- Publicidade -

Crítica – “Joker”

-

- Publicidade -

Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) é um homem que enfrenta a crueldade e o desprezo da sociedade, juntamente com a indiferença de um sistema que lhe permite passar da vulnerabilidade para a depravação. Durante o dia é um palhaço e, à noite, luta para se tornar um artista de stand-up comedy…mas descobre que é ele próprio a piada. Sempre diferente de todos em seu redor, o seu riso incontrolável e inapropriado ganha ainda mais força quando tenta contê-lo, expondo-o a situações ridículas e, até, à violência. Preso numa existência cíclica que oscila entre o precipício da realidade e da loucura, uma má decisão acarreta uma reacção em cadeia de eventos crescentes e, por fim, mortais.

Obviamente, Joker é um dos filmes mais antecipados de 2019. Como não poderia ser? Para além de pertencer ao género de super-heróis, a DC está com uma sequência de muito bons filmes dentro do seu universo, logo uma película isolada deixa-me entusiasmado, especialmente quando é sobre um dos maiores vilões de sempre. É, de longe, um dos filmes menos “comic-book-y” do século.

Não segue a fórmula de uma história de origem genérica, evita quaisquer clichés associado ao género e é um tipo de filme cada vez mais raro hoje em dia. É um character-study (estudo de personagem) como não se via há muito tempo.

Vou simplesmente começar com a pessoa que eleva tudo isto: Joaquin Phoenix. Bem, se há algo que me recuso a fazer é comparar o seu desempenho com o de Heath Ledger. Este é o erro número um que muitos irão cometer para sempre. Em primeiro lugar, The Dark Knight e Joker não poderiam ser mais distintos, mesmo que pertençam ao mesmo género (apesar de Joker ser único, não deixa de ser sobre um famoso vilão de banda desenhada).

Depois, apesar de Phoenix e Ledger retratarem a mesma “versão” do palhaço (psicopata louco e sádico), o primeiro é 90% Arthur Fleck enquanto o último é 100% Joker, ao longo de cada filme respetivo. Finalmente, Phoenix é o único protagonista desta obra, enquanto Ledger teve o melhor Batman live-action a partilhar a luz do holofote.

Em conclusão, é injusto, e até pouco razoável, comparar ambas as interpretações, pois os seus papéis têm um impacto diferente na narrativa, assim como cada película, que são inteiramente diferentes.

Basicamente, ambos são impressionantes. No entanto, vamos mudar para Phoenix, visto que ele é a estrela deste espetáculo… Tem a melhor prestação de 2019, de longe!

Com uma forte campanha de marketing, não há grandes dúvidas de que consiga o Óscar. Espero que sim! É muito bem merecido. Todd Phillips e Scott Silver desenvolveram um argumento brilhante, mas Phoenix eleva-o a um nível extraordinário.

Senti-me estranho durante todo o tempo de execução. Perplexo. Até desconfortável com o que estava a assistir e, consequentemente, a sentir. É uma origem sombria, brutal, violenta e emocionalmente poderosa de um vilão com o qual senti-me perturbadamente empático.

Phoenix faz a história funcionar devido à sua exibição notavelmente cativante de alguém que é mentalmente doente. Arthur Fleck torna-se lentamente cada vez mais louco, algo que se deve graças à forma como a sociedade se comporta e não devido a uma piscina com químicos que muda a sua cor de pele e de cabelo (nada de errado com isso, mas sei qual a história de origem que prefiro).

“O mundo está a ficar mais louco” e torna-se extremamente doloroso lidar com isso, especialmente quando tanta coisa está a acontecer com a vida pessoal de Arthur e a maior parte ele nem sequer percebe porque tenta esconder tudo por detrás de um sorriso.

É um argumento repleto de twists narrativos que não só carrega um soco de surpresa, mas deixa o público a sentir-se extremamente infeliz. O último ato é um dos melhores dos últimos anos. Se o segundo ato é um enorme build-up, o último é uma recompensa fantástica. Não me consigo recordar do último filme onde adorei a 100% todas as decisões narrativas. Não faria nem um dos grandes momentos de forma diferente.

Existem muitas referências excelentes escondidas à vista de todos, algo que fãs das BDs (e da trilogia de Christopher Nolan) irão adorar tal como eu. No final, há um momento crucial em particular que serve como o clímax absoluto… Arrepios pelo corpo todo! Não podiam ter realizado esta cena de maneira mais perfeita.

Apenas tenho um pequeníssimo problema com algumas cenas que se tornam repetitivas, uma vez que nem movem o enredo para a frente nem oferecem nada de novo. Algumas ainda ajudam a aumentar os níveis de tensão, outras parecem que apenas… existem.

Nomeações para Melhor Filme e Melhor Ator parecem estar a caminho, mas não são as únicas categorias que merecem ser reconhecidas. A banda sonora original de Hildur Guðnadóttir é incrivelmente viciante, tanto que estou a ouvi-la enquanto escrevo esta crítica. Ajuda, sem dúvida alguma, a gerar um tremendo build-up, ao mesmo tempo que eleva o ambiente sinistro de Gotham City.

