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Crítica – Knives Out

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O detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) investiga o assassinato de Harlan Thrombey (Christopher Plummer), um famoso escritor de romances policiais e patriarca de uma excêntrica e bastante combativa família, encontrado morto na sua propriedade logo após cumprir o 85º aniversário. Uma reinvenção moderna de um clássico e misterioso assassinato protagozinado por um elenco de primeira linha.

Knives Out tem sido apresentado em inúmeros festivais e recebeu imensos elogios em todos. Portanto, o seu hype cresceu e cresceu até à sua data de lançamento mundial. Antes do filme, não posso negar que me sentia realmente afetado por todo o “um whodunnit como não se via há anos”. Entrei no cinema com expetativas elevadas não só devido ao feedback dos festivais, mas também devido ao seu elenco de fazer cair o queixo.

É incomum possuir um cast tão aclamado como este e entregar um “mau” filme, especialmente quando Rian Johnson é tanto o realizador como o único argumentista (sim, gostei de The Last Jedi e mesmo que estivesse do lado negativo, ele tem outros filmes, sabiam?). É um daqueles filmes que todos sabem que vai ser apreciado por uma parte considerável do mundo.

Até o género em si é um tipo de entretenimento cinemático muito bem recebido em relação tanto aos críticos como ao público em geral. Então, faz justiça ao seu hype ou não consegue atingir as expetativas altas? Knives Out é um dos melhores filmes do ano, bem como uma das melhores histórias de mistério-suspense do milénio (anda na moda dizer “o melhor X da década”, vou um passo além). Este é um filme o qual sei que vou reassistir inúmeras vezes ao longo dos próximos anos.

Normalmente, quando se trata de whodunnits, as pessoas são algo manipuladas a pensar que, a partir do momento em que descobrem “quem fez o quê”, o filme perde o seu interesse. Isso raramente é verdade e Rian Johnson consegue ter sucesso, pois não precisa da revelação final para entregar uma história espetacular.

Knives Out

O argumento de Knives Out irá, sem dúvidas, receber toneladas de nomeações e vitórias durante a época de cerimónias que se aproxima. Todas as pequenas linhas de diálogo significam algo. Todas as personagens dizem ou fazem algo com impacto na narrativa (com exceção de Jaeden Martell). Já passaram mais de doze horas desde que o vi e, para cada pergunta que me surge, existe uma resposta “escondida” nas palavras ou ações de alguém. É um guião tão intrincado, complexo e extremamente subtil. Um com tantos pequenos detalhes que é impossível apanhar todos numa primeira visualização.

Adoro o primeiro ato, mesmo que seja aquele com o qual tenho um problema menor. Rian Johnson não perde tempo e coloca-nos diretamente na cena do crime, entrevistando praticamente todos os membros da família. É através destes interrogatórios que os suspeitos são inteligentemente introduzidos, sendo estes desenvolvidos simplesmente através de diálogo brilhantemente escrito e de performances excecionais.

Por exemplo, com uma única frase e uma expressão facial/corporal específica, Toni Collette cria instantaneamente um perfil de Joni, a sua personagem. Rian brinca com os tipos conhecidos de personagens e com os seus clichês de uma maneira muito esperta. Deixa-nos a pensar que uma personagem em particular segue um clichê em concreto, depois já não, mas depois volta a parecer…

Esta é uma das razões pelas quais não consegui descobrir o mistério até à revelação do último ato. Sempre que fiquei perto de seguir as pistas certas, surgem novos desenvolvimentos, destinados a enganar, confundir e a gerar dúvidas. Algumas pessoas sentem-se melhor consigo mesmas se resolverem o caso antes do filme. Sentem-se “inteletualmente superiores” só porque descobriram antes de todos os outros.

