- Publicidade -

Crítica – Marriage Story

-

- Publicidade -

Um realizador de teatro e a sua esposa atriz passam por um divórcio cansativo e longo que os leva aos seus extremos pessoais e criativos.

Não sei muito bem como começar esta crítica… Marriage Story é um daqueles filmes que fica comigo muito tempo depois de terminar. Pensei muito sobre o mesmo e é, sem dúvida, um dos dramas mais realistas que testemunhei até hoje. Tal é devido às performances dignas de todos os prémios por parte de Adam Driver (Charlie Barber) e Scarlett Johansson (Nicole Barber), mas também devido ao argumento incrivelmente complexo de Noah Baumbach. Além disso, Baumbach é também um dos melhores realizadores do ano. Com a ajuda do seu diretor de fotografia, Robbie Ryan, definem a plataforma para Driver e Johansson brilharem como os atores talentosos que são.

Algumas pessoas assistem a filmes para esquecer os seus problemas do dia-a-dia. Outras só se querem divertir. E também há aquelas que querem aprender mais sobre uma história verdadeira em particular. No entanto, não há uma única pessoa que deseje ver um filme e não ser capaz de deixar o cinema (ou, neste caso, o sofá) entretida.

Marriage Story tem uma premissa emocionalmente complicada e que é difícil de convencer as pessoas a sentarem-se e a assistir. Quem quer ver um divórcio a desenrolar-se por mais de duas horas? Quem quer ver duas pessoas que tinham um amor enorme uma pela outra a tornarem-se no pior de si mesmas? Gritar, discutir, tribunal, guarda do filho, advogados… Não chama exatamente a atenção.

Imagino pessoas que passaram pela mesma situação a sentirem-se horrivelmente mal ao lembrarem-se de uma fase das suas vidas que foi, provavelmente, uma das piores. Escrevo isto porque tenho observado alguma negatividade para com pessoas que simplesmente não querem ver a interpretação de Baumbach de um evento deprimente. É perfeitamente compreensível se alguém decide ignorar esta obra, especialmente se esta é demasiado ressoante a nível pessoal e familiar.

No meu caso, nunca passei por um divórcio (espero nunca passar) e geralmente consigo “desfrutar” (enfâse nas aspas) deste tipo de filmes mais tristes, frustrantes e com um sabor final agridoce (Manchester by the Sea, A Ghost Story) pelo o que eles são, não importa o quão trágicos.

Marriage Story

Se tivesse que escolher uma única palavra para elogiar: realista. Não há como dar a volta. As emoções palpáveis são a principal razão pela qual esta história funciona tão bem. Apenas pessoas que nunca estiveram numa relação amorosa de qualquer género não conseguem entender o momento em que uma discussão começa a “aquecer” e o casal disparata inevitavelmente comentários terríveis em relação um ao outro, apesar de não sentirem exatamente o que estão a dizer. O exagero e os argumentos over-the-top fazem parte da vida de todos os casais. Podem ocorrer devido a uma centena de razões relacionadas com stress, trabalho, acúmulo de pequenas coisas ou simplesmente porque não é um bom dia.

Marriage Story não entrega uma mensagem esperançosa ou uma história doce porque os divórcios não são nada disso. Não é difícil imaginar o quão complicado será uma separação com a pessoa pela qual temos/tivemos um amor durante décadas, ainda para mais quando há uma criança envolvida no processo. Baumbach poderia ter seguido os clichês do género e proporcionar momentos de pura felicidade, mas estes não acontecem durante uma situação como esta. É uma fase de partir o coração e acredito que esta obra de arte irá ser cuidadosamente analisada em cursos de cinema nos próximos anos.

A já famosa cena com Driver e Johansson a gerarem uma discussão exponencialmente mais horrível e mais pesada no que toca a ataques pessoais é um dos diálogos mais emocionalmente poderosos do milénio. A emoção crua e os movimentos físicos que ambos atores trazem para os seus argumentos são inacreditavelmente impressionantes. A sua química é tão inexplicavelmente real. Nunca, nem por um segundo, pensei que estava a ver personagens fictícias. Nicole e Charlie podem muito bem ser os nossos vizinhos ou parte da nossa família. O uso de takes longos por parte de Baumbach elevam (e de que maneira) cada sequência de Marriage Story, permitindo que os protagonistas se movam pelo espaço e realmente façam o seu trabalho enquanto atores.

