Crítica – The Old Guard

The Old Guard continua a tendência da Netflix em criar filmes de ação originais com sequências entusiasmantes e frenéticas.

Um coeso grupo secreto de mercenários imortais protege o mundo desde tempos imemoriais, sob a liderança de uma guerreira chamada Andy (Charlize Theron). Quando a equipa é recrutada para uma missão de emergência em que as suas extraordinárias capacidades são reveladas, Andy e a novata Nile (Kiki Layne) terão de ajudar o grupo a eliminar a ameaça daqueles que procuram a todo o custo replicar e lucrar com o poder do grupo.

A Netflix não é propriamente famosa pelos seus filmes de ação originais e, quando aparecem, a maioria tende mais para o lado cómico ao invés de se focarem na ação em si (Spenser Confidential, 6 Underground). No entanto, 2020 parece ser o ano escolhido pela plataforma de streaming para surpreender os seus subscritores com ação cruel, sangrenta e violenta.

Há alguns meses, Tyler Rake: Operação de Resgate tornou-se no melhor filme de ação original do estúdio e, consequentemente, num dos melhores filmes já lançados pelo serviço de streaming. Portanto, as minhas expetativas para The Old Guard eram razoavelmente altas, tendo em conta que temos Charlize Theron como protagonista e Greg Rucka como o único argumentista (é um dos dois criadores das comics originais em que o filme se baseia). No geral, é um filme bastante decente que podia ter sido muito melhor se tivesse atingido todo o seu potencial.

Em primeiro lugar, qualquer filme que se preocupe mais em começar uma franchise do que em realmente ser um “bom filme” está a preparar-se para falhar miseravelmente. Felizmente, apesar da película de Gina Prince-Bythewood estabelecer lore digno de uma saga, nunca faz do mesmo a prioridade número um. Na verdade, até à penúltima cena do filme, estava genuinamente preocupado que um certo enredo não tivesse encerramento devido à tal mentalidade de “precisamos de guardar algo para as sequelas”…

No entanto, Greg Rucka sabe o que precisava de escrever para a primeira parte de uma possível franchise e o que podia guardar para os próximos capítulos. A história é verdadeiramente intrigante e misteriosa, possuindo mitologia profunda e complexa que não tem respostas concretas. Um dos aspetos que mais adoro nesta narrativa é o equilíbrio na abordagem abstrata e filosófica ao tema da imortalidade. Por mais estranho que soe, a imortalidade é retratada de uma maneira muito credível, mesmo quando tudo sobre o assunto pareça inacreditavelmente louco.

Mesmo logicamente, todas as perguntas que se pode ter sobre “quão imortais podem ser?” são respondidas de alguma forma, por isso, é evidente que Rucka quis fazer da imortalidade algo incrivelmente real e bem fundamentado. A personagem de Theron tem o seu passado muito bem explorado através de flashbacks e alguns diálogos cativantes com a sua equipa. Andy é uma personagem fácil de apoiar e a sua “badassery” ajuda, sem dúvida alguma, a fortalecer essa conexão emocional com o espetador.

Kiki Layne é uma grande surpresa para mim, entregando uma prestação impressionante. Perdi a oportunidade de a ver em If Beale Street Could Talk, logo esta é a primeira vez que a vejo no “grande ecrã” e, honestamente, mal posso esperar para ver os seus próximos projetos. A sua personagem, Nile, também é muito interessante. Tem de tomar decisões de vida extremamente desafiadoras para uma mulher tão jovem, tornando-a uma candidata a roubar os holofotes de Andy nos filmes seguintes (que vão, sem dúvida, acontecer).

Gostava que o argumento de The Old Guard carregasse exposição menos forçada, mas entendo as dificuldades em explicar tantas “regras” deste mundo sem ter alguns diálogos exclusivamente destinados a entregar a informação obrigatória. Rucka e Gina podiam ter tomado as melhores decisões narrativas sobre alguns enredos. Algumas sequências contêm imenso potencial que nunca é alcançado, deixando-me sempre a querer um pouco mais de uma personagem em específico ou de um subplot em particular.

A ação é claramente acima da média, mas está longe da qualidade de Tyler Rake: Operação de Resgate, por exemplo. Alguns momentos de ação são muito bem coreografados e editados (Terilyn A. Shropshire), mas a maioria emprega o estilo genérico de “soco e corte rápido”. Por mais nitpicky que possa ser para um filme rated-R, os tiros não têm o impacto visual e sonoro que deveriam ter, sendo estranhamente pouco flashy durante a maior parte do tempo de execução. Em todo o caso, a ação é divertida o suficiente para fazer qualquer espetador pegar no balde das pipocas e comer tudo.

Porém, existem dois aspetos que prejudicam fortemente The Old Guard. A escolha das músicas de fundo não podia ser mais cringe-worthy ou desconfortável. Não tenho a certeza se os compositores da banda sonora (Volker Bertelmann, Dustin O’Halloran) são os únicos culpados, mas a introdução excruciante de uma música electropop a cada dez minutos, incluindo a meio das sequências de ação, estraga o tom sombrio e negro que o filme possui, chegando mesmo a distrair da luta em si. O outro aspeto está relacionado com o “vilão”. Não posso aprofundar os detalhes, mas Gina e Rucka podiam ter criado um antagonista fenomenal cujas motivações morais ressoariam com todos os espetadores, mas, em vez disso, o motivo clichê de “quero dinheiro” ganhou.

Resumindo, The Old Guard continua a tendência da Netflix em criar filmes de ação originais com sequências entusiasmantes, apesar de não atingir o nível de Tyler Rake: Operação de Resgate. Algumas sequências são realmente bem coreografadas e bem editadas, mas a maioria é simplesmente genérica e divertida “o suficiente”.

Como um dos criadores das comics em que o filme se baseia, Greg Rucka entrega um argumento repleto com lore intrigante, que é bem explorado e bem construído para (o que deverá ser) o primeiro filme de uma nova saga. Com a notável realização de Gina Prince-Bythewood, o foco principal manteve-se em fazer um bom filme em vez de tentar inserir o máximo de informação possível. Charlize Theron e KiKi Layne oferecem prestações excelentes como as duas protagonistas bem desenvolvidas e emocionalmente convincentes.

No entanto, o estranho uso de músicas electropop como banda sonora ao longo de todo o filme prejudica o mesmo em inúmeros momentos. Para uma história que contém um dilema moral no seu centro, a escolha de um vilão motivado por dinheiro é tanto desapontante como extremamente insatisfatório, tendo em conta o potencial do antagonista. The Old Guard é filme de ação cheio de entretenimento, sem dúvida… mas carregava tanto potencial que chego a ter pena que não tenha atingido nem metade do mesmo.

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