A cinematografia de Lawrence Sher é absolutamente deslumbrante. A underexposure (não entra muita luz na câmera, o que possibilita a criação de planos mais escuros) de algumas cenas é gloriosa. Sher pinta o ecrã com imensos planos lindos, especialmente com os seus close-up em Phoenix, onde este brilha.

Jeff Groth também é impecável no que toca à edição. Existem vários takes longos com Phoenix a dar o seu máximo e a deitar cá para fora todas as suas emoções (ou mantendo-as todas contidas), o que é sempre algo que eu aprecio bastante, uma vez que ajuda com o ritmo da narrativa.

Quanto à controvérsia do filme em torno das suas mensagens e do incentivo à violência, não sei realmente o que dizer. É ridículo.

Lembro-me daquela altura em que entrar no cinema era uma experiência surreal. O lugar número um para as pessoas se esquecerem das suas vidas, empregos, tudo. Joker é uma história de ficção! É a origem de um dos piores psicopatas da história das BDs e do cinema.

Se as pessoas esperavam deixar o cinema “felizes” e “alegres”, então, pelo menos, uma das mensagens do filme é acertada: a sociedade realmente está a ficar mais louca. Será que o mundo se esqueceu de quem é o Joker? O que se podia esperar da sua história de origem? Unicórnios e arco-íris?

Hoje em dia, ninguém se sabe comportar (as redes sociais são a principal fonte para espalhar o ódio). Ninguém respeita o outro cidadão ou mesmo o próprio mundo. Cada vez mais pessoas olham apenas para o seu próprio umbigo. Agendas políticas estão em toda a parte. Novos movimentos extremos são criados todos os anos.

A hipersensibilidade social está a crescer exponencialmente. Da mesma forma que algumas pessoas vão odiar este filme por não serem capazes (ou por simplesmente não quererem) de aceitar que sentem empatia para com um assassino, essas mesmas pessoas vivem como se as suas ações não refletissem sobre a vida de outra pessoa e no seu próprio planeta. Se as pessoas ficam implacavelmente violentas porque assistiram a Joker, como é que alguém pode reclamar que a mensagem do filme é má se é eventualmente uma verdade?

Concluindo, Joker é um dos melhores filmes do ano e encontra-se, sem dúvida, no meu Top 3 à data desta opinião.

Joaquin Phoenix oferece o meu desempenho masculino favorito de 2019, elevando um argumento sobre a origem de um dos vilões mais malvados de sempre. A maneira como gradualmente se torna mais louco é digna de estudo, mas é a forma como é capaz de fazer o público criar empatia para com um psicopata que me deixa perturbadoramente cativado.

Todd Phillips produz um character-study com um build-up extraordinariamente tenso e um dos finais mais recompensadores e arrepiantes dos últimos anos. Com cada decisão narrativa aplicada na perfeição, a banda sonora de Hildur Guðnadóttire e a cinematografia de Lawrence Sher destacam-se. A falta de restrição em mostrar a violência impiedosa (física e mental) que a sociedade inflige uns nos outros é o que nos faz sentir desconfortáveis. Porque, no fundo, sabemos que é, em grande parte, verdade. Apenas nos recusamos a aceitá-la.

Não é um filme sobre o Joker, a personagem. É um retrato extremamente realista de alguém (qualquer pessoa!) que se pode tornar em alguém como ele. E é perturbadoramente brilhante!

PS: Robert DeNiro (Murray Franklin) e Zazie Beetz (Sophie Dumond) também são excelentes. Mas a prestação de Phoenix é tão hipnotizante que quase me esqueci que havia outros atores no filme.

- Publicidade -

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Sigam-nos

10,237FãsGostar
4,048SeguidoresSeguir
505SeguidoresSeguir

Mais Recentes

Já podemos apoiar a Cruz Vermelha Portuguesa através do Revolut

A fintech britânica acaba de abrir a sua primeira campanha local de donativos com o objetivo de apoiar a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) a combater a COVID-19.

CTT fecham parceria com Uber para entregas em duas horas em várias cidades

Aveiro, Coimbra, Évora, cidades do Algarve e Funchal passam também a usufruir do serviço Expresso para Hoje, numa medida de maior conveniência de todos neste contexto de pandemia COViD-19 e de Estado de Emergência.

Análise – Kings of Lorn: The Fall of Ebris

Kings of Lorn é um jogo quebrado, pouco amistoso, divertido ou prazeroso de olhar, mas é, sem dúvidas, ambicioso.

Aventura e rally na oferta do PS Plus de abril

A Playstation revelou os jogos que os subscritores do PlayStation Plus vão poder resgatar durante o mês de abril.

Posso Ir. Esta app permite saber se os supermercados têm filas à porta

Tem sido um problema nestes dias, principalmente para aquelas pessoas que só conseguem ir às compras ao...
- Publicidade -