Halo: Campaign Evolved leva-nos até onde as aventuras de Master Chief e da própria XBOX começaram, com um remake fiel, confiante e que nos deixa já a pedir pelo mesmo tratamento para o resto da trilogia.
Halo está de volta. E não me refiro ao estado da série, que sempre foi uma constante tanto nos pontos mais altos como nos mais baixos. Está mesmo de volta, de volta ao ponto de partida, para dar a oportunidade de se dar a conhecer a uma nova geração de jogadores, 25 anos depois da sua estreia original. Depois um ambicioso e divisório projeto que tornou difícil identificar a linha que separa o conceito de remaster do de remake, com Halo: Combat Evolved Anniversary ao celebrar os 10 anos do jogo (em 2021), Halo: Campaign Evolved é bem mais confiante na sua proposta, apresentando-se como um verdadeiro remake. E um remake que sinto que a Halo Studios (anteriormente conhecida como 343 Industries) e a própria XBOX desvalorizaram na sua campanha de promoção.
Halo: Campaign Evolved é ainda assim precisamente aquilo que foi prometido. A recriação do icónico jogo da XBOX original, com tecnologias recentes (Unreal Engine 5) e adaptado a um estilo de jogo também ele moderno, com umas cinemáticas mais bonitas, novos modelos, texturas e efeitos. Mas tudo isto é de uma ambição perigosa, que requer uma profunda alteração da direção de arte, de forma a tornar os visuais 3D dos primeiros anos do milénio, em algo mais fílmico e realista, assim como decisões de game design para melhorar os aspetos do jogo original, que, acreditem em mim, tinha muitos problemas.
Enquanto um grande fã de Halo – com Halo 3 a ocupar o primeiro lugar e Halo 2 bem lá no fundo, ainda abaixo do mal-amado Halo 5 – Halo: Combat Evolved sempre sofreu um pouco das limitações criativas e técnicas da sua era, ao mesmo tempo que se cimentava como uma referência para os FPS em consolas. E entre esses problemas destaco particularmente alguns: a repetição e o backtracking constante por níveis e caminhos já existentes (reutilizando áreas); uma desorientação enorme na navegação de algumas áreas (incentivando à exploração); e uma história que, francamente, sempre foi um pouco superficial e secundária ao resto da experiência.

Em contrapartida, alguns dos melhores aspetos de Halo: Combat Evolved estão de mãos a estes problemas, como é o caso da sua atmosfera e ambientes liminares que ainda hoje são uma referência estética em jogos modernos; uma jogabilidade quase imaculada, divertida e fácil de pegar; e um jogo com uma longevidade perfeita, onde o storytelling visual que tira protagonismo a qualquer linha de diálogo do jogo. Dito isto, é com muita satisfação que sinto que a Halo Studios conseguiu preservar todos os aspetos positivos, melhorando os problemas do original. Mas, lá está, com riscos que, embora os novos fãs não liguem nenhuma, poderão irritar os mais agarrados à essência dos originais.
A primeira coisa que me chamou à atenção em Halo: Campaign Evolved, para lá dos seus belíssimos visuais, foram as cinemáticas. Estas, infelizmente pré-renderizadas a 30 FPS, são muito mais longas que as originais, extremamente bem dirigidas, com uma sensibilidade cinemática fantástica, com um texto adaptado àquilo que imaginaríamos num “live-action” do jogo. Com Steve Downes e Jen Taylor de volta às vozes de Master Chief e Cortana, temos diálogos regravados, com um maior envolvimento emocional e maior exposição, que ajudam a aprofundar a narrativa, e que nos motivam com melhor contexto para as lutas que se seguem. Acaba por tornar Halo num jogo mais bem contado e com uma qualidade e escala cinemática que só acabamos por encontrar nas suas sequelas em Halo 2 e Halo 3. Mas, apesar deste elogio, há um certo equilíbrio em não ir muito além, impendido que desvirtue a narrativa original ou que apresente novos elementos. Simplesmente o jogo parece bem mais rico neste departamento.
