Crítica – Cherry

Cherry é uma trapalhada indiscutível, mas ainda se aguenta firme devido a uma primeira metade cativante e à melhor performance da carreira de Tom Holland, para além de ser geralmente bem filmado.

Cherry
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Sinopse: “A viagem dramática de um rapaz pobre de Ohio, Cherry (Tom Holland), que encontra o amor da sua vida em Emily (Ciara Bravo), mas arrisca perdê-lo devido a decisões erradas e circunstâncias da vida.”

Tenho sido um apoiante forte da Apple TV+ desde que vi Servant. Acredito genuinamente que é o serviço de streaming mais subestimado de todos, especialmente em Portugal. Apesar de só ter visto uma série, ainda não desgostei seriamente de um único filme (Wolfwalkers, Palmer, On the Rocks), o que só elevou as minhas expetativas para Cherry, que já eram bem altas. Agradeço diariamente aos Russo Brothers pelo trabalho magnífico que fizeram no Marvel Cinematic Universe, principalmente com os últimos filmes dos Avengers, logo estaria sempre interessado em ver como lidariam com projetos fora da MCU. Contratem Tom Holland (The Devil All the Time, Onward) como o protagonista e têm um dos filmes mais antecipados do primeiro semestre de 2021.

Um dos melhores atributos do estilo cinematográfico dos Russo Brothers é a sua capacidade incrível de balançar uma quantidade esmagadora de histórias e personagens distintos sem arruinar o ritmo, o tom e a estrutura narrativa do filme. “Less is more” não é exatamente uma diretriz seguida por estes realizadores, o que está longe de ser um problema no género de super-heróis. No entanto, quando se trata de um filme mais pequeno como Cherry, a combinação de géneros e narrativas diferentes prejudica profundamente a história abrangente. O que começa como uma simples e fofa história de amor transita para um drama-ação de guerra pesado e termina com um enredo monótono, maçador e lento em torno do vício de drogas, PTSD e assaltos a bancos.

Estas três linhas narrativas serviram como premissas individuais para centenas de filmes ao longo da história do cinema. Isto não significa que não possam ser desenvolvidas num único filme, mas o argumento de Angela Russo-Otstot e Jessica Goldberg necessitava de ser melhor estruturado. A primeira metade do filme é bastante cativante e cheia de entretenimento, no mínimo. Cherry e Emily são duas personagens relacionáveis que se aproximam emocionalmente de forma natural, tornando o eventual dilema que leva Cherry a juntar-se ao exército bastante convincente, para além de ser uma situação razoavelmente comum. Nesta primeira mudança de género, o tom muda sem problemas e todo o plot de guerra definitivamente vale o investimento do espectador.

Cherry

Esta parte do filme é onde os famosos realizadores brilham. O elevado valor de produção vai para a criação de cenas de ação fascinantes e o trabalho de câmara energético de Newton Thomas Sigel torna todas as sequências importantes mais entusiasmantes. Fãs da Marvel certamente ficarão encantados durante este subplot, mas o maior problema do filme vem com a sua segunda metade. Com uma transição de género extremamente abrupta, Cherry vai piorando ao longo dos seus últimos 80 minutos ou mais, afogando-se numa piscina de assuntos tabu. Desde a drástica queda no ritmo ao tom mais deprimente, Cherry e Emily passam por uma história dolorosa e repetitiva sobre o vício de drogas. Adicionar PTSD e assaltos algo ridículos a bancos à mistura não funciona.

No geral, é um argumento incrivelmente trapalhão que tenta fazer demasiado para o que é necessário, mas o método avassalador de realização por parte dos Russo Brothers também não encaixa muito bem neste filme. Uso excessivo de câmara lenta, uma banda sonora estranhamente diversa (Henry Jackman) – na verdade, é muito boa, apenas não é usada adequadamente – e vários ângulos de câmara que, apesar de entregar planos bonitos, distraem o espectador da história em si, que devia ser o foco principal. Cherry parece ser uma demonstração técnica para o que os conhecidos irmãos conseguem fazer com um orçamento menor. Embora sejam bem sucedidos em mostrar todo o seu talento por detrás das câmaras, não é algo que precisavam de provar ao público, que só quer assistir a um filme com uma boa história e personagens interessantes, e não ser confundido por tecnicismos maravilhosos que não têm lugar neste filme.

No meio do caos da realização e argumento, Tom Holland aproveita e entrega a melhor prestação da sua ainda curta carreira. Na minha humilde opinião, acredito firmemente que será um vencedor de Óscar até ao fim da década. Aos 26 anos, Holland mostra um alcance emocional excecional, particularmente poderoso na interpretação das emoções mais sombrias. Acrescentem uma capacidade física fantástica e ficam com um ator que pode basicamente fazer um pouco de tudo. Com este papel, Holland explora profundamente as suas habilidades, representando cenas chocantes que todos terão dificuldade em assistir devido ao seu compromisso total. Ciara Bravo pode começar apenas como uma “cara bonita”, mas a segunda metade problemática acaba por ajudar a mesma a sair da sua concha e a demonstrar todo o seu talento. Excelente interpretação, surpreendente até, vindo de alguém que também não tem uma filmografia vasta.

Cherry

Cherry é uma trapalhada indiscutível, mas ainda se aguenta firme devido a uma primeira metade cativante e à melhor performance da carreira de Tom Holland, para além de ser geralmente bem filmado. A mistura de géneros frustrante pode ter como origem o argumento confuso, mas o show-off desnecessário na realização dos Russo Brothers também prejudica o filme de múltiplas narrativas.

O lema genérico – mas verdadeiro em muitas ocasiões – “less is more” não foi utilizado como motto durante a produção deste filme, algo provado pelos ângulos de câmara deslumbrantes mas distrativos, pela banda sonora entusiasmante mas “um pouco por todo o lado”, e pelo uso impactante mas excessivo de câmara lenta. A primeira parte possui uma narrativa convincente e repleta de entretenimento com uma história de amor autêntica e um drama de guerra carregado de sequências de ação fascinantes.

No entanto, a metade seguinte desce drasticamente o ritmo e muda depressivamente o tom, levando os espetadores por um enredo cansativo, genérico e muito menos interessante. Em última análise, a interpretação impressionante de Tom Holland não deixará ninguém indiferente, mantendo os olhos do público presos ao ecrã até ao fim e elevando todas as suas cenas. Ciara Bravo trabalha lindamente como a contraparte feminina, entregando uma prestação surpreendente.

Cherry recomenda-se, apesar de admitir que esperava muito mais das pessoas envolvidas. O filme estreia a 12 de março na Apple TV+.

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