Ver ou não ver a série You? Uma questão controversa.

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Vou começar isto com uma confissão: eu vejo a série You. Aliás, eu vi a segunda temporada em dois ou três dias. Porquê? Porque não faço uma boa gestão do meu tempo. A vida é efémera e eu decidi alocar horas da minha existência a uma série que não levo a sério. E é aqui que os problemas começam. A série não é boa. Então, porque é que a vejo? Exatamente por isso, porque é má.

Joe (Penn Bagdley) não é carismático, não é inteligente, é presunçoso como o raio e é completamente alheio à realidade. E eu adoro! Eu nunca vi um serial killer ficcional (se é que ele já matou o suficiente para chegar a esta posição) a ser tão nabo e, mesmo assim, sair impune das situações. É tão óbvio que os escritores estão do lado dele que até dói! E quando eles inserem aqueles flashbacks manhosos da infância do Joe para simpatizarmos com ele, eu não aguento. O meu entusiasmo é tal perante o esforço descarado para ludibriar a audiência que, por vezes, começo a rir numa cena em que o pequeno Joe está a choramingar.

Contudo, Badgley é ótimo a fazer isto. Eu não sei o que ele acha da personagem, mas a maneira como ele a interpreta é fenomenal. Ele consegue pegar numa personagem que não é mais do que um Dexter wannabe e transformá-lo numa coisa relativamente cativante. Talvez seja porque consegue ser imparcial face à aselhice e tratá-la sem qualquer preconceito, o que acaba por dar alguma naturalidade à representação. E no fundo, é aqui que reside o charme do psicopata: na falta de talento e astúcia. O charme de Joe é a inexistência de charme.

Se Joe não matasse pessoas, ele era equivalente a um miúdo do secundário que se acha melhor do que os outros porque os gostos musicais dele são “superiores”. A maneira como critica toda a gente e se irrita com a vulgaridade dos gostos literários da ralé humana com a qual tem que coabitar reflete a maturidade dum puto de 15 anos parvo. Não é mais do que isto.

Mas o melhor é quando o Joe se “apaixona” por mulheres interessantes e diferentes do resto da carneirada. A maneira como descrevia Beck (Elizabeth Lail) da primeira temporada era uma loucura irrisória. A rapariga era tão desinteressante como um pedaço de cartão molhado, mas ele falava dela como se ela fosse a próxima Jane Austen.

Contudo, nesta segunda temporada, admito que houve uma melhoria na complexidade da personagem feminina. Embora Love (Victoria Pedretti) continue a ser tão irritante quanto Beck, é menos mosca morta. Tem um trabalho no qual a vemos a trabalhar, tem um irmãozito intolerável que lhe dá alguma substância emocional e, enfim, sempre é um progresso.

Claro que Joe é um tipo mentalmente instável que mata pessoas, por isso não é de admirar que fale dos outros de forma irreal. Contudo, qual é a desculpa do resto das personagens? À exceção de uma ou duas personagens, toda a gente é detestável dentro do universo da série.

Para ser honesta, os escritores podem deixar de lado os flashbacks de infância, a audiência não precisa disso para simpatizar com o Joe. Se eu tivesse que viver rodeada por aquele tipo de gente, se calhar também começava a ponderar o exercício de atividades extracurriculares.

Tendo tudo isto em conta, posso dizer que gosto da série You porque esta é maior que a soma das suas partes. Ou seja, ainda que todas as partes sejam medíocres, quando se junta tudo, o todo até é tolerável.

Todavia, eu nem tenho muitos argumentos para apoiar esta conclusão. Acho que é mais uma sensação que tenho do que propriamente o desfecho dum pensamento lógico. Vistas bem as coisas, a segunda temporada foi quase igual à primeira, a única mudança foi o uso de uma cidade diferente. Não houve uma evolução.

Talvez isso seja retificado na terceira temporada, mas espero que não. Se tornarem a série boa de repente vou ter que a deixar de ver.

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