007 First Light Review: Licença para jogar

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Com 007 First Light, a IO Interactive revelou uma maturidade surpreendente na sua estreia com a saga, entregando um dos melhores jogos de ação e aventura do ano e também uma das melhores versões de Bond em qualquer meio.

Depois de revitalizar a saga Hitman, onde se revelou uma mestre de jogos de ação furtiva, cheios de estilo e de oportunidades criativas de infiltração em locais perigosos espalhados pelo mundo, o anúncio de que a equipa da IO Interactive estaria a trabalhar num jogo da saga 007, parecia demasiado bom para ser verdade. Um sentimento que perdurou com a apresentação oficial de 007 First Light, especialmente após uma demo dedicada ao espetáculo, com desempenho questionável, seguido de alguns adiamentos que provocaram algum nervosismo à comunidade. Felizmente, agora nas mãos dos jogadores, o regresso de James Bond aos videojogos não só elimina qualquer dúvida, como revela uma enorme maturidade da IO Interactive e se apresenta facilmente como um dos melhores jogos do ano.

Terminei 007 First Light com o melhor dos dois mundos do Martini do Bond: abalado e também mexido. À toa pelas emoções e adrenalina de toda a reta final do jogo e incapaz de pegar imediatamente noutro jogo, ficando sentado a pensar “quando é que chega uma sequela” desta história original.

007 First Light pode optar por cair no cliché da história de origem do herói e até sofrer um pouco a síndrome de “Surf Dracula” num ou noutro aspeto mais específico, mas fá-lo com confiança e de forma consciente, ao apresentar um James Bond jovem, nos primeiros momentos da sua carreira, que se envolve numa série de situações perigosas, levando-o a tornar-se no 007 e no espião que todos imaginamos com todas as suas características que o definem. É, por isso, um Bond bem diferente, mais inocente, mais impulsivo, por vezes ingénuo, que molda a sua perceção, identidade, carácter e até habilidades, ao longo de uma campanha de cerca de 15 horas cheias de ação e emoção, com uma história de reviravoltas, muitas referências aos filmes, alguns cameos de personalidades bem conhecidas e fasquias de ameaças sempre altas.

Para o papel principal, a IO Interactive foi buscar uma cara nova, Patrick Gibson, que faz um trabalho fantástico nesta versão, com potencial de se tornar numa nova mascote, para lá do universo Bond e das próximas aventuras que o estúdio dinamarquês possa vir a cozinhar daqui para a frente. Tal como Bond, também temos um restante elenco de personagens já conhecidas destas histórias, com versões também elas bem singulares, como M, Moneypenny e Q, quase sempre presentes nesta jornada com excelentes interpretações e desenvolvimento, assim como outras personagens novas, como o incrível John Greenway, o mentor de Bond, a misteriosa Isola, uma espia e Bond Girl, assim como um conjunto de vilões, que vão deixando cair as máscaras ao longo da história. Para uma aventura que passa maioritariamente o seu tempo na perspetiva de uma única personagem, Bond, 007 First Light faz um incrível trabalho no desenvolvimento de um vasto elenco, com amigos memoráveis e vilões over-the-top, deixando-nos interagir com cada elemento o tempo necessário para os conhecer e ver a florescer as suas relações, quase com a mesma profundidade de um RPG ou jogo de mundo aberto, onde essas oportunidades são, normalmente, maiores.

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007 First Light (IO Interactive)

Mas o seu formato é, também, uma das grandes virtudes do jogo. Com um foco narrativo e cinemático, 007 First Light é relativamente linear, na medida que temos capítulos e níveis sucessivos, com objetivos constantes de ir de ponto A a ponto B, que tornam as comparações a Hitman injustas para ambas as partes. Porque se o elemento de sandbox e exploração de áreas muito abertas de Hitman se perde um pouco, é em benefício dos objetivos deste novo jogo. Ainda assim, 007 First Light não se livra de uma jogabilidade e lógica de exploração criativa, apenas não é o seu principal foco.

