The Lord of the Rings: War in the North tinha tudo para ser uma boa história paralela à trilogia de Peter Jackson, com um canto da Terra-Média pouco explorado, uma equipa com provas dadas e uma licença capaz de vender quase tudo. E se em 2011, não conseguiram aproveitar a oportunidade, em 2026, a Aspyr não fez melhor.
A perfeição e a mediocridade são lados da mesma moeda, tanto que em Game of Thrones, se costuma dizer que quando nasce um Targaryen, os Deuses atiram uma moeda ao ar para decidir como vai ser. E é um pouco o que acontece com os lançamentos da Aspyr, que nunca sabemos muito bem o que nos vai calhar, com resultados bem díspares. Ora são geralmente reconhecidos como bons, como as duas coleções de remasterizações dos Tomb Raideroriginais, ouresultam em projetos medíocres como The Lord of the Rings: War in the North – Legacy Edition.
O auge do lançamento da trilogia de Peter Jackson serviu de porta de entrada para várias gerações de novos fãs à obra de J.R.R. Tolkien. Desde então, que não faltaram excelentes oportunidades de termos jogos da saga de qualidade. Entre The Lord of the Rings Online e as adaptações LEGO, ou até os Shadow of Mordor/War, que continuam a influenciar os jogos modernos com mecânicas únicas, ainda nos regalámos. Não obstante a qualidade, todos partilham da mesma natureza: sentem-se como extensões ou reinterpretações, mas com um tom bem distinto, como é o caso dos jogos LEGO. Mais recentemente, quando regressamos à Terra Média virtual, acabamos por levar com um jogo do Gollum, cuja face tristonha pode ter traumatizado toda uma geração.
The Lord of the Rings: War in the North também se destaca. Ainda que funcione como uma expansão do universo cinemático, esforça-se para ser um dos mais fiéis aos eventos dos filmes, com uma história a decorrer em paralelo e com os ingredientes necessários para nos envolver no épico.
Ajeitando os óculos de nerd,os apêndices de Senhor dos Anéis continuam válidos para serem adaptados em qualquer meio e, apesar de serem notas ou breve menções cronológicas, a criatividade de quem ousa trabalhar nestes projetos deveria conseguir pintar para lá das margens das suas telas. O que quero dizer com isto, é que para lá do que The Lord of the Rings: War in the North nos oferece, mesmo na sua versão original, acho que podia ter ido mais além. Se o jogo se foca no norte, podia ter expandido a Batalha de Dale.

Neste cenário, que decorre durante os eventos que assistimos no cinema, Erebor e Dale já se livraram da influência de Smaug. E enquanto a companhia de Bilbo e Thorin distraía o dragão, Gandalf afastou o Necromander (Sauron) de Dol Goldur. Duas jogadas com um impacto a muito longo prazo e que enfraqueceram o alcance de Sauron durante a Guerra do Anel.
Ainda assim, e sem um dragão em jogo, Dale foi cercada. Dain tombou a defender o neto de Bard, os dois reis dos anões e humanos respetivamente. E quando as notícias da derrota de Sauron e da destruição do Anel chegaram, os cercados investiram com uma coragem e motivação renovadas, derrotando os adversários desnorteados e sem líder. Temos narrativa, tensão, combates épicos, sacrifício, drama e uma vitória merecida. E espaço para criar.
Dei este exemplo, porque sinto que temos o potencial de pegar em algo já existente e materializá-lo num novo e grande projeto. Só que a Snowblind Studios foi no sentido oposto, achando-se capaz de contar a sua história com liberdades criativas que deixaram muito a desejar, com um trio de protagonistas genéricos, Eradan (humano), Farin (anão) e Andriel (elfa), numa jornada em paralelo à da Irmandade, cuja missão passava por distrair Agandaûr, um númenórean negro, enviado por Sauron.
Tal como um vilão de Scooby Doo, Agandaûr foge de poiso em poiso para recrutar exércitos de orcs, trolls e outras criaturas para destabilizar o norte da Terra-Média. Ao longo da campanha, há toda uma checklist de referências, como águias, dragões e set pieces, mas pouco ou nada que torne a experiência memorável. Isto podia funcionar, se não fosse pelo carisma de esferovite dos protagonistas, os diálogos chochos e as interações forçadas com as versões de marca branca dos filmes.
Não quero dizer que o risco e a vontade de adicionar novas histórias a um universo pré-estabelecido não resulte, mas Star Wars, que é outra franquia que adoro, não lhe faltam histórias originais ao longo dos anos, desde os Jedi Knight aos Fallen Order, por exemplo.

