Análise – Wolfenstein: Youngblood

por David Fialho

Enquanto os fãs anseiam pelo terceiro jogo da série, criada pela id Software e revitalizada pela Machinegames, acaba de chegar a todas as plataformas modernas Wolfenstein: Youngblood, um novo spin-off com uma aposta diferente na estrutura e ritmo dos jogos anteriores.

Apresentado como um jogo da série Wolfenstein com elementos cooperativos, Wolfenstein: Youngblood é, pela sua natureza, um enorme spoiler de Wolfenstein II: The New Colossus. 19 anos depois, o desaparecimento de B.J. Blazkowicz, o icónico herói da série, dá inicio às aventuras de Jess e Soph, numa jornada por Paris, agora controlada pelos Nazis, em busca do seu pai.

Wolfenstein nunca teve uma história muito profunda, apresentando a narrativa através de pequenos episódios e interações entre personagens com cinemáticas bem produzidas. Apesar desta falta de foco, a sua narrativa sempre foi muito bem integrada na construção do mundo, e Wolfenstein: Youngblood volta a apostar nesta filosofia e conta a sua história através do lore, do ambiente e dos colecionáveis que vamos apanhando. A diferença é que não explora tanto o lado mais cinemático do jogo para além da sua premissa e poucas cinemáticas ao longo da progressão.

Como não há esta vontade em dar-nos uma campanha mais cinemática, Wolfenstein: Youngblood revela-se automaticamente como um jogo muito diferente dos antecessores. Com foco no multijogador cooperativo, troca os níveis fechados e o avanço na história de forma mais linear por um jogo de exploração por zonas abertas, gestão de recursos, evolução de personagem e muitas missões secundárias.

Wolfenstein: Youngblood cai facilmente na comparação com jogos como Destiny, Anthem e Borderlands, não por se inspirar inteiramente nesses títulos, mas por pequenas mecânicas que integra e pelo sentimento de progressão forçado, que obriga a explorar e a revisitar locais através de missões nem sempre muito interessantes.

Na nossa jornada, vamos ter de visitar várias vezes as catacumbas de Paris, uma área subterrânea que serve de centro de operações, onde interagimos com vários NPCs que nos dão objetivos e missões. Exceto em alguns momentos que avançam a história de Youngblood, todas as interações são vazias e desprovidas de qualquer brilho que nos incentive a cumprir as missões dadas. São apenas pequenas trocas de palavras e histórias curtas que nos dão um objetivo e um nível recomendado para passar a dita missão de forma mais confortável.

Por muito detalhado e grande que esta zona seja, poucos são os motivos para a explorarmos em busca de itens ou para interagir com determinadas personagens, especialmente quando sabemos à partida que servirão para muito pouco. É um enorme passo para trás do excelente hub vivo e cheio de personagens carismáticas de The New Colossus.

É a partir das catacumbas que escolhemos para onde queremos ir. Paris está dividida por vários distritos e regiões onde se vão somando objetivos e missões que reajustam e recolocam inimigos em zonas de controlo e de conflito por onde, eventualmente, já teremos passado, garantindo que, através desses novos conflitos, podemos receber mais pontos de experiência e créditos para a evolução das nossas personagens.

Em Wolfenstein: Youngblood, a satisfação de combate é divisória. Por um lado, temos acesso a uma personagem com super-habilidades (algo que só acontecia em momentos específicos dos jogos anteriores) que nos permite usar super-saltos e camuflagem (para uma jogabilidade mais furtiva e tensa), deixando-nos com uma sensação de poder e de controlo que nos dá toda a motivação que precisamos para enfrentar os exércitos Nazis.

Com um leque de armas não muito diferente do passado, cada elemento do nosso arsenal tem características diferentes e os seus resultados são também variados, fazendo com que nenhuma arma seja redundante e que o jogador as troque sem grandes compromissos durante momentos de maior stress.

Por outro lado, Wolfenstein: Youngblood, pela sua estrutura e género, é mais tático e, por vezes, menos divertido. Os inimigos contam agora com barras de vida e níveis de proteção que escalam de acordo com a dificuldade das missões. Esta novidade torna os inimigos em autênticas esponjas de balas, onde a diferença de atirar numa perna, cabeça ou braço já não é tão grande.

Os inimigos também sofrem um pouco com a sua inteligência artificial, pelo que, independentemente da dificuldade escolhida, reagem de forma pobre às ações dos jogadores, exceto nas batalhas de bosses. Na maioria do jogo, assim que somos detetados ou se dá início a uma batalha, os soldados colocam-se sempre no nosso campo de visão e atacam-nos de frente. São carne para canhão, dispostos a levar com todas as nossas balas.

Apesar da grande variedade de áreas exploráveis e do design vertical, desenhado pela Arkane Studios (Dishonored), abrir possibilidades bem interessantes na forma como navegamos por Paris, todos os confrontos acabam por se repetir, uma vez que essas áreas nem sempre são exploradas da melhor forma para o combate. Os inimigos não se escondem, não parecem usar estratégias e surgem algumas vezes do nada, mesmo à nossa frente, de forma quase gratuita e imperdoável.