Desde a sua revelação que nos foi dito que Halo: Campaign Evolved seria um remake 1:1 do jogo original e é algo que no início desta aventura assim o parece, no entanto, quanto mais avançava, mais evidentes se tornavam as alterações. E, mais uma vez, não me refiro só aos visuais mais bonitos, mas sim aos seus níveis, aos seus designs, às diferenças nos caminhos que tomamos, nas arquiteturas, nos espaços, em alguns objetivos e, claro, nos inimigos. Não se desviando tanto das suas origens como os remakes de Resident Evil ou de Silent Hill 2, Halo: Campaign Evolved toma alguns riscos bem interessantes. Como por exemplo a presença de mais inimigos no ecrã e uma sensação constante de claustrofobia, acentuada por ajustes feitos a alguns dos mapas mais emblemáticos do jogo original, tornando uma experiência que era outrora maioritariamente mais contemplativa, por vezes num autêntico jogo de horror.
Tomemos por exemplo a Library, um jogo relembrado por momentos de espera enquanto hordas do Flood nos atacavam por todos os lados com recursos limitados. No remake, toda essa área foi refeita quase ao ponto de se tornar irreconhecível. Os espaços abertos foram convertidos em corredores, algumas áreas introduzem até mecânicas de ativação de caminhos alternativos e quanto mais avançamos no nível mais claros são os efeitos da infeção alienígena. O que era um dos meus níveis mais detestáveis no original, rejogar no remake foi uma autêntica aventura de descoberta, mas também de grande tensão, dado que os caminhos mais fechados provocam uma claustrofobia maior e aumentam o risco das nossas decisões na gestão de balas e granadas.

Outro nível que também é digno de mencionar, é o que surge logo a segui, Two Betrayals, que no jogo original era basicamente uma revisitação de um nível anterior, Assault on the Control Room. Por questões narrativas que não vou aqui mencionar, este nível no remake é também substancialmente diferente. A sua base, mantém-se como no jogo original, mas é mais claro como sofreu uma transformação que impacta também a nossa navegação, tornando esta primeira aventura de Master Chief bem mais diversa. Ao longo do jogo existem muito mais diferenças em outras pequenas coisas, como maior diversificação de áreas, por vezes acrescentando mais elementos e caminhos, outras vezes até removendo e cortando excessos. Tudo é objetivamente novo, mas igualmente familiar.
A direção de arte sofre pela positiva com este remake, onde ao contrário da tendência da série em tornar tudo mais negro e sombrio, Halo: Campaign Evolved parece homenagear o melhor que a série já nos entregou, com cores vivas, silhuetas bem definidas e uma estética bem vincada e quase poligonal, com uma linguagem de design também próxima de jogos mais recentes, como Halo Infinite. Na minha opinião, o resultado é de um equilíbrio excelente, familiar e bem reminiscente das minhas aventuras ao comando de Master Chief. Os mais agarrados à saga poderão queixar-se do aspeto de um inimigo, ou de uma textura ou cor diferente, mas como sou mais um turista do que um purista, para mim tudo grita a Halo, tudo me pareceu extremamente fiel.
Onde Halo: Campaign Evolved parece beber mais dos jogos novos é na jogabilidade e na interface na primeira pessoa. A física é autêntica, mas afinada, com destaque para os veículos onde o Warthog responde mais às regras da gravidade, e no gunplay, sendo este mais próximo de Halo Infinite, onde podemos recorrer à mira de todas as nossas armas. A jogabilidade é pujante, e a mobilidade de Master Chief está no ponto, e tão semelhante à experiência original, que mesmo com tutoriais a aparecerem no ecrã, só na segunda missão é que me apercebi que agora o Chief pode correr. É uma ação que para muitos será sacrilégio, mas que se revela apenas como opcional, dado que Chief já tem uma velocidade de controlo bastante grande e a opção de correr não apresenta propriamente nenhuma vantagem durante os combates ou fugas.
