Análise – Little Witch Academia: Chamber of Time

Depois de uma geração extremamente complicada para os estúdios japoneses, onde géneros como os RPG perderam o domínio sobre o público e o mercado, as consolas atuais parecem ter criado um novo e inesperado ecossistema para um regresso em grande das produções nipónicas. Se, por um lado, temos Nier: Automata e Final Fantasy XV a recuperarem a posição no pódio, com o público a aplaudir os dois títulos produzidos pela Square-Enix, por outro temos jogos como Little Witch Academia que nos dão uma visão negra sobre o que poderia ter acontecido ao género RPG se a geração passada nunca tivesse acabado.

Baseado na série anime produzida pela Trigger, Little Witch Academia: Chamber of Time chega em exclusivo à PS4 com uma história que procura ligar os acontecimentos anteriores com uma nova história independente que coloca Akko, Lotte e Sucy no primeiro dia de férias de verão. Com as aulas a terminarem na Academia para bruxas, as três protagonistas deparam-se com um misterioso livro que, ao ser utilizado, lhes dá acesso à titular sala do tempo, prendendo-as num loop interminável. Para reporem a ordem, o grupo de amigas terá de explorar várias masmorras, resolver pedidos de colegas e encontrar o misterioso fantasma que lhes deu acesso ao livro que virou o tempo do avesso.

A história é muito simples, mas retém o estilo e humor da série original. Existe aqui um charme palpável que só é consistente devido às personagens e ao trabalho das atrizes originais, que recuperam aqui os seus papéis da série. A narrativa em si torna-se rapidamente aborrecida, especialmente devido à estrutura em loop da jogabilidade, onde somos obrigados a repetir constantemente o primeiro dia de férias em busca de novas atividades.

Little Witch Academia Chamber of Time 01 Echoboomer

Com o tempo a assumir uma posição de destaque tanto na história como na jogabilidade, começamos rapidamente a ver os problemas de Chamber of Time. A repetição das ações e missões é uma presença forte na campanha, com certas atividades a dependerem de uma hora específica do dia para serem concluídas. O jogo tenta criar uma sensação de micro-gestão ao longo da história, obrigando-nos a escolher entre continuar a explorar as masmorras ou a resolver os vários problemas secundários que vamos encontrando. Mas quando a narrativa é tão aborrecida e desinteressante como esta, é difícil de sentirmos qualquer tipo de emoção pelas missões secundárias ou pelas colegas de Akko, perdendo, assim, toda a sua carga emocional. Chamber of Time não é nenhum Persona.

Little Witch Academia Chamber of Time 03 Echoboomer

À primeira vista, esta adaptação de Little Witch Academia parece ser extremamente fiel. Os gráficos captam o desenho da série original e tentam recriar o ambiente descontraído e mágico que cativou tantos fãs por todo o mundo. O grande problema da passagem para o mundo dos videojogos está na animação pobre com que a adaptação se move, demonstrando um número risório de frames por movimento. A maioria dos diálogos são protagonizados por imagens estáticas ou com animações muito limitadas e longe das produções da Trigger, que apenas aparecem em momentos específicos da história, pelo que Little Witch Academia parece ser um mau jogo em flash. Para uma adaptação da Trigger, que é conhecida pela sua aposta na animação detalhada e fluída, pedia-se muito mais. E depois da história banal, a animação é o segundo aviso de que Chamber of Time não é um bom jogo.

O terceiro e último aviso surge imediatamente na jogabilidade. Como um RPG de ação, onde o nosso objetivo resume-se a explorar masmorras e a derrotar bosses, Chamber of Time falha ao dar-nos mecânicas básicas e uma jogabilidade pouco satisfatória. Existe uma tentativa de aproximação a um “dungeon crawler em versão light“, mas sem nunca conseguir atingir um ritmo competente entre a exploração e o combate. Não só as masmorras são aborrecidas como os inimigos não apresentam qualquer tipo de desafio, tornando a experiência de combate monótona.

