só tornam este filme melhor. Não podia recomendar mais.

I Care a Lot fica disponível na Netflix a 19 de fevereiro.

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