Crítica – Annabelle Comes Home

por Manuel São Bento

Determinados a evitar que Annabelle cause mais estragos, os demonologistas e investigadores de fenómenos paranormais, Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), decidem trancar a boneca possuída na sala de artefactos de sua casa, colocando-a “em segurança” dentro de uma vitrine sagrada benzida por um padre. Mas uma noite profana de horror está prestes a acontecer quando Annabelle desperta os espíritos malignos da sala e todos se voltam para um novo alvo – a filha de 10 anos dos Warren, Judy (McKenna Grace), e as suas amigas.

É o terceiro filme do fenómeno global Annabelle e o sétimo pertencente ao universo de The Conjuring.

Não esperava muito de Annabelle Comes Home, mas nunca me passou pela mente que iria assistir a um filme tão mau ou pior que The Nun. No entanto, o primeiro tenta o seu melhor para ser ainda pior. Odiei. Não consigo mentir. O género de horror tem crescido exponencialmente e é um dos dois géneros mais populares atualmente (filmes de superheróis são o outro), mas esta classe barata, vazia, clichê, previsível e esquecível de filmes de horror está genuinamente a tornar-se irritante e frustrante.

O universo de The Conjuring transformou-se num conjunto de spin-offs com entidades que não têm qualquer interesse e repleto de personagens extremamente subdesenvolvidas.

Este é o terceiro filme sobre Annabelle. Três filmes que abordam os poderes de uma maldita boneca. Três! Muito poucas pessoas gostaram do primeiro, a prequela foi reconhecidamente uma agradável surpresa, mas este é simplesmente atroz. Nem sequer existe uma história. O filme inteiro é baseado em repetir sequências de jump scares hilariantes. Literalmente, é tudo uma variação do seguinte:

Personagem percorre um corredor -> Barulho estranho ocorre -> Personagem segue lentamente esse barulho -> Banda sonora começa a aumentar de volume -> Personagem verifica algo e a câmara aproxima na cara do/a ator/atriz -> Banda sonora torna-se mais pesada e mais alta com a introdução dos graves -> Outro barulho ocorre por trás da personagem -> Câmara roda com a personagem e nada acontece -> Personagem continua a verificar algo -> Outro barulho, outra viragem, nada novamente -> Banda sonora está a atingir o seu clímax -> Personagem continua a fazer a mesma coisa -> Ruído final, câmara roda e um dos dois tipos de jump scares sucedem: BOO! ou Fake! … BOO! -> Estes são acompanhados por um som ridiculamente alto que todos no cinema já se preparam para porque, que surpresa, todos sabem o que vem aí -> Corta -> Repete.

Exceto durante os primeiros 15-20 minutos, que são usados para fornecer backstory para as três personagens principais, todas as cenas têm build-ups para jump scares desinspirados, pouco imaginativos, extremamente previsíveis e aborrecidos, demasiado dependentes de um som exageradamente alto e alguém a gritar. Não existe uma narrativa real para além de algumas histórias relativas ao passado das personagens que têm igualmente os seus próprios problemas, especialmente uma que envolve uma tentativa de começar um romance.

Gary Dauberman tentou inserir comédia, a fim de equilibrar um filme monótono, mas falhou miseravelmente. Cada momento supostamente engraçado é incrivelmente cringe-worthy. Foi a sua estreia enquanto realizador.. e tal demonstra-se.

Parece apenas mais um filme de horror barato, carregado de jump scares e mais nada. Um após o outro. Todos os realizadores de Hollywood poderiam ter coordenado este filme, já que não existe um estilo distinto ou uma imagem de marca registada. Nada. Acredito que cada filme tem imenso trabalho e há centenas de pessoas por detrás de um filme que realmente dão tudo ao mesmo. Mas Annabelle Comes Home parece imenso um puro cash grab e odeio escrever estas palavras porque todos os filmes, desde sempre, são, no fundo, uma tentativa de ganhar dinheiro para os estúdios.

No entanto, esta sequela nunca dá a entender que está realmente a servir qualquer propósito para a expansão ou melhoria do universo que representa. É um filme de horror filmado em apenas um local, algo que aprecio bastante, pois pode-se fazer imenso com este aspeto, mas, desta vez, parece que foi filmado inteiramente numa casa porque era mais barato, logo, mais probabilidade de lucro.

Há duas áreas bastante claras no género de horror: a zona com filmes como Hereditary, Get Out e Us, onde a história e as suas personagens são o que é mais importante e mais assustador; e a outra com filmes como The Nun, The Curse of La Llrona ou Annabelle Comes Home, onde o único objetivo é produzir ciclicamente sequências com jump scares sem significado ou impacto narrativo. Se apreciam este último tipo de filmes (o que é absolutamente normal, tudo é subjetivo e dependente de preferências pessoais), então provavelmente irão gostar deste filme.

No entanto, se estão cansados de assistir à mesma coisa uma e outra vez, para o vosso próprio bem, evitem-no.

Se não fossem as performances verdadeiramente incríveis, poderia muito facilmente ser o pior filme do ano (Serenity ainda segura esse lugar). McKenna Grace é fenomenal como Judy! Madison Iseman e Katie Sarife também são muito boas nos seus papéis. Patrick Wilson e Vera Farmiga mal têm tempo de ecrã, mas, quando aparecem, definitivamente elevam qualquer cena. Tudo isto relacionado com a produção artística acaba por ser muito bom, mas tecnicismos nunca salvam um filme da miséria se os dois pilares basilares (história e personagens) são atirados pelo esgoto.

Além disso, fiquei chocado ao descobrir que este é Rated R. Raramente se vê sangue ou qualquer coisa que justifique este tipo de classificação. É outro aspeto que torna este filme uma deceção ainda maior.

No final, Annabelle Comes Home é tão pobre ou pior que The Nun. Não consigo decidir qual assistiria se tivesse de escolher um, pois não quero ver nenhum nunca mais. Um elenco brilhante pode salvar este filme de uma crítica completamente negativa, mas não deixa de ser uma adição atrozmente barata ao género de horror. Todos sabem porque é que este filme não funciona: repetir continuamente sequências com jump scares previsíveis e de volume elevado não é uma história.

É impossível sentir-se investido em qualquer uma destas cenas se as mesmas não têm impacto narrativo ou um nível assustador minimamente … assustador. Até a falta do tremer instintivo de um jump scare (algo que não se consegue propriamente evitar quando se têm colunas espalhadas à nossa volta) é um sinal do quão horrível este filme é. Expetativas para The Conjuring 3 caíram tremendamente. Boa sorte, James Wan. Vai precisar.

Nota: 1.5 Estrelas

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