Análise – Kill la Kill IF

por João Canelo

Foi no ano passado que analisámos Little Witch Academia: Chamber of Time, um RPG de ação que se propunha a adaptar a famosa série anime ao mundo dos videojogos através de uma nova história, mas mantendo o charme das personagens originais. Apesar do seu potencial, Chamber of Time falhou, na nossa opinião, redondamente. Um ano depois, chega-nos outra criação da Trigger, desta vez sob o formato de jogo de lutas. Mas será Kill la Kill IF uma boa adaptação? Não, não é.

Bom, talvez esteja a ser injusto, mas Kill la Kill IF é uma oportunidade perdida, onde o estilo e o tom da série original ficam perdidos no meio de um sistema de combate espalhafatoso, barulhento e mais confuso do que intuitivo ou funcional. Apesar de recontar a história do anime, dividida por várias personagens jogáveis, a qualidade dos momentos de história flutua entre a animação tradicional do estúdio Trigger e os gráficos de um título de baixa produção, com movimentos pesados, quase robóticos e sem vida. As intenções podem ter sido as melhores e, ainda que o resumo da história seja eficiente, a versão que nos é apresentada aqui é totalmente descartável e ausente de qualquer envolvimento emocional.

Mas porquê falar da história quando se trata de um jogo de lutas? Bom, eu perguntei-me o mesmo. Para minha surpresa, Kill la Kill IF quer mesmo que joguemos a sua campanha, ao ponto de bloquear qualquer um dos outros modos até completarmos o primeiro episódio do modo a solo. Como primeira impressão, a campanha falha em agarrar-nos, com gráficos confusos que, nos seus melhores momentos, conseguem dar-nos um simulacro da série original, e que, nos seus piores momentos, nos fazem duvidar se estamos mesmo perante uma adaptação da Trigger.

Esta falta de cuidado visual seria desculpável se a jogabilidade fosse intocável e infelizmente, não é esse o caso. Kill la Kill IF é funcional, os controlos respondem perfeitamente e não sentimos nenhum lag no tempo de resposta. A nível técnico, todas as peças estão no lugar certo e o jogo corre numa performance maioritariamente consistente. No entanto, o sistema de combate é uma das maiores confusões que já vi e joguei, demonstrando uma falta de foco inacreditável no que toca ao que quer fazer e como o quer fazer.

Apesar de nos dar um leque de comandos fáceis de decorar e de colocar em prática, focando-se em dois botões de ataque e num de quebra de defesa, o combate é confuso, caótico e irritante, retirando-nos constantemente da ação por não sabermos o que estamos a fazer. Senti, em alguns momentos da campanha, que bastava carregar em botões aleatoriamente para conseguir derrotar qualquer um dos meus adversários.

A esta sensação de caos junta-se uma enorme repetição nos golpes e nos ataques especiais, com os combates a seguirem um ritmo muito semelhante, onde atacamos ao longe, aproximamo-nos (ao estilo de Naruto Ultimate Ninja Storm, com um dash rápido), quebramos a defesa e usamos uma das quatro habilidades da personagem para realizarmos uma combinação longa. Kill la Kill IF pode estar mais interessado em dar-nos uma jogabilidade que seja perfeita para os fãs casuais de jogos de lutas, ao mesmo tempo que dá aos jogadores experientes um sistema que possam explorar e melhorar ao longo das várias partidas – mas se esse era o objetivo, então para a próxima não se esqueçam de adicionar a última parte.

Apesar da minha inabilidade com o género, vi-me a dizimar adversários offline e online sem quaisquer esforços, e dei por mim a desejar que o jogo fosse mais complexo, desafiante e divertido.

A animação dá aos combates um tom estranho e difícil de definir, com movimentos pouco fluídos e com um controlo algo pesado, onde as personagens parecem mover-se com pesos nas pernas. Os combates colocam-nos em arenas fechadas, ainda que mais amplas do que possam estar a prever, onde podem definir a distância entre vocês e o vosso inimigo, ainda que não existam barreiras ou outros obstáculos onde se possam esconder.

Kill la Kill IF é rápido e os combates podem acabar em menos de um minuto, e vejo-me agora a pensar se não teria feito mais sentido se fosse um jogo 2D, semelhante a Guilty Gear. E tendo em conta que estamos perante um título produzido pela Arc System Works, que nos trouxe também a série BlazBlue e Dragon Ball FighterZ, sinto que esta é uma oportunidade perdida.

Por fim, temos ainda a estrutura dos combates. Ao contrário do que previa, Kill la Kill IF funciona quase como um arena fighter, no sentido em que nos fecha numa arena com um ou mais inimigos em simultâneo. O jogo não segue o modelo tradicional do género e, ao longo da campanha, coloca-nos em combates onde teremos de lutar contra mais do que um adversário ao mesmo tempo.

E é aqui que o sistema de combate cai por terra, com o jogo a não conseguir acompanhar a ação. Não só não conseguimos definir qual o adversário que queremos atacar, sendo automático e de acordo com o inimigo mais próximo, como a chuva de ataques e habilidades especiais torna-se insuportável, deixando-me, mais do que uma vez, completamente assoberbado e sem saber o que estava fazer.

Mas o jogo vai ainda mais longe e coloca-nos ainda em arenas onde teremos de derrotar um número fixo de inimigos antes de passarmos à frente, o que significa que encontraremos mais de 10 lutadores em campo e em simultâneo. É uma dor de cabeça.

Kill la Kill IF oferece vários modos diferentes para além da já mencionada campanha. Após concluírem a primeira história, protagonizada por Satsuki Kiryuin, terão acesso a um modo de desafio, de treino e de arena, onde podem concluir vários níveis para conquistarem o melhor tempo. Estes desafios também vos dão moedas que podem ser utilizados na compra de itens cosméticos, o que será ideal para os fãs da série. Apesar da sua variedade, senti que falta algo ao jogo, talvez um modo aventura, como em Naruto Ultimate Ninja, onde podemos explorar o mundo da série e retirar partido do sistema de combate. Mas do que apresenta, os extras não são dos piores elementos do jogo.

Como seria de esperar, Kill la Kill IF inclui um modo online bastante tradicional com algumas opções tradicionais, como o já esperado Ranked Mode. Apesar de ter sido lançado há pouco tempo, já é difícil de encontrar jogadores online, mas consegui, ainda assim, participar em alguns combates e verificar que não existem grandes problemas nas partidas contra outros jogadores. Não consigo dizer com absoluta certeza que não existem problemas de conexão, mas no que toca à minha experiência com o jogo, não registei quaisquer problemas.

Kill la Kill IF é uma desilusão ao não conseguir dar-nos uma campanha competente e um sistema de combate verdadeiramente complexo e divertido. As animações parecem tentar captar a magia do estúdio Trigger, e não existem dúvidas que alguns planos e ângulos são engenhosos, relembrando o estilo da série, mas acabam também por demonstrar o quanto o jogo fica aquém do esperado. É um jogo de metades, de boas ideias e de más implementações que, apesar da sua variedade de modos e personagens, não consegue dar motivos fortes aos jogadores para que continuem a jogar. Tal como Little Witch Academia e Black Clover: Quartet Knights, é mais uma adaptação a evitar.

Este jogo foi cedido para análise pela PQube.

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