Crítica – “Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw”

por Manuel São Bento

Desde que o possante Hobbs (Dwayne Johnson), um dedicado operacional do Serviço de Segurança Diplomática dos Estados Unidos, e o rebelde Shaw (Jason Statham), um antigo agente do exército britânico, se enfrentaram pela primeira vez em Furious 7, em 2015, a dupla trocou insultos e socos, enquanto tentavam dar cabo um ao outro. Agora, quando Brixton (Idris Elba), um anarquista cibernético geneticamente alterado, assume o controlo de uma ameaça biológica que pode mudar a humanidade para sempre, os dois inimigos têm de se unir para destruir o único homem mais perigoso do que eles.

Sobre a saga Fast & Furious: pode ser diversão parva. Todos os filmes têm o direito de entreter, mesmo que ignorem por completo todos os aspetos relacionados com física e lógica… desde que estabeleçam o seu tom desde o início. Não se pode fazer um filme de ação onde as personagens principais sobrevivem basicamente a tudo o que não devem e, ao mesmo tempo, levar tudo a sério.

Não é que não se possa ter essa mistura de tons (Furious 7 fê-lo brilhantemente), mas isso está reservado para alguns dos melhores filmes do ano, uma vez que não é fácil (de todo) equilibrar tantas coisas diferentes. Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw afirma o seu tom nos primeiros 10 minutos e todos sabem no que se estão a meter. No entanto, não funcionou muito bem para mim…

A saga Fast & Furious é um sucesso inegável, ainda mais em Portugal, onde constantemente quebra recordes de bilheteira. Possui tudo o que um blockbuster deve ter: toneladas de ação (perseguições de carro, explosões, lutas, tiroteios), um enredo fácil de seguir e desenvolvimento de personagens simples. Não há nenhum problema em deixar o cérebro à entrada do cinema por um par de horas.

Claro, Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw é ridículo. É completamente absurdo, não tem qualquer sentido lógico e é inacreditável a quantidade de sequências que ocorre e que desafia a física. Mas isso é exatamente o que se estabelece naqueles primeiros minutos. Dito isto, o público só precisa de se sentar confortavelmente e comer o balde inteiro de pipocas enquanto assiste à ação ridícula no ecrã.

Então, se o tom está bem equilibrado, por que não consegui apreciá-lo tanto quanto o resto? As pessoas parecem estar a divertir-se bastante (mesmo os críticos, que costumam demolir este tipo de filmes, estão a gostar), logo estou na minoria, mas achei a ação muito underwhelming e a comédia esteve longe dos níveis que estava à espera. Sim, existem grandes set pieces e há excelentes cenas de ação, especialmente uma perseguição de mota-carro entre Brixton, Hobbs, e Shaw. Verdade, lá se soltaram uns risos que não consegui conter devido ao quão incrível a química entre Statham e Johnson é. No entanto, isso não é suficiente.

Primeiro, o problema principal com a história: Brixton. Idris Elba é fantástico como sempre e gostava imenso que ele fosse o próximo James Bond. No entanto, a sua personagem é tão mal escrita e tão horrivelmente explorada que me questiono o porquê de a terem concebido como uma máquina com super-poderes. Literalmente, não há nenhuma diferença entre ele e as outras duas personagens principais, o que destrói a vibe de “super-vilão” que Elba deveria ter.

Esse é o problema de ter um filme tão absurdo: se os “heróis” são invencíveis devido à enorme plot armor que possuem, como é que o “super-vilão” é diferente deles? Se uma explosão ocorre com os três próximos uns dos outros, como é que Hobbs e Shaw sobrevivem da mesma forma que Brixton? Como é que um soco do “Super-Homem negro” tem o mesmo impacto que um soco dos outros dois?

Depois, a comédia. Não é que não goste de ver Statham e Johnson a gozar e a ameaçarem-se por cinco minutos seguidos em três cenas diferentes. É demasiado tempo e nem todas as piadas têm efeito. O filme em si é muito longo, pouco mais de duas horas. Se não tivesse conhecimento de toda a sequência de Samoa por ocasionalmente vê-la em trailers na televisão, teria acreditado que o filme estava prestes a acabar quando começou o terceiro ato. Parece que vai terminar, mas depois há toda uma outra sequência de ação para mostrar.

Pela primeira vez em muito, muito tempo, quase adormeci durante a transição do penúltimo para o último momento de ação. Este também é muito dececionante tendo em conta que David Leitch é o realizador. Muitos cortes rápidos e edição demasiado torbulenta.

Finalmente, há uma tentativa de iniciar um romance que eu não vou revelar, mas… Não é que seja forçado, porque realmente não é. Segue um caminho lógico, as personagens não dizem coisas estúpidas uma para a outra e foi, surpreendentemente, uma boa maneira de parar para respirar e relaxar longe de toda a ação. No entanto, quando o filme atinge a sua conclusão, simplesmente ignoram a relação e nunca mais a abordam. Há até uma linha de diálogo semelhante a “vou deixar-te dar-me um beijo amanhã se ainda estivermos vivos”, mas nunca voltam a este ponto. É como se nunca tivesse acontecido… Porquê? A única coisa que foi realmente lógica e emocionalmente convincente é completamente ignorada no fim. Desapontante.

Não quero ser muito duro com Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw porque entendo o quão divertido e engraçado este possa ser. Tenho a certeza que o público vai adorar e os fãs da franchise vão gostar ainda mais. A química do elenco é palpável e todos são fantásticos. Dwayne Johnson e Jason Statham são impressionantes como as estrelas de ação e são, definitivamente, a principal fonte de entretenimento. Vanessa Kirby também é excelente e tenho que elogiar o filme por manter surpresas espetaculares escondidas. Não vão acreditar quem está neste filme também. Há ainda algumas sequências de ação impecáveis e ri mais do que um par de vezes, logo creio que não é tão mau como esta crítica possa transmitir.

Sei que estou na minoria, logo recomendo a todos os leitores verem o filme (exceto nos Cinemas NOS) e julgá-lo por vocês mesmos. Se gostam de ação absurda, ridícula e over-the-top, bem como comédia cheesy, Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw pode ser perfeito. Mas realmente não funcionou para mim.

A comédia não foi tão boa como eu esperava, a ação não é tão cativante e Brixton é uma personagem tão horrivelmente escrita e pouco explorada que continuei a sentir-me frustrado cada vez que uma sequência de ação terminava. Vão pelas grandes cenas de ação e pela pura diversão e fiquem-se pela química do elenco fantástico.

PS: se ainda não viram Game of Thrones até agora, spoilers valentes neste Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw. Fica o aviso.

Nota: 2.5 Estrelas

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