Apesar das suas semelhanças estéticas e ocasionalmente mecânicas com a série da 2K Games, Twisted Tower destaca-se pelo seu sistema de ação e um saudável foco numa estrutura linear, mas repleta de surpresas que agarram o jogador até ao final.
Na crítica, a comparação entre dois videojogos nem sempre é fidedigna, ou justa na sua abordagem, mas é uma forma rápida de ajudar o leitor a compreender a jogabilidade e estilo de um determinado projeto. Quando dizemos que um videojogo é semelhante a Metal Gear Solid, por exemplo, estamos a permitir que o leitor crie uma imagem mental, uma ideia que lhe é mais confortável e familiar sobre um projeto que ainda não conhece. Apesar de nunca ter jogado ou experienciado este videojogo hipotético, a comparação a Metal Gear Solid deixa o leitor tecer as suas expectativas pessoais. Se existem semelhanças com a série da Konami, então é esperado que o videojogo se insira no género de ação furtiva, talvez com elementos futurísticos, um mini-mapa com o posicionamento dos inimigos, um sistema de camuflagem e uma história densa, repleta de reviravoltas e terminologias que constroem um mundo sólido e igualmente intrigante.
No caso de Twisted Tower, o novo título de Thomas Brush, as comparações tornam-se óbvias. Através do seu estilo retro, próximo à Art Deco e a uma paleta de cores entre os dourados e tons avermelhados, que dá vida a um mundo construído sobre a hubris do seu antagonista, uma mega-estrutura que se expande através de vários níveis repletos de armadilhas e criaturas invulgares, onde a tecnologia e o tradicionalismo colidem esteticamente para criar uma forte vertente visual revelam rapidamente uma forte aproximação à série Bioshock. De facto, a narrativa não se coíbe dessa comparação e revela essa inspiração através de uma campanha sobre um homem solitário a enfrentar o seu passado enquanto é atormentado por um antagonista sem rosto, cuja voz persegue e atormenta o protagonista ao longo da campanha. Em vez de Andrew Ryan e da cidade de Rapture, Twisted Tower apresenta-nos Vincent, o jovem aluno falhado de medicina, e V.C. Twister, aquele que já foi o realizador mais cobiçado da indústria cinematográfica, mas agora caído em desgraça.
A estrutura de Twisted Tower também revela algumas semelhanças à série da 2K Boston (anteriormente Irrational Games), especialmente ao primeiro Bioshock, e coloca-nos na titular torre, uma enorme estrutura que se assemelha a uma mistura entre circo e um parque de diversões dos infernos. As várias zonas, que representam a filmografia de V.C. Twister, são interligadas por um elevador e o nosso objetivo é alcançar o topo para salvar Charlotte, o interesse amoroso de Vince, naquela que é uma narrativa menos misteriosa e muito previsível do que Rapture e o papel do seu protagonista. Para salvar Charlotte, Vincent tem de navegar através dos vários andares da torre, todos eles temáticos, partes distintas do parque de diversões, com os seus próprios desafios e elementos cosméticos e mecânicos. Em Mermaid Palace, por exemplo, temos sequências aquáticas, onde temos de navegar trechos dos níveis enquanto gerimos o oxigénio de Vince, mas em Giggle Town, que se assemelha a um casino gerido por palhaços, a navegação requer a utilização de carrinhos de montanhas russas.

Apesar de existir a possibilidade de revisitarmos as zonas à medida que desbloqueamos novas ferramentas e acessórios para Vince, como os sapatos de palhaço e o grappling hook – o primeiro permite-nos utilizar trampolins para saltarmos por cima de obstáculos e o segundo só pode ser utilizado em momentos pré-definidos pelo jogo -, Twisted Tower é muito mais linear na sua abordagem ao género. As zonas são mais restritas, com um design menos focado na exploração, mais próximo aos clássicos do género na forma como gere as suas zonas secretas, sem caminhos secundários que revelam novas secções da campanha ou novas oportunidades de combate. Twisted Tower é muito mais um jogo de ação na primeira pessoa, com um enorme foco no combate, do que um jogo de aventura e aqui afasta-se decididamente de Bioshock. A sua vertente narrativa é forte, com Vincent a desvendar partes do seu passado através de documentos e gravações áudio ao longo da campanha, mas a ação é sempre linear, intercalada por momentos de plataformas – duplo salto, gancho, dash aéreo são habilidades que desbloqueamos – que levam os jogadores através de corredores e arenas de combate sem o jogo alterar muito o seu design até à batalha final.
