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Um divertido e (quase sempre) relaxante jogo de ritmo que procura dar corpo aos excessos, ansiedades e pressões do quotidiano.

Através de um simples e acessível jogo de ritmo, a Half Asleep procurou retratar as pressões e excessos do quotidiano. O stress desmedido do trabalho, a ansiedade perante o futuro, a multiplicidade de atividades que requerem alguma gestão de tempo e os estímulos constantes que prejudicam o nosso descanso. O nosso cérebro demora a desligar e a encontrar um ponto de equilíbrio, e com esse interregno, surgem as noites mal dormida, algumas até em branco com os nossos pensamentos a viajarem entre problema, estímulos e ansiedades do nosso dia-a-dia. Com Melatonin, temos um espelho para o nosso próprio descuido em relação ao descanso e aos nossos hábitos.

Ao longo de quatro noites e uma manhã, nós seguimos a rotina do nosso protagonista, um jovem adulto perdido entre os deveres da rotina e as distrações que o mantêm ligado ao mundo à sua volta. Se a primeira noite é marcada por sonhos mais inocentes, que se traduzem em atividades ligadas à comida e ao uso da tecnologia, Melatonin não demora a retratar os efeitos negativos da rotina. Os sonhos leves e absurdistas são substituídos por retratos mais desesperados sobre os efeitos da ansiedade – representada por escadas que nunca conseguimos subir até ao final, sempre a cair num eterno mar de lava – e temas como o aquecimento global e o nosso papel no bem estar do planeta. Uma mudança radical, mas realista que representa eficazmente a forma como os pensamentos intrusivos tomam conta da nossa mente. Primeiro pensamos sobre comprar algo que queremos, depois ponderamos se temos dinheiro para tal, seguido da análise do porquê de sentirmo-nos inseguros financeiramente até concluirmos que o planeta Terra irá explodir juntamente com o sol daqui a biliões de anos.

Melotonin adapta estes medos em níveis rápidos, onde o tempo e ritmo são soberanos. Seja qual for o desafio, esse estará sempre dependente do ritmo das músicas aliado às animações das personagens e cenários. As animações são um ponto de destaque e funcionam de forma semelhante a Rhythm Heaven, o que significa que Melatonin evita os ecrãs apetrechados de prompts, linhas e outras representações visuais das notas musicais. O que importa é seguir o ritmo das músicas e analisar as animações da personagem e dos cenários para compreender quando devemos carregar nos botões corretos. As animações não são complexas, mas fazem parte da dificuldade crescente da campanha e assumem esquemas mais intensos à medida que avançamos. Se é fácil compreender o ritmo dos primeiros níveis, onde ajudamos o nosso protagonista a comer donuts ou a escolher que itens descartáveis deve comprar nas lojas digitais, o mesmo não pode ser dito quando a ação procura retratar cenários mais abstratos como o medo do futuro e a forma como lidamos com os desejos consumistas do quotidiano.

A estrutura é eficaz e é interessante sentir a ligação entre a carga emocional dos sonhos com a dificuldade crescente. O formato dos níveis não é alterado entre noites, com as fases a seguirem um esquema semelhante para criarem uma consistência mecânica, acompanhados por ajudas visuais que servem de feedback para a nossa prestação. Temos apenas três botões – na PS5 são X, L1 e R1 – e o objetivo é acertar no tempo correto para conseguirmos a melhor pontuação possível. No total, temos três estrelas por níveis com a possibilidade de acalçarmos a classificação Perfeita. Para tal, temos de acertar em todas as notas e duplicar os nossos pontos. Em cinco notas perfeitas, a barra de pontuação muda para a cor azul e nós ficamos mais próximos da classificação máxima.

