Crítica – Tenet

Christopher Nolan não é o “salvador do cinema” (ninguém será), mas entrega indisputavelmente o blockbuster que todos esperavam desde o início do ano.

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Sinopse: “Armado apenas com uma palavra – Tenet – e lutando pela sobrevivência do planeta, o protagonista (John David Washington) viaja pelo mundo penumbroso da espionagem internacional numa missão que irá desvendar algo além do tempo real.”

Christopher Nolan deu-nos alguns dos meus filmes favoritos do século. Desde Memento até ao mais recente Dunkirk, ainda não desgostei de nenhum dos seus filmes, logo as expetativas estão sempre altas com ele. A atual pandemia fechou cinemas por todo o mundo, mas felizmente, alguns países já reabriram, incluindo Portugal.

A minha sessão IMAX de Tenet foi a minha primeira viagem a um cinema desde fevereiro! Sendo eu um forte defensor da chamada “experiência cinemática”, iria sempre lembrar-me com carinho do dia em que voltei a um lugar que guardo bem perto do meu coração, independentemente da minha eventual opinião sobre o filme. No entanto, tornou-se um dia ainda mais especial logo após deixar aquele ecrã enorme para trás com um sorriso na cara.

Hoje em dia, todos reclamam de tudo, principalmente nas redes sociais. Como tal, não me surpreende que a tagline “salvador do cinema” tenha incomodado tantas almas. Se Nolan não tinha haters suficientes, certamente ganhou mais alguns depois desta campanha. Eu? Olho para isto como qualquer outro esquema de marketing: tem a intenção de elevar o hype do próprio filme, logo não entendo concretamente as razões pelas quais esta publicidade específica causou tanta polémica.

Obviamente, “salvador do cinema” não significa que Nolan vai salvar os cinemas de desaparecerem. É só uma espécie de slogan a tentar aumentar o entusiasmo pelo primeiro blockbuster em vários meses! É simplesmente outra estratégia de marketing para tentar convencer as pessoas a darem uma oportunidade a Tenet. Se existe um filme destinado a ser visto no maior ecrã possível, este é o tal.

Começo por “despachar” os (esperados e) incríveis atributos técnicos. Inception e Interstellar possuem visuais impressionantes com os quais é difícil de competir, mas Tenet está ao mesmo nível. Com sequências complexas, deslumbrantes e grandiosas, Nolan oferece um estilo de ação altamente excitante baseado num conceito temporal alucinante que fará todos os espetadores coçarem a cabeça. Perdi a conta ao número de vezes que tentei abrir ainda mais os olhos para poder ver (e entender) tudo o que estava a acontecer. A cinematografia de Hoyte van Hoytema é handheld durante muitas sequências de ação e Hoytema tem tanto controlo sobre a sua câmara que é capaz de capturar alguns dos momentos de ação mais impressionantes dos últimos anos, através de ângulos fantásticos e um grip firme.

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Nolan disse que Tenet seria “o filme mais difícil de montar” para qualquer editor. A edição de Jennifer Lame tem um papel vital nas sequências de inversão temporal. É relativamente fácil de imaginar o quão brutal o seu trabalho deve ter sido. É incrivelmente consistente durante todo o tempo de execução, apresentando cortes perfeitamente cronometrados que elevam até as cenas mais simples. Gostaria de poder ser mais específico, mas, para evitar spoilers, escrever apenas isto: tem um amontoado de nomeações a caminho, incluindo um Óscar. A banda sonora de Ludwig Göransson é tremendamente poderosa e aumenta, sem dúvida alguma, as magníficas set pieces de ação, especialmente no terceiro ato.

Por último, Nathan Crowley (responsável pela produção artística) cria um ambiente tão realista que quase me faz acreditar que isto poderia realmente ocorrer no mundo real. O CGI evoluiu bastante e é, indiscutivelmente, uma ferramenta que pode transformar por completo qualquer filme em algo fascinante quando usado corretamente. No entanto, efeitos práticos irão sempre oferecer uma sensação impossível de replicar através de imagens computadorizadas. É, provavelmente, o aspeto que mais aprecio neste filme: a sua aplicação em massa de efeitos práticos e stunts reais. Envolve a premissa desafiadora das mais básicas leis da física dentro de uma bolha realista e tal só é alcançado com pessoas talentosas nos departamentos técnicos certos.

Em termos de história… aqui já fica um bocado complicado. Tenho que ser honesto sobre a minha experiência: achei surpreendentemente fácil de se seguir e não tão complicado de se entender. Isto não significa que não seja uma narrativa complexa, desenvolvida em várias camadas, com ideias que serão incrivelmente difíceis de compreender para algumas pessoas. Não tentando ser condescendente, longe disso, mas alguns espetadores vão deixar o cinema sem entender completamente o que acabaram de ver, simplesmente porque é um filme de duas horas e meia repleto com exposição pesada sobre um conceito fictício de física quântica. Por exemplo, da mesma forma que algumas pessoas não conseguem ter uma perspetiva 3D, outras pessoas também terão dificuldades visuais em distinguir as sequências invertidas.

