Crítica – “Nós” (Us) Jordan Peele é um génio e Lupita Nyong’o brilha

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Assombrada por um trauma inexplicável e mal resolvido do passado e agravado por uma série de coincidências assustadoras, Adelaide (Lupita Nyong’o) sente a sua paranóia passar para alerta máximo à medida que acredita cada vez mais que algo terrível vai acontecer à sua família. Depois de passar um dia tenso na praia com amigos, os Tylers (Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Cali Sheldon, Noelle Sheldon), Adelaide e a família regressam à casa de férias. Ao cair da noite, os Wilsons encontram quatro silhuetas de mãos dadas à porta de casa. Us põe em confronto uma família encantadora e um inimigo aterrorizador e sinistro: os seus próprios doppelgangers.

Jordan Peele, o realizador que nos entregou não só uma das maiores surpresas de 2017, mas também um dos melhores filmes desse ano, Get Out, volta com mais uma película do mesmo género. O homem que possui uma das melhores estreias de longa-metragem da história do cinema (e, quem sabe, talvez a melhor do género de horror), começa a tornar-se num realizador/argumentista bastante cobiçado e, agora com Us, não há dúvidas que o seu talento inegável vai oferecer-nos muitos mais filmes de nos deixar de queixo caído.

Para já, todos os fãs de horror agradecem, pois o género estava urgentemente a necessitar de um filmmaker que conseguisse trazer algo de novo e original (já chega de jump scares óbvios e personagens cliché). Apesar da sua primeira película ser mais consistente e melhor estruturada, Us é, para já, o melhor filme do ano, e deverá manter-se no topo da lista até ao final do mesmo.

Se um filme consegue deixar o seu público a pensar horas a fios sobre o que acabou de ver, não existem dúvidas da sua qualidade. É necessário algum tempo para absorver tudo o que se acabou de assistir, de forma a obter uma compreensão minimamente decente da história geral e do arco da personagem de Lupita, que nos deixa a coçar a cabeça no final. O argumento de Peele é provocante, misterioso e repleto de suspense, com um brilhante desenvolvimento de personagens e recheado de cenas de ação surpreendentemente bem executadas.

Aparentemente, Peele sabe filmar tudo de forma eficientemente. As cenas de perseguição são fascinantes e as lutas são impressionantemente sangrentas. Além disso, a maior parte da ação ocorre à noite, o que exige um realizador capaz de saber o que está a fazer, permitindo que o público possa acompanhar o que está a acontecer. Nunca, nem uma vez, se perde a noção durante uma sequência de ação. Sabe-se quem é quem, onde cada personagem está e o que estão a fazer. Hoje em dia, tendo em mente como os atuais blockbusters de ação são realizados, este é o melhor elogio que se pode dar a um realizador em relação este tipo de cenas.

Muitos artigos apelidam Jordan Peele de “o próximo Spielberg” ou “o novo Hitchcock“. Ele não é nem um, nem o outro. É o primeiro Jordan Peele! Os seus close-ups bem nos rostos dos atores (tornou-se marca da sua técnica) conseguem mostrar e contar tanto sobre uma personagem. Além disso, os atores têm uma oportunidade de ouro para mostrar o seu enorme alcance emocional, as suas expressões incríveis, o seu talento sem limites … Isto se forem alguém como Lupita Nyong’o. Não só Lupita merece uma nomeação para Óscar, mas também a vitória de Melhor Atriz. Apesar da história da Academia não ter por hábito galardoar filmes ou pessoas ligadas ao género de horror (tal como o famoso snub de Toni Colette, no ano passado), Lupita é capaz de quebrar essa barreira.

Daniel Kaluuya foi excelente em Get Out, mas Lupita ultrapassa o seu colega de Wakanda com duas (!) performances poderosamente cativantes. Como a mãe original, ela mostra bondade e afeto. Como a sua doppelganger, ela consegue ser assustadora, ameaçadora e malvada. Duas personagens completamente diferentes, com caraterísticas físicas e psicológicas distintas, não aparentam ser um problema para Lupita. Ela encarna-as de forma impecável e sem esforço, carregando a narrativa inteira nos seus ombros como se nada fosse. Merece todo o reconhecimento possível.