Primeiro, prefiro ser aldrabado e acabar surpreendido por uma conclusão inesperada do que resolver tudo muito antes de quando é suposto e acabar dececionado e aborrecido. E depois, honestamente, quem disser “eu já sabia”, há uma probabilidade de 99% de ou estão a mentir ou não responderam corretamente à pergunta “quem matou Harlan?” Se já viram o filme, entenderão o que eu estou a tentar expressar.

(Não quero, de todo, soar presunçoso ou hipócrita. Não estou a querer afirmar: “não consegui descobrir, logo ninguém consegue”. Por favor, se ainda não viram o filme, julguem o parágrafo anterior após a vossa visualização).

Ao longo do segundo e terceiro atos de Knives Out, as pontas soltas começam a deixar de o ser, terminando com uma revelação entregue de forma sublime. Desde a cinematografia maravilhosa (com aqueles close-ups clássicos quando uma personagem está prestes a dizer algo significativo ou a contar uma história através da sua imaginação ou memória) à edição notável, a equipa por trás de Rian Johnson faz um trabalho fenomenal. O suspense é mantido a níveis elevados e quebra limites com a narrativa de Marta Cabrera (Ana de Armas). Armas e Daniel Craig sobressaem com performances fantásticas, sendo que Chris Evans (Ransom) vem logo atrás. Literalmente, todos oferecem prestações extraordinárias e ajudam a carregar uma história cheia de mistério, mas também com muito humor.

Knives Out

No entanto, tenho que enfatizar o quão impressionantes Ana de Armas e Daniel Craig são. Ana pode ser um pouco desconhecida para a maioria das pessoas. Tenho-a apoiado desde Blade Runner 2049, por isso, estou em êxtase por ela finalmente conseguir um papel importante num grande filme, especialmente dentro de um conjunto de atores com carreiras lendárias. Craig, que poderia simplesmente ter entregue uma ligeira variação da personagem que tem carregado nos últimos anos, oferece uma interpretação única no papel de detetive. Tal como Evans, ambos têm vindo a desempenhar personagens icónicas durante anos, por isso, é uma espécie de “piada extra” para todos os que assistiram a Captain America e James Bond nesta última década e pouco.

O meu único problema menor não está em nada relacionado com o tom político e as mensagens sociais que Rian Johnson coloca em Knives Out. Honestamente, é mais um aspeto que adoro. É como se Rian soubesse que algumas pessoas iriam reclamar sobre estes temas, logo fez questão de ter um par de personagens (Jacob de Jaeden Martell e Meg de Katherine Langford) um pouco semelhantes aos chamados snowflakes e por aí adiante. Não, o meu problema está relacionado com alguma exposição excessiva durante os interrogatórios do primeiro ato.

É ótimo que cada personagem receba as suas próprias motivações, mas cada confronto com os detetives prolongou-se em demasia, não pelo tempo em si, mas pela informação que poderia ter sido omitida ou contada noutra altura. Algumas peças do mistério podem ser difíceis de encaixar no puzzle, isto é, complicadas de aceitar totalmente, mas isto já são apenas pequenos pormenores num filme notável.

No final, Rian Johnson é capaz de recuperar do divisivo The Last Jedi com um dos melhores whodunnits que alguma vez vi, Knives Out. Rian prova que não só é um cineasta talentoso, mas também um argumentista fenomenal. Com um elenco de primeira classe e absolutamente impressionante, Daniel Craig e Ana de Armas são destaques dentro de todas as outras performances fantásticas, assim como Chris Evans, que vem logo atrás. Com um dos melhores guiões do ano, o mistério no seu centro mantém-nos extremamente cativados até ao fim, mesmo que adivinhem “who did it” de antemão.

Diálogo magistralmente escrito, edição impecável e um uso excecional de técnicas clássicas de cinematografia. É uma história com elevado nível de entretenimento, com enorme valor de repetição e com camadas políticas/sociais que apenas elevam a narrativa complexa, mas subtil. Não percam Knives Out nos cinemas!

Nota:
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