Crítica – “Vingadores: Guerra do Infinito” – A Marvel não é só feita de super-heróis

por David Fialho

Nota: 


A fadiga dos filmes de super-heróis é real e legítima. Quer seja da Marvel, da DC, ou de outras propriedades, este é um género que está sobrelotado. Mas, no que toca à Marvel, até os mais céticos terão que admitir que a Marvel descobriu a fórmula.

Há dez anos atrás, a ideia de termos diferentes mascotes de diferentes histórias reunidas num único filme era algo de utópico, um sonho logisticamente impossível. Tirando a trilogia de Spider-Man de Sam Raimi, ou os dois primeiros filmes do Batman de Christopher Nolan, quase mais nenhum recebera a merecida credibilidade por parte dos fãs e da crítica.

Nada fazia prever que a fórmula fosse resultar e, durante 10 anos, essa fórmula teve altos e baixos, com filmes fenomenais e, também, alguns desastres, mas a ambição em apostar em algo maior manteve-se e valeu bem a pena a jornada.

Vingadores: Guerra do Infinito não é um filme perfeito. É, aliás, um Blockbuster com B grande, para a pipoca e divertimento. Mas ao contrário do que este tipo de filmes normalmente quer fazer, que é agradar às massas, este novo capítulo é um agradecimento a todos os fãs das bandas-desenhada e aos novos fãs que acompanharam e cresceram com este universo cinemático ao longo da última década.

Este é, curiosamente, o maior defeito da Guerra do Infinito. É quase necessário um curso dedicado ao universo Marvel, ou, como quem diz, é necessário estar a par dos 18 filmes anteriores que compõem esta saga, mesmo os menos bons, porque tudo culmina aqui com perfeição.

Guerra do Infinito é, finalmente, o filme que reúne todas as personagens mais importantes da saga. De fora ficam as introduções de cada uma, nós já as conhecemos, mas muitas delas não se conhecem entre si, e vê-las a interagir umas com as outras acaba por transformar-se em alguns dos melhores momentos do filme, quer nos momentos mais calmos de diálogos, quer nos incríveis confrontos que ocorrem ao longo das duas horas e meia de filme. Isto resulta graças em parte à excelente dinâmica entre os atores e ao tom que foi estabelecido em histórias individuais, tornando, por exemplo, em retrospectiva, o tom humorístico de Thor: Ragnarok, perfeito para juntar Thor com os Guardiões da Galáxia.

Mas Guerra do Infinito não é só feito das estrelas e personagens que tanto gostamos. Finalmente temos Thanos no grande ecrã, com tempo dedicado a si. Já o conhecíamos de pequenos trechos nos créditos de filmes anteriores, ou em aparições como em Guardiões da Galáxia, mas, aqui, é ele que toma o comando desta aventura. Aliás, Thanos é, sem dúvida, a personagem principal do filme.

E felizmente Thanos também não se apresenta como uma personagem vazia. Há motivações e, apesar das suas ações radicais e insanas, muita humanidade, introduzindo um peso emocional com severas ramificações noutras personagens, de uma forma nunca antes vista neste universo.

E é com estes elementos que Guerra do Infinito quebra o molde dos filmes de super-heróis, sendo este episódio a jornada do vilão. Não quer dizer que os Vingadores não tenham o seu lugar, pelo contrário. Todos eles surgem por necessidade e com ações e decisões que definem o percurso dessa história, mas o tempo dedicado a Thanos, assim como à sua caracterização, são os pontos altos do filme.

Na realização de Guerra do Infinito, podemos contar com os irmãos Russo (Anthony Russo e Joe Russo), que realizaram anteriormente o Soldado do Inverno e Guerra Civil. Nesta sua terceira entrada no Universo Cinemático da Marvel, é possível ver não só como todos os filmes da Marvel amadureceram graças às suas visões, mas também pelo modo como realizam a ação ou escrevem o argumento deste filme.

Este é o primeiro filme gravado na sua totalidade em IMAX, o que se traduz no sentimento de que todos os planos foram cuidadosamente planeados para este formato. A ação não é preenchida de cortes rápidos e câmaras tremidas e a ação que temos acaba por ser clara, forte e violenta. Com imensos trechos que tornam este filme na melhor adaptação cinematográfica de um Dragon Ball que nunca iremos ter.

Aliado a isto, Guerra do Infinito conta também com uma excelente cinematografia, com ambientes e fundos possíveis apenas na nossa imaginação, mas que aqui ganham vida com uma apresentação e escala bastante rara no cinema e que, normalmente, só é vista representada pela visão de artistas em desenhos e conceitos.

Guerra do Infinito é tudo aquilo que os fãs poderiam pedir em termos técnicos e na sua execução. Mas acaba por estar minado de situações que só podem ser entendidas para quem conhece muito bem este universo e conta com pequenas sub-narrativas que, no final, parecem ser esquecidas.

Ainda assim há muita emoção, humor, tristeza e até melancolia nesta celebração dos 10 anos da Marvel. Uma década que foi fermentando e posicionando todas as peças no tabuleiro para um derradeiro xeque-mate.

A verdade é que é um filme que irá fazer-nos coçar a cabeça e gerar discussões entre comunidades, assim como novas teorias sobre o futuro da Marvel.

Vingadores: Guerra do Infinito chegou para mudar completo a saga de super-heróis que impulsionou a cultura pop.


 

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