Crítica – Malcolm & Marie

Malcolm & Marie é tecnicamente impressionante, com um John David Washington e principalmente uma Zendaya fenomenais, mas a história e as personagens complicadas empurram-me para o lado negativo deste filme divisivo.

crítica Malcolm & Marie
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Sinopse: “Sam Levinson junta-se a Zendaya e John David Washington para um cativante drama romântico em que um cineasta (Washington) e a namorada (Zendaya) regressam a casa após a antestreia de um filme que ele antecipa ser um sucesso junto da crítica e a nível financeiro. O serão acaba por sofrer uma reviravolta quando começam a surgir revelações sobre as suas relações, pondo à prova a força do seu amor.”

Na altura de escrita desta crítica, Malcolm & Marie já dividiu a meio a comunidade de críticos em todo o mundo, o que está longe de ser surpreendente, tendo em conta a sua premissa provocadora. Ser crítico de cinema não é exatamente uma tarefa fácil, especialmente quando se trata de lidar com a opinião pública. Na maioria dos casos, quando se atinge um alto nível de sucesso, este vem sempre com uma boa dose de tweets ofensivos e ataques pessoais, particularmente quando a opinião do autor contradiz a do público. Logo, desejava que Sam Levinson não contribuísse para as dezenas de conceitos errados em torno da crítica cinematográfica e centenas de teorias conspiratórias sobre jornalistas da respetiva área…

Infelizmente, os monólogos – palavra simpática para rants – extremamente exagerados, no limite do ofensivo, entregues por Malcolm (John David Washington) acabam apenas por ser somente mais achas para a fogueira já por si devastadora. O que começa como um comentário surpreendentemente racional e instigante sobre como (alguns) críticos tendem a transformar filmes em algo que estes não estão sequer a tentar ser – enfatizando uma mensagem política ou racial inexistente – rapidamente evolui para cenas caraterizadas por um comportamento infantil, imaturo e egocêntrico do protagonista masculino, que ataca cegamente críticas hipotéticas de, na sua opinião, críticos horríveis. Embora este seja um assunto de nicho para o público em geral, não deixa de ser uma contribuição negativa para um problema complicado que críticos de cinema um pouco por todo o mundo têm que enfrentar todos os dias.

Já cheguei ler o seguinte comentário mais do que um par de vezes: “Sam Levinson está a usar um ator negro para transmitir as frustrações de um realizador masculino branco sobre a imprensa desta indústria”. Na minha opinião, quem escreveu algo semelhante a isto está a cair no mesmo erro que Malcolm acusa agressivamente os críticos de cometerem: analisar em demasia e, mais uma vez, trazer a raça para uma discussão onde esta não pertence. Não importa se o argumento pertence a um Levinson frustrado que decidiu libertar os seus pensamentos sobre a crítica cinematográfica ou por outra pessoa completamente diferente. Em última análise, as personagens são um dos pilares principais de qualquer filme e, infelizmente, são o meu maior problema com toda a história.

crítica Malcolm & Marie

Apesar do prólogo acima que não consegui deixar de escrever, Malcolm & Marie concentra-se na relação tóxica dos dois protagonistas difíceis de gostar. Os adjetivos usados na última frase dificilmente são falsos. Malcolm e Marie passam quase todo o tempo de execução num ciclo cansativo, exaustivo e indutor de dores de cabeça de discussões incrivelmente exageradas, seguidas de uma reconciliação temporária através de uns beijos quentes durante alguns minutos antes da próxima grande batalha verbal. Mal terminei o filme, Marriage Story surgiu na minha mente e lembrei-me vivamente de chorar quando as personagens principais tiveram aquela discussão gigantesca. Por que é que me senti tão incomodado e desconfortável com Malcolm e Marie? Devido às personalidades.

Malcolm não é nada mais do que um cineasta arrogante, egocêntrico e autoindulgente que acredita ser o rei do mundo agora que criou um bom filme. Orgulho e arrogância estão separados por uma linha ténue, mas Malcolm incorpora a personalidade arrogante que não consegue sequer mostrar sinais de gratidão quando as críticas positivas aparecem – em vez disso, entra noutra rant sobre como o respetivo autor não entendeu o seu filme. Por outro lado, Marie (Zendaya) começa como uma jovem aparentemente simpática, trabalhadora e bastante adorável que teve o azar de calhar com o homem errado, funcionando como ponto de equilíbrio na sua relação. Cheguei inclusive a sentir pena de muitas coisas que lhe aconteceram na vida. No entanto, Marie rapidamente demonstra que está longe de ser uma namorada perfeita.