Halo: Campaign Evolved é, por si só, uma fantástica revisitação do jogo original, que infelizmente para alguns (para mim não, que não ligo a estas coisas) não inclui um modo multijogador competitivo. Limitando-se ao multijogador cooperativo até quatro jogadores, para incentivar a repetição desta aventura. Porém, há muitos mais incentivos para voltar ao anel, nomeadamente com as skulls. Para quem não conhece, as skulls são colecionáveis e modificadores de jogo. Estes são desbloqueados ao jogar a campanha, explorando bem os níveis e apanhando todas manualmente. Neste jogo, são cerca de 40 espalhadas pelas 13 missões, incentivando assim à procura em todos os cantos, o que é sempre interessante e bem-vindo, especialmente quando jogado com amigos em co-op. Infelizmente, muitos dos efeitos dos modificadores escondem modos inteiros e até opções que se poderiam considerar de acessibilidade, dado que alteram as regras do jogo. Refiro-me a opções como um modo na terceira pessoa, munições infinitas, modos mais difíceis, entre outros, que até poderiam estar disponíveis no jogo através de menus. Em teoria nem parece ser um grande problema, mas na prática, após terminar a campanha, senti-me desfraldado, pois há modos que adorava experimentar e que só vou poder fazê-lo se repetir missões e souber exatamente onde estão as skulls. Uma missão que pretendo cumprir a seu tempo, mas com guias, dado que a localização de muitas skulls não corresponde a Halo: Combat Evolved Anniversary, e dado que, apesar dos meus esforços de exploração, só consegui encontrar apenas duas skulls na minha primeira viagem.

Os incentivos para jogar Halo continuam com o conteúdo extra deste remake, que inclui três missões completamente novas, produzidas exclusivamente para este pacote. Estas três missões funcionam quase como um DLC perdido nunca lançado, com nova história passada um ano antes dos eventos de Halo (e até de Halo: Reach), onde acompanhamos Master Chief e Sgt. Johnson num assalto a uma estação dos Covenant. Apesar de ser uma prequela, a Halo Studios propõe jogar esta porção de jogo após a campanha, e percebe-se porquê. Para além de ser conteúdo novo, onde a liberdade criativa é maior, as três missões incluem um arsenal de armas mais expandido e maior variedade de inimigos com novas fações, entre elementos que foram formalmente introduzidos na saga em restantes jogos. Assim, jogando as prequelas antes da campanha, pode tornar-se num choque, dado que algumas coisas seriam removidas – pelo menos para novos jogadores.
As missões são bem divertidas, adicionam mais variedade ao pacote (incluindo combate espacial), e até a história é interessante ao fortalecer o laço entre Chief e Johnson e ao aprofundar algum do lore da série, onde os Spartans são conhecidos por algumas fações humanas como uma “stunt de marketing” da UNSC. Narrativamente não é muito denso, nem vem acrescentar muito mais ao universo, mas tem substância suficiente para justificar este conteúdo, deixando-nos até a salivar por mais pequenos episódios destes. A minha grande crítica ao jogar este pedaço de jogo é que gostaria de o ter visto de alguma forma integrado na campanha principal do jogo, de forma mais seamless, pois no fim do dia permanece com aquele gosto a DLC premium.
Rejogar Halo em Halo: Campaign Evolved foi uma delícia e uma resposta a anos de imaginação de “como seria um remake moderno de Halo?”. Admito que podia ir mais longe, saindo da sua zona de conforto, com uma nova visão e potencial de reescrever a história de alguma forma, dado que os remakes de Halo 2 e Halo 3 parecem ser garantidos, a par com futuros capítulos principais. Ainda assim, a confiança e segurança de Halo: Campaign Evolved tem o seu lado positivo, pois por muito bem conseguido que seja, não chega a atingir o estatuto de versão definitiva arriscando-se sobrepõe-se à experiência original, apresentando-se como uma forma diferente e modernizada de consumir aquele que é e sempre será (mesmo estando agora disponível na plataforma rival) O Jogo mais importante de sempre da XBOX. Agora, só falta o resto da trilogia receber o mesmo tratamento.

Cópia para análise (versão PC e Xbox Series X) cedida pela Xbox.