A versão original de The Lord of the Rings: War in the North foi desenvolvida pela equipa de Baldur’s Gate: Dark Alliance, um clássico da PlayStation 2 que foi extremamente bem recebido! Dark Alliance deixou-nos brincar no mundo de Dungeons & Dragons, sem se focar no role play puro, mas na diversão através da cooperação. E descobri que teve uma sequela e um relançamento em 2021, que quero espreitar! Um jogo de Senhor dos Anéis com esta premissa só podia ser um sonho, pegar em amigos, Monster e doces para desancar em Orcs noite dentro, mas os sonhos têm a mania de se tornarem em pesadelos quando não prestamos atenção.
É possível que tenha acontecido alguma coisa durante o salto de gerações, alguma entropia que os tenha impedido de replicar o que funcionou em Dark Alliance. Para além da mudança óbvia de cenário e contexto, trocaram a perspetiva (isométrica, à Diablo); aproximaram a câmara à de um jogo de terceira pessoa tradicional e separaram o ecrã em vez de manter os jogadores no mesmo. Nada contra, mas é-me castrador quando dividem o ecrã na vertical e comem metade do jogo, do mundo, da ação e não percebo o que está a acontecer. Digo isto, depois de ter passado os Gears of War e os primeiros Halo todos em co-op. Não sendo perfeitos, conseguia jogar.
Por último, os visuais não acompanharam o salto para a época da alta definição. É tudo muito tosco, mas podia ser um tosco com uma boa direção artística.
2011 também foi um ano prolífico em lançamentos, com Mass Effect 2, Skyward Sword, Dead Space 2, Uncharted 3, Gears of War 3 e outros tantos, o que jogou contra War in the North. Apesar de já respirarmos Tolkien e Peter Jackson, em antecipação para o primeiro filme da trilogia do The Hobbit, não havia espaço para a mediocridade, mesmo bancada por uma franquia poderosíssima.
E por alguma razão, acharam que War in the North iria vingar em 2026. Quer dizer, até podia, pois temos dois filmes na calha e Magic the Gathering recebeu a nova coleção de The Hobbit, mas a Aspyr seguiu a lei do menor esforço e entregou um jogo a emular a versão original, “remasterizando” os problemas e tudo. Mas se fosse divertido, podíamos ignorá-los, mas não dá, a jogabilidade continua monótona e não varia, idem com os adversários e os mapas não puxam à exploração.

Os jogos da PlayStation 2, como os Tomb Raider e os Soul Reaver, onde a Aspyr caprichou, permitem alterar entre os visuais originais e os remasterizados, que ainda me parece magia negra. Ao passo que aqui, mantiveram apenas os originais e o filtro castanho que permeou aquela geração em específico. Se na altura não conhecíamos diferente porque eram “gráficos realistas”, hoje merecemos melhor.
Se tenho de apontar um ponto positivo, é que apesar do amadorismo, War in the North até conta com um elenco sonante como Nolan North, Laura Bailey, Fred Tatasciore, Yuri Lowenthal e o falecido Tom Kane, entre outros. Infelizmente desperdiçados, é certo, mas é sempre um prazer redescobrir trabalhos antigos e ver como os nossos artistas favoritos evoluíram.
E se tenho de apontar outro ponto positivo, é que me deu vontade de explorar a ludoteca de Senhor dos Anéis, especialmente o Third Age e o Hobbit.
The Lord of the Rings: War in the North – Legacy Edition é, portanto, uma oportunidade perdida. Tinha uma premissa interessante, pedigree suficiente e uma licença enorme, mas a execução envelheceu mal e a remasterização da Aspyr limitou-se a preservar precisamente aquilo que devia ter sido melhorado.
Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Sandbox Strategies.