Ao longo do jogo, vamos encontrando moedas que podem ser usadas para comprar armaduras visuais, máscaras, boosts temporários para as nossas habilidades e modificações para as armas, um pouco à semelhança de The New Colossus.

É nestas modificações, juntamente com a experiência adquirida nos combates e que dão acesso a missões mais complexas e difíceis, onde se sente maior progressão do jogo, o que significa que, muitas vezes, vamos estar a fazer missões desinteressantes e redundantes só para colecionar material suficiente para avançar.

O jogo tenta justificar esta aposta no “Grind” com a presença do Co-Op. Wolfenstein: Youngblood permite que nos juntemos a um segundo jogador via online, amigo ou desconhecido, que pode entrar e sair do jogo para nos ajudar nas missões, podendo cada um avançar no jogo à sua maneira.

Assim, é possível pegar num amigo e partilhar as aventuras de Jess e Soph do início ao fim, ou podemos juntar-nos a um jogador online na sua missão só para colecionar recursos.

Jogar com companhia é tão fácil como deixar o jogo aberto a qualquer jogador ou convidar um amigo. É rápido, simples e quase invisível. É comum estar a jogar com a “porta aberta” e não dar conta que a segunda personagem já é controlada por um jogador, só nos apercebendo quando olhamos para o seu gametag ou reparamos no seu comportamento errático.

A experiência cooperativa, especialmente com amigos, pode ser bastante divertida, com alguns obstáculos a requererem ações dos dois jogadores e com momentos em que o auxílio de alguém real, com capacidade de análise da ação, faz a diferença. Infelizmente, é pena ver este modo limitado, em particular a nível de comunicação, sem text-chat ou um sistema de tag de ações. A comunicação limita-se ao sistema de Voip do jogo e à conversa por aplicações externas no PC ou de party chats nas consolas.

Wolfenstein: Youngblood tira partido da versão mais recente do id Tech, o motor de jogo criado pela id Software, que ajudou na construção de jogos passados da série e dos novos DOOM.

Visualmente, Wolfenstein: Youngblood é um deleite. Os belos visuais são conseguidos através da utilização de texturas, modelos de objetos e personagens realistas e complexas, que conjugam na perfeição com o sistema de iluminação e direção de arte do jogo. Todas as áreas do jogo parecem reais, densas em objetos e bem trabalhadas. As ruas de Paris são atmosféricas, contam com esplanadas abandonadas, ruas em ruinas e sinais de néon característicos das obras cyberpunk, enunciando que estamos nos anos 80, mas numa realidade alternativa. A propaganda Nazi está espalhada por todo o lado, assim como a máquina de guerra, composta por robôs, soldados e pontos de controlo intimidantes.

Com o jogo a correr particularmente bem num computador de características modestas (e, em breve, com a integração de RTX em placas gráficas da NVIDIA compatíveis), temos direito a efeitos de partículas densos e realistas, com faíscas e explosões a iluminarem tudo em redor, efeitos de fumo que impedem a visibilidade e uma sensação de fluidez muito bem conseguida.

Em cima de tudo isso, temos o som, que cimenta a experiência, com os sons atmosféricos, alarmes que soam alto, com a força de cada bala disparada e o eco reproduzido entre as ruas ou as catacumbas.

Apesar da história não ser o ponto forte do jogo, pelo menos as personagens principais, com as quais vamos passar mais tempo, são bem interessantes. Jesse e Soph foram criadas para matar Nazis e aqui dão uso às suas capacidades com recurso a super-fatos e a super-armas. A sua relação podia cair no cliché de dois opostos juntos por uma causa, mas tal não acontece. As irmãs têm personalidades distintas, mas são como unha e carne. É difícil imaginá-las separadas, com o jogo a fazer um excelente trabalho nas suas interações dentro e fora dos momentos jogáveis, com muitas piadas de humor negro e sádico ou um lado extremamente solidário e motivante entre ambas, elogiando-se entre si durante as missões.

Wolfenstein: Youngblood é um jogo arriscado e surpreendente para quem procura uma sequela ou mais aventuras dentro do mundo da série. Não é o jogo de tiros e aventura linear do passado, onde viajávamos entre corredores a disparar contra Nazis. Há, de facto, uma tentativa em tornar o jogo mais tático e aberto, mas é pena que tenha sido pela via dos RPGs de ação online contemporâneos, limitando a satisfação de jogo em vários níveis. Uma surpresa positiva para quem é adepto do género e quer investir muito tempo no jogo, mas também uma surpresa possivelmente amargurada para quem queria algo mais “clássico.”

Wolfenstein: Youngblood já está disponível para PC, PlayStation 4, Xbox One e Nintendo Switch, com a versão Deluxe a oferecer um passe para convidarem um amigo que não tenha o jogo, sem custos adicionais.

Este jogo (versão para PC) foi cedido para análise pela Ecoplay.

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