Para contar uma história emocionante, 007 First Light é um jogo de momentos e fases bem distintos. Com níveis dedicados à leitura dos ambientes, obtendo informação para o jogo ou simples lore, outros que apresentam ou anteveem futuras mecânicas e oportunidades de jogo, e outros para interagir apenas com personagens. Há também momentos quase on-rails como a condução de veículos de forma pacífica ou em fugas. Já para contrastar isso, temos a exploração e navegação pelos ambientes com puzzles ambientais, em busca de caminhos e formas de desbloquear atalhos; cenários de missão, investigação e infiltração, normalmente em áreas mais abertas onde a ação furtiva ganha palco; e, claro, momentos de ação explosiva, onde temos “Licença Para Matar“. É um cocktail de situações, cenários e objetivos muito bem conseguido e equilibrado, com incríveis cinemáticas a acontecerem pelo meio, que colocam 007 First Light bem no topo dos jogos de ação e aventura narrativa, com um nível de qualidade e polimento que lhe dá um aspeto de jogo 1st Party.

E por falar em aspeto, 007 First Light é um jogo belíssimo, com uma excelente direção de arte, cheio de estilo e elegância, capaz de representar todos aqueles ambientes que imaginamos de uma aventura de James Bond, com um excelente grau de fidelidade e autenticidade. Ao longo desta aventura passamos por locais exóticos e envolventes, mercados de armas densos de personagens, clubes noturnos, ruas de Londres, mansões europeias, museus onde arte clássica e tecnologia de ponta se mistura, laboratórios e zonas industriais, que são o palco para todo o tipo de atividades mencionadas em cima. Desde adereços, à disposição, passando pela iluminação dos cenários e até à sua população com NPCs, cada nível não só parece realista e fotocópias de locais reais (mesmo que não sejam) como são também vivos e extremamente incentivantes de explorar e procurar caminhos secretos, ao ponto de por vezes afetar o ritmo da nossa viagem e o cumprimento das missões. Felizmente, 007 First Light não é um jogo de “missões secundárias”, mas sim de caminhos alternativos, dando-nos a oportunidade de rejogar esta aventura e em alguns momentos cumprir objetivos de forma bem diferente.

Mas removendo o estilo de jogo que é, ou aquilo em que se baseia, o que mais me agarrou a 007 First Light e aquilo que o torna tão intenso e divertido, é a sua jogabilidade durante o combate, naquele que é possivelmente o melhor sistema de combate e tiros mais divertido nos últimos anos. Para um jogo cuja natureza se poderia resolver na ação furtiva e na navegação pelas sombras sem ser apanhado, ou para um estúdio que se tornou mestre na entrega deste tipo de experiências, 007 First Light é uma nova referência no combate corpo a corpo e no uso de armas quando assim o obriga. O combate é rápido, é fluido, de leitura fácil para a execução de comandos, com animações fantásticas e contextuais ao ambiente, resultando em situações espetaculares e cinemáticas, com uma sensação de momentum igualmente fantástica à medida que vamos trocando de inimigo a abordar, ou pela forma como vamos trocando de armas, quase sempre com uma quantidade de munições muito limitada. A passagem de combate para combate também alimenta um pouco a adrenalina, cenário após cenário, deixando-nos a salivar por mais.

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007 First Light (IO Interactive)

O combate pelas sombras via ação furtiva é igualmente divertido, muito graças à interação com o ambiente, à ativação de armadilhas e ao recurso ao Q-Watch e às suas habilidades anexas. Bond conta com uma visão especial – uma espécie de visão detetive – que permite observar a posição dos inimigos e itens interativos, assim como a ativação de uma caneta com mísseis, dardos de atordoamento, choques, bombinhas de fumo, e outras opções que podem ser escolhidas em momentos específicos, com diferentes combinações. A ação furtiva serve como aperitivo à ação bombástica e é, por vezes, opcional. No entanto, a motivação de jogar de forma mais cerebral e criativa é divertida e gratificante, sobretudo quando passamos uma parte sem dar alarme.