A necessidade de ser vago sobre detalhes do enredo não me deixa explicar muito, mas o conceito único que Nolan desenvolve em Tenet é, sem dúvida, uma ideia excecionalmente intrigante. Por mais louco que possa parecer, considero os visuais mais confusos do que as explicações científicas em si. Infelizmente, este é um dos meus principais problemas com o filme. Durante todo o tempo de execução, existe uma carga excessiva de exposição sobre estas noções do tempo. É uma enorme quantidade de informação para qualquer espetador ser capaz de lembrar os mais ínfimos detalhes. Pior ainda, algumas sequências de diálogos são tão incrivelmente forçadas que é quase como se o filme parasse para umas pausas curtas onde as personagens explicam algo diretamente para o público.

Este último ponto leva-me a outro problema. John David Washington vai melhorando com o passar do tempo, mas acaba por ser um simples mediador entre o filme e a audiência durante a primeira metade do filme. O seu diálogo baseia-se em demasia em fazer perguntas sobre o que está a acontecer e como funciona a inversão temporal, o que é obviamente compreensível dadas as circunstâncias da personagem, mas a execução destas conversas carece de espontaneidade. Dá mesmo a sensação de que alguém gritou “Ação!”, os atores interpretaram as suas falas e o mesmo alguém gritou “Corta!”. Washington não é exatamente um ator mundialmente super-conhecido (Ballers, BlackKklansman) e esta é sua primeira aparição num blockbuster, por isso, a sua inexperiência não o ajudou nestes momentos. No entanto, acaba por ser um bom protagonista (no pun intended).

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Robert Pattinson é charmoso e muito divertido, para ser sincero. Não consegui evitar as manchetes de algumas críticas que destacaram a “falta de humor” do filme, o que, sendo totalmente honesto, deixam-me surpreendidos, visto que este é muito mais engraçado do que o que pensei que (não) seria. A sua personagem tem um papel crucial em toda a história e é através dele que a maior parte do conhecimento sobre o conceito temporal em questão é desenvolvido.

Elisabeth Debicki é, provavelmente, a atriz debaixo do holofote principal. Com uma prestação notável, representa o arco emocional do filme e entrega uma das melhores interpretações da sua carreira. Temia que o enredo dela se transformasse num romance forçado, mas, felizmente, ajudou a construir os traços caraterísticos da personagem de Washington.

Por outro lado, Kenneth Branagh interpreta um vilão russo clichê com motivações genéricas, sendo demasiado formulaico para um filme tão inovador. Mas, em última análise, é isso mesmo que Nolan apresenta. Os seus métodos incrivelmente talentosos como realizador e a sua obsessão com detalhes enquanto argumentista fazem de Tenet um filme certamente com falhas, mas absolutamente fenomenal, com um conceito que é bem capaz de ser o mais difícil que já teve que filmar. Enquanto as pessoas conseguirem remover-se do mundo real e entrar num novo com mecanismos e regras totalmente diferentes, não tenho dúvidas de que será o tal “blockbuster do verão” que todos merecemos este ano.

Resumindo, Tenet possui, sem dúvida, uma narrativa incrivelmente complexa com um conceito temporal único demonstrado através de sequências de ação espetaculares, barulhentas, de fazer cair o queixo e muitíssimo práticas. Christopher Nolan é um realizador magnífico e um argumentista fascinante, mas tem que agradecer à sua equipa técnica por criar um blockbuster tão deslumbrante a nível visual. Do trabalho de câmara entusiasmante de Hoyte van Hoytema à edição perfeita de Jennifer Lame, passando pela banda sonora poderosa de Ludwig Göransson e pela bela produção artística de Nathan Crowley, Tenet é um dos filmes mais alucinantes dos últimos anos.

Com a ajuda de um elenco talentoso (especialmente Debicki e Pattinson), a história intrigante faz com que o tempo de execução épico pareça um pouco mais curto, apesar de algumas cenas serem desnecessárias e pouco relevantes. A exposição pesada e forçada ao longo de todo o filme transforma uma peca de grande entretenimento numa aula de física fictícia que confundirá milhares de espetadores. Também não ajuda ter um MacGuffin genérico e um vilão formulaico no centro de um filme tão pouco convencional.

No fim, Nolan não é o “salvador do cinema” (ninguém será), mas entrega indisputavelmente o blockbuster que todos esperavam desde o início do ano. Enquanto as pessoas forem capazes de aceitar e entrar no seu novo mundo, Tenet será recebido como um dos melhores filmes de 2020.

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