Apesar de ser muito mais tolerável e menos desagradável do que Malcolm, Marie carrega erros imperdoáveis do seu passado e mostra uma incapacidade de aceitar que Malcolm se possa ter inspirado noutras pessoas. Com constantes tentativas de vitimização e uma quantidade q.b. de ciúmes, Marie é o gatilho para a maioria dos argumentos que surgem do nada, sempre que os dois se reconciliam. Observando agora, esta é a razão pela qual me senti muito mais emocionalmente investido nos protagonistas de Marriage Story: preocupava-me profundamente com estas personagens e as suas vidas respetivas. Não só entendi o que os separou, mas também me revi em alguns pontos. Malcolm pode ter realizado um filme fantástico parcialmente baseado no seu relacionamento com Marie, mas este continua a ser um romance tóxico e prejudicial que ninguém deve ter que enfrentar.

Embora os problemas mencionados acima tenham realmente um peso bastante negativo, Malcolm & Marie ainda possui imensas qualidades dignas de profunda apreciação. Levinson até pode ter as mesmas opiniões de Malcolm sobre a comunidade da crítica atual, mas o seu talento enquanto realizador é inegável. O seu uso brilhante de takes longos tem um papel significativo no que toca ao aumento dos níveis de intensidade e atenção de cada diálogo e monólogo. A cinematografia de Marcell Rév – que trabalhou previamente com Levinson em Euphoria – é baseada em tracking shots que seguem as personagens através dos corredores e salas intermináveis da casa ou imagens estáticas para deixar os atores brilharem nas suas entregas de falas. Rév espera pelo momento certo para finalmente aproximar a câmara da personagem depois de extensos minutos ininterruptos de um trabalho impressionante por parte dos destaques absolutos do filme: os atores.

A prestação de John David Washington em Tenet não foi universalmente adorada e, apesar de ter gostado imenso da sua performance, não sabia que destino teria a sua carreira. Bom, o seu retrato de Malcolm pode ser um pouco exagerado demais para o gosto de alguns espectadores, mas apesar do meu desprezo pela personagem, só alguém com problemas de visão não valorizaria a interpretação excecional de Washington. Com uma representação surpreendentemente mais física do que esperava, Washington literalmente oferece todo o seu corpo e voz à sua personagem, sem esquecer uma única expressão facial ou movimento corporal. Por mais desconfortáveis que os seus discursos sobre a imprensa sejam, tenho que mostrar apreço pela capacidade do ator em realmente me fazer sentir assim.

No entanto, este é o espetáculo de Zendaya. Na verdade, não me surpreenderei com as inevitáveis nomeações que lhe chegarão. Para alguém que nunca assistiu a Euphoria ou só tem a sua atuação como MJ nos filmes de Spider-Man como exemplo, a sua interpretação de Marie certamente chocará muitos espetadores. Desde o incrível controlo de emoções subtis aos monólogos extremamente cativantes – algo que ambos os atores abordam soberbamente – Zendaya entrega a melhor prestação da sua carreira numa longa-metragem. Uma interpretação emocionalmente poderosa que não esquecerei tão cedo. Um elogio final à banda sonora de Labrinth, que desempenha um papel significativo na narrativa.

Malcolm & Marie é tecnicamente impressionante – cinematografia extraordinária e banda sonora impactante – e possui duas prestações fenomenais, mas o seu argumento e personagens complicados empurram-me para o lado negativo. Desde as rants exageradas, quase ofensivas sobre a crítica cinematográfica e os seus profissionais até ao ciclo cansativo e exaustivo de discussão-reconciliação, o talento inegável de Sam Levinson enquanto realizador é superiorizado pelos dois protagonistas incrivelmente desagradáveis que se prejudicam mutuamente numa relação inquestionavelmente tóxica.

Apesar do esforço de John David Washington e, especialmente, de Zendaya, que entrega a melhor interpretação da sua carreira, a sensação de desconforto e angústia nunca desaparece. Malcolm é um cineasta completamente intolerável e arrogante e, apesar de genuinamente sentir pena de Marie em certo ponto, esta eventualmente prova que está longe de ser uma pessoa melhor.

Visto que um dos seus tópicos centrais de discussão é demasiado de nicho para o público em geral, provavelmente encontrará o seu sucesso comercial na Netflix. Pessoalmente, é a minha primeira grande desilusão de 2021.

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