Num mês em que tivemos o relançamento de Dragon’s Crown, é impossível não ficar estupefacto com a falta de cuidado desta má adaptação. Ao contrário do título da Vanillaware, que segue um modelo semelhante – ainda que mais assente na vertente brawler –, Chamber of Time peca no sistema de combate. Os golpes são fracos, não têm qualquer impacto e os ataques mágicos, que deviam ser a base de cada batalha, tornam-se desnecessários quando os inimigos são facilmente derrotados por ataques simples. Não podemos dizer que não houve aqui boas intenções, com a personalização da equipa a seguir os moldes do género – equipamentos que podem ser comprados ou descobertos durante a exploração –, e os ataques a tentarem dar alguma variedade aos combates, com várias habilidades que podem ser desbloqueadas à medida que atingimos novos níveis de experiência. O problema é que o jogo coloca-nos vezes e vezes sem conta em masmorras aborrecidas, repetitivas e cheias de inimigos fáceis de derrotar onde as habilidades não contam para nada. Ao fim de dois níveis, vão estar cansados e saturados, especialmente se a história não vos agarrar.

A jogabilidade não demonstra as suas falhas apenas no sistema de combate. O simples acto de andar ou de explorar a academia acaba por ser uma tortura, com a animação a lutar contra nós em todos os movimentos. É muito interessante ter modelos tão próximos do anime, mas, quando essa escolha estilística vai contra a jogabilidade e a condiciona, sentimos que deveria ter existido um meio-termo que simplesmente não está presente no jogo. Existe um delay entre as ações; por exemplo Akko ou anda muito devagar ou corre demasiado depressa, acabando por ser fácil ficar preso entre objetos do cenário. É uma constante irritação que nos leva a ponderar se as missões secundárias serão assim tão importantes.

O design da academia e o seu layout tornam a exploração igualmente confusa e pouco satisfatória. É difícil ter uma noção concreta do espaço à nossa volta sem necessitar de utilizar o mapa. Os cenários repetitivos agravam este problema e obrigam os jogadores a parar constantemente para tentarem perceber o seu posicionamento no mapa. É muito fácil desistir e relegar a atenção apenas para as masmorras, exceto nas ocasiões em que serão obrigados a deslocarem-se pela academia devido a um ponto narrativo ou para comprarem novos itens.

Little Witch Academia: Chamber of Time não é o pior RPG na PlayStation 4, mas é uma desilusão em todos os sentidos. Os gráficos perdem rapidamente o seu charme, a animação é deplorável, o combate aborrecido e a exploração mais irritante do que satisfatória – problemas graves que demonstram o quanto a base deste RPG de ação está pouco trabalhada. Talvez uma sequela resolva estes problemas e seja capaz de dar aos fãs do anime aquilo que procuram. Mas por outro lado, talvez não tenham assim tanta sorte.

Little Witch Academia: Chamber of Time
Nota: 5/10

O jogo (versão PS4) foi cedido para análise pela Bandai Namco.

Deixa uma resposta

Introduz o teu comentário!
Introduz o teu nome

Sigam-nos

12,079FansCurti
4,064SeguidoresSeguir
653SeguidoresSeguir

Relacionados

Análise – XIII Remake

Um regresso ao passado que desvirtua a memória do jogo original para um lucro rápido da produtora.

Análise – Just Dance 2021 (PS4)

Com as novas consolas aí à porta, Just Dance 2021 chega just in time, para meter a malta a suar sem sair de casa.

Análise – Gears Tactics

A série Gears troca o caos imersivo da guerra na terceira pessoa por batalhas táticas e cerebrais numa nova perspetiva. Mas mantém todos os outros ingredientes que a definem intactos.

A PlayStation 4 recebe suporte para transmissão de jogos da PlayStation 5

Se vão comprar a PlayStation 5, não se desfaçam já da PlayStation 4.
- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Recentes

Chamadas de valor acrescentado têm os dias contados

A proposta do PAN foi aprovada no Orçamento do Estado para 2021 e não teve votos contra.

Lewis Hamilton, Dua Lipa e outros transformam-se em jogadores virtuais no modo VOLTA de FIFA 21

O que quer dizer que irão defrontar e jogar com estas personalidades.

Crónica dos Bons Malandros. Série estreia na RTP a 2 de dezembro

Depois do livro e do filme, uma série de oito episódios. Marco Delgado, Maria João Bastos, Rui Unas, Joana Pais...