Tecnicamente, este ano, não há melhores prestações do que as de Driver e Johansson. Ambos estão sempre em movimento e a fazer várias tarefas, ao mesmo tempo que entregam as suas falas. Fazer o jantar, beber chá, ir à casa-de-banho, cortar uma cenoura, assoar o nariz, levantar, sentar, andar pela sala, chorar, sorrir, rir… Tudo isto em apenas um take! Várias vezes!!

Scarlett mostra mais emoção durante o tempo de execução do que o seu colega, mas Adam demonstra que é o favorito ao Óscar de Melhor Ator de 2019 (desculpa, Joaquin Phoenix). A sua contenção quando Charlie está a tentar ser educado embora esteja chateado, ou o seu comportamento explosivo quando a sua personagem decide finalmente dizer tudo o que quer dizer (excelente build-up) são alguns dos atributos que fazem da sua performance a minha favorita do ano inteiro.

Não quero diminuir a prestação de Johansson! Ambos oferecem, na minha humilde opinião, as melhores prestações das respetivas carreiras. Ambos merecem todos os prémios que existem. O elenco secundário também é impecável e sei que Laura Dern (Nora Fanshaw) provavelmente irá ser nomeada. Ainda assim, os dois protagonistas são tão envolventes e cativantes que não consegui ficar impressionado com mais ninguém. A única pessoa a estar ao nível dos atores principais é o próprio Noah Baumbach. Com o melhor argumento de 2019 (desculpa Rian Johnson, Knives Out), Noah oferece ao público uma história incrivelmente complexa, repleta de detalhes subtis e diálogos excecionais.

Marriage Story

Controla o ritmo do filme lindamente e sabe os momentos certos para inserir uma pequena piada, de forma a acalmar o ambiente pesado e deprimente. O meu único problema com Marriage Story tem a ver com o seu valor de repetição. Todos nós já passamos por esta situação: assistir a um filme fantástico, apenas uma vez e nunca mais. Marriage Story vai ser um destes filmes para mim. Adoro tudo nesta obra de Baumbach, mas sei que as chances de voltar a ver são muito, muito pequenas. É uma história profundamente inquietante, super desconfortável em certas alturas e não quero passar pela tristeza e frustração novamente.

Concluindo, Noah Baumbach oferece o que eu acredito ser o melhor filme da sua filmografia, Marriage Story. Com o melhor argumento de 2019, bem como uma das melhores realizações, esta é a representação mais realista de um divórcio que o mundo irá ter.

Scarlett Johansson e Adam Driver também entregam as melhores performances das suas respetivas carreiras, elevando todas as cenas, diálogos, discussões ou piadas. Os takes extremamente longos permitem que estes brilhem e trabalhem realmente como atores, movendo-se em torno do espaço e fazendo várias tarefas domésticas ou de trabalho, enquanto expressam as suas falas.

Tecnicamente, tanto Baumbach como todo o elenco são absolutamente perfeitos. É uma narrativa incrivelmente emocional, muito deprimente, triste e até desconfortável às vezes, o que pode afugentar algumas pessoas, especialmente aquelas que já tenham passado por este evento infeliz. Apesar do seu valor de repetição ser afetado (uma re-visualização é muito improvável), é uma lição fenomenal de storytelling que permanece connosco por muito tempo depois de terminar. Facilmente, um dos melhores filmes de 2019. Não percam e tentem não chorar.

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Sigam-nos

10,237FãsGostar
4,047SeguidoresSeguir
507SeguidoresSeguir

Mais Recentes

Crítica – Bloodshot

Os poucos bons momentos de ação e um conceito cativante mal conseguem manter Bloodshot a respirar. É uma das piores obras do ano.

The Last of Us Part II é novamente adiado, desta vez por causa da COVID-19

Segundo a Naughty Dog, este adiamento será para garantir que todos possam tirar partido da experiência de jogo ao mesmo tempo.

Quarentine Film Festival desafia-nos a realizar uma curta-metragem através do smartphone

O Quarentine Film Festival surge de uma ideia do realizador Gonçalo Morais Leitão e visa estimular a criatividade de todos nós.

Lisbon Bar Show adiado para 2021

Estava previsto acontecer a 19 e 20 de maio, mas infelizmente não existem condições para a produção...

Análise – Control: The Foundation

The Foundation expande o mundo de Control com uma nova missão, novas áreas e habilidades, num pacote delicioso para os fãs que querem mais aventuras neste mundo e que procuram um desafio à altura das suas habilidades acumuladas durante o jogo original.
- Publicidade -