A temática circense não é apenas uma escolha estética. O armamento de Vince é igualmente colorido e bizarro. As armas servem o propósito esperado e seguem o modelo que associamos ao género de ação, com uma variedade de armamento entre pistolas, espingardas e lança granadas, mas em Twisted Tower nem sempre usamos balas ou opções tradicionais no que toca ao seu design. Para cada revólver e shotgun que temos no armamento, existem armas que disparam berlindes, pastilhas elásticas e encontramos fogo-de-artifício que funciona como granada. A utilização das armas é bastante intuitiva e os tempos de resposta são sólidos, mas Twisted Tower não usa um sistema de mira com zoom, fora a fisga, mas existe um certo magnetismo nas balas que tenta compensar esta ausência. Infelizmente, Twisted Tower peca na variedade de inimigos e aposta demasiado em criaturas com muitos pontos de vida, tornando os confrontos artificialmente mais longos do que deveriam ser.
O que Twisted Tower recupera diretamente de Bioshock é a possibilidade de melhorarmos as armas. Não existe um sistema de magia que substitua os Plasmids de Bioshock, mas o melhoramento das armas é praticamente idêntico e serve para compensar a ausência de outras opções de combate. Com um total de 10 armas, podemos melhorar o seu poder de ataque, tempo de carregamento e desbloquear uma habilidade única, como mira de longo alcance para a fisga e um disparo rápido para o revólver. Estas habilidades são muito eficazes em combate e são a motivação perfeita para encontrarmos todos os segredos escondidos nos níveis. A recolha de bilhetes de admissão, que funcionam como as moedas de Twisted Tower, nunca se torna cansativa e é divertido destruir balões e partes dos cenários para termos acesso a estes recursos.

Apesar das semelhanças estéticas e da partilha entre certas mecânicas, Twisted Tower funciona melhor se for analisado como um jogo de ação tradicional. A exploração é muito limitada, os caminhos alternativos não revelam zonas secundárias e a motivação para revisitar os pisos anteriores da torre é muito reduzida devido à ausência de novos inimigos. Os bilhetes surgem com tanta regularidade que também não servem como motivação para explorarmos mais e chegamos ao final da campanha satisfeitos com as habilidades que desbloqueamos sem precisarmos de explorar tudo a 100%. Ainda que tenha sentido que a estrutura é muito arcaica e repetitiva ao longo da campanha, muito devido aos inimigos esponja, Twisted Tower é divertido quando nos transporta para as suas arenas de combate. Os inimigos são agressivos e combinam muito bem entre si, seja a curto ou longo alcance. Há um ritmo forte no sistema de combate e na forma como gerimos as hordas de inimigos em arenas fechados, obrigando-nos a utilizar as ferramentas e habilidades de Vincent para estarmos constantemente em movimento.
Twisted Tower pode ter ambicionado ser algo que ficou fora do seu alcance, muito devido à sua escala reduzida e falta de momentos de exploração, mas eu vejo isso como um ponto positivo. A comparação, enquanto método de análise, é uma moleta para o crítico e para o leitor porque ajuda a criar expectativas, mas é também esse o seu maior problema. É difícil não fazer comparações entre videojogos, especialmente quando se tratam de exemplos dentro do mesmo género, mas é preciso ter cuidado nas expectativas que criamos. Twisted Tower é um divertido jogo de ação na primeira pessoa, com um foco narrativo forte, com uma história pouco surpreendente, mas bem contada através de diálogos curtos e colecionáveis (um pormenor no twist final talvez tenha sido desnecessário), só que nunca chega a ser Bioshock, fora as semelhanças visuais que interligam ambos os videojogos. E isso é positivo.
Cópia para análise (versão PC) cedida pela 3D Realms.