Estes tipos de escolhas de abordagem, de caminhos e destes momentos de criatividade num jogo relativamente linear e “limitado” às circunstâncias narrativas, alimentam também uma forma muito divertida de jogar, com base no role-playing. Em 007 First Light, somos O James Bond, por isso, faz sentido jogarmos como James Bond. E foi com esse sentimento que viajei por esta aventura. Quando me era dada a oportunidade, o jogo deixou-me imaginar estar na pele do espião e de me questionar “como é que o Bond faria isto?” ou “como é que posso tornar esta situação numa cena digna de um filme“. E fosse qual fosse a resposta, o resultado foi sempre satisfatório. No fundo, 007 First Light é quase como um simulador de 007. Mas admito que até gostava de ver um pouco mais de consequências das nossas ações nos diálogos. O jogo conta com conversas onde temos várias opções para momentos de exposição ou de confronto com alguns NPCs, mas a ordem das opções, a escolha de todas ou de nenhuma, nada afetam a forma como navegamos pelo jogo e pela história. Ainda que não se trate de um RPG ou de uma narrativa ramificada, gostava de ter sentido novos caminhos a abrirem-se através desta mecânica.

No que diz respeito ao desempenho do jogo, pouco há a dizer da minha parte, uma vez que joguei na PlayStation 5 Pro, plataforma que dá a ideia que foi para onde 007 First Light foi desenvolvido em primeiro lugar. O jogo opera a 60 FPS, com resolução 4K reconstruida que na maioria do tempo parece nativa graças ao recente PSSR. A fluidez é constante e a qualidade de imagem é fantástica, muito graças à excelente direção do jogo, modelos de alta qualidade e fantástica iluminação tanto em jogo como em cinemáticas. Como dizia em cima, há uma certa qualidade rara de jogo 1st Party, que nas primeiras horas me deu aquela sensação de estar a jogar um “exclusivo PlayStation“, apesar de ser um jogo multiplataforma. No entanto, 007 First Light não se livra de alguma jank. Há um ou outro cenário que se nota que não teve o mesmo nível de dedicação, às vezes há texturas de qualidade duvidosa, há pop-in ocasional, o efeito de profundidade em cinemáticas as vezes quebra e fica distrativamente feio, e até mesmo a IA do jogo às vezes flutua com níveis de inteligência questionáveis. Para além disso, ao longo do meu tempo com o jogo, vi-me até forçado a reiniciar um checkpoint, porque cheguei a uma área onde os objetivos “desapareceram”. Mas tudo isto são apontamentos menores no grande esquema das coisas e que afetaram muito pouco a minha experiência, havendo ainda possibilidade de serem arranjados em futuros patches. E espero bem que sim, porque há muito para explorar no jogo após a campanha.

Depois da história, os TacSims ficam à nossa espera, um conjunto de missões, desafios e objetivos isolados, que permitem revisitar momentos específicos do jogo, com outros objetivos. É uma porção do jogo particularmente vasta, com uma quantidade de regras bem diferentes, que servem para explorar ainda mais as nossas capacidades enquanto Bond, sem a pressão narrativa e de avançar o plot. No fundo é o “modo Hitman” do jogo, que a própria IO Interactive já admitiu ir alimentando ao longo do tempo, como fez com World of Assassination. Algo que espero que o estúdio cumpra, porque preciso de treinar até que a próxima missão de 007 nos chegue às mãos.

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007 First Light (IO Interactive)

Não me apresentando como um fã hardcore de Bond e a verdade é que esperava apenas um bom jogo. Ainda assim, 007 First Light conseguiu ser mais do que isso, e mesmo que não tivesse a propriedade intelectual, revelar-se-ia um excelente jogo por mérito próprio e um dos meus favoritos do ano, mesmo depois das emoções de Saros, Resident Evil Requiem, Mixtape ou até de Forza Horizon 6. Com respeito merecido pela saga, misturado com a experiência do estúdio do género, a IO Interactive conseguiu não só apresentar uma versão refrescante de Bond, como uma digna do número, com uma experiência que rivaliza as versões cinemáticas, e que, tal como elas, deixa a sala com vontade de voltar para mais.

reviews 2021 recomendado

Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela IO Interactive.

David Fialho
David Fialho
Licenciado em Comunicação e Multimédia, considero-me um apaixonado por tecnologias e novas formas de entretenimento. Sou editor de tecnologia e entretenimento no Echo Boomer, com um foco especial na área dos videojogos.
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