Melatonin apresenta três modos de jogo. Quando iniciamos um nível, somos aconselhados a terminar primeiro o modo de treino. Neste modo, o jogo explica-nos como devemos ler as animações, qual é o ritmo da música e a forma como podemos reconhecer os padrões do nível. Com o treino completo, que podemos escolher ignorar, podemos passar ao modo de pontuação. Este é o modo normal, onde somos classificados até três estrelas. Por fim, temos o modo Hard, onde a velocidade e o número de prompts aumentam exponencialmente para oferecer aos jogadores o desafio definitivo. Se aliarmos este acréscimo de ações a níveis onde a câmara se pode mover ou encontramos desafios únicos, como as pálpebras que se fecham, vemos como Melotonin trabalha a dificuldade sem nunca ser injusto ou pouco divertido.

Cada noite culmina num interessante remix dos quatro níveis anteriores, apenas acessível quando colecionamos as estrelas necessárias para avançarmos. O remix é uma interpretação eficaz dos vários níveis e permite que as animações sejam readaptadas a música com uma cadência diferente de notas que culminam num desafio mais intenso e recompensante. Esta ideia de remix é também aplicada ao último nível, à manhã do quinto dia, onde vemos a luz de um novo dia depois dos excessos, más decisões e pressões das noites anteriores. Um momento de reflexão que reutiliza todos os desafios passados para um final bastante catártico em Melatonin.

Infelizmente, as escolhas musicais não são a mais empolgantes, mas servem o seu propósito e acompanham o design minimalista da arte e os seus tons pastel – em variações de violeta, muito acalmante para os olhos – de Melatonin. A animação é o destaque, com desenhos feitos à mão e que injetam enorme vida nos desafios de cada nível. São os pormenores que importam, as cores utilizadas – o azul a representar a nota perfeita, o vermelho a indicar que falhámos uma nota ou que acertamos demasiado tarde – e a composição dos cenários que casam a representação surreal dos contextos com a necessidade de conciliar a leitura das animações com a jogabilidade. O design minimalista ajuda-nos a perceber o tema dos níveis, mas também o tempo e ritmo das músicas. Uma escolha eficaz.

Se sofrerem de falta de ritmo natural, como eu, Melatonin poderá ser doloroso. Apesar das ajudas visuais e das animações coreografas, o jogo requer que tenhamos capacidade de interiorizar o ritmo das músicas para seguirmos as ações que nos são exigidas. É fácil ficarmos perdidos, até mesmo com o modo de treino, e penso que foi isso que motivou a Half Asleep a apostar fortemente em opções de acessibilidade. Talvez sintam que estas opções desvirtuam a experiência de Melatonin, mas como vítima de falta de ritmo natural, a possibilidade de ter sempre presente prompts visuais foi uma dádiva e até me ajudou a apreciar melhor a animação e a coordenação entre a música e a sucessão de botões que nos são exigidas. Também podemos aumentar a pontuação das notas e a sua velocidade, duas ajudas importantes se não conseguirem acompanhar o ritmo dos níveis.

A melatonina é a hormona responsável pela regularização do sono, obrigando o corpo a repousar quando determina que está no ambiente correto para finalmente repousar. Para tal, precisamos de afastar-nos de possíveis fontes de luz e som, e procurar a temperatura correta para descansarmos confortavelmente. Melotonin, o jogo, é uma adaptação interessante destes componentes que compõem a experiência do sono, ainda que através da perspetiva de um protagonista que menospreza a sua rotina. A falta de descanso, a ansiedade constante, os ecrãs que condicionam o nosso cérebro e que não nos deixam simplesmente desligar estão aqui refletidos e gamificados. A Half Asleep conseguiu assim criar uma experiência minimalista e divertida que esconde temas que deviam deixar-nos a refletir sobre as nossas rotinas. Nem sempre é eficaz e as músicas não são memoráveis, mas a curta duração dos níveis motiva-nos a procurar as melhores pontuações. Faltava algo mais, talvez algum maior propósito às pontuações que conquistamos – divididas entre estrelas, anéis para a dificuldade Hard e P para Perfeição –, mas é um simpático jogo de ritmo que cumpre o seu propósito. Adorável e arrepiante.

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Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Popagenda.

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