No entanto, ainda recebeu grande ajuda do restante elenco. Winston Duke (Gabe Wilson) é hilariante e é a fonte primária de comédia ao longo do filme. Com um notável equilíbrio de tons, Peele permite Duke brilhar num papel que lhe assenta que nem uma luva. Us pode tornar-se muito pesado e sombrio em certos momentos, logo umas boas gargalhadas (na altura certa e bem controladas) são sempre bem vindas. Os jovens atores também são ótimos, mas há que congratular o desempenho de Shahadi Wright Joseph como Zora Wilson. Não há dúvidas de que Shahadi será uma excecional atriz, se é que já não o é.

Tecnicamente, Peele é inegavelmente talentoso. Desde a sua capacidade incrível para filmar sequências de ação no escuro até ao seu argumento brilhantemente escrito, quase todos os aspetos do filme são perfeitos. A banda sonora acompanha maravilhosamente a narrativa com canções rítmicas e festivas quando tudo parece bem, contrariamente às vozes estranhas e angelicais que instantaneamente alteram o tom. A edição sem falhas ajuda algumas cenas de exposição, especialmente no final.

Embora se aceite que a história é complexa e, por sua vez, que se aceite igualmente a “explicação” final, Peele utiliza um monólogo demasiado rápido para a transmitir, o pode afetar negativamente a opinião de muitos membros da audiência que podem ou não perceber o que se explicou ou não conseguir captar tudo o que foi dito. Honestamente, total ambiguidade (nenhuma explicação) tornaria o filme muito mais interessante e iria ficar na mente de todo o seu público durante uns bons meses. No entanto, percebe-se a necessidade de uma explicação.

O outro pequeno problema com o filme é a família dos Tylers, representados principalmente pela sempre impressionante Elizabeth Moss (Kitty Tyler) e Tim Heidecker (Josh Tyler). Tendo em conta a sua importância para a história, poderiam ou ter sido melhor utilizados ou não deveriam sequer existir. É o meio termo entre estas duas opções que faz com que pareça que estes dois atores notáveis, especialmente Moss, foram deixados demasiado de parte. Acabam por ser, de facto, relevantes para elevar a história como um todo, mas poderiam ter sido explorados um pouco melhor. Infelizmente, o público irá provavelmente preferir Get Out pelas razões erradas, mesmo tendo Us mais traços do género de horror que o primeiro. Não só a história é mais fácil de acompanhar e entender, mas também possui um final definitivo.

Normalmente, a audiência não gosta muito de ficar a pensar sobre um filme depois deste terminar ou até durante o mesmo (como comprovam as saídas de algumas pessoas durante a sessão de antestreia em que a EchoBoomer esteve presente). Assim, filmes que tenham um final remotamente em aberto, não agradam à maioria do público geral. É o que acontece quando se espera erradamente um filme de horror barato, cheio de jump scares cliché e personagens ocas. Us não é um filme assustador. É um filme de horror e é fenomenal.

Jordan Peele é único. Não é como qualquer outro realizador/argumentista. Mais uma vez, oferece uma narrativa intrigante, profundamente complexa e recheada de suspense. Cativante e divertida do início ao fim, sem nenhum passo em falso durante toda a sua duração. Tecnicamente perfeito, com os seus emocionais close-ups de marca sobre os rostos das personagens a serem um destaque. Lupita Nyong’o entrega-se de corpo, mente e alma ao seu papel, entregando a(s) sua(s) melhor(es) performance(s) da carreira, o que deverá garantir-lhe não só várias nomeações, mas vitórias também. Elenco brilhante, tons bem equilibrados com comédia hilariante e com sequências de ação excitantemente assustadoras.

Us não tem uma única interpretação. Não há uma perspetiva certa ou errada, apenas diferentes pontos de vista. É um daqueles filmes que poderão assistir uma e outra vez, e cada visualização irá oferecer sempre algo de novo em relação à última. No entanto, o final parece indicar a verdade e há imensas evidências durante o filme que o comprovam. Apesar de alguns pequenos problemas, Us é, para já e sem dúvida alguma, o melhor filme de 2019. Agradeçam a Peele por não só nos entregar bons filmes de horror, mas por ser ele próprio. Vão ver!

Nota: 

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