A proposta não pede desculpa pelo estilo super irreverente: entre estética provocadora, néons, tons rosa quentes e figuras histriónicas espalhadas pelo espaço, o Santa Porca assume-se como um destino imersivo onde a carne de qualidade é a protagonista, mas onde a experiência cénica também conta, e muito.
Se há coisa de que o panorama gastronómico da Grande Lisboa não precisava era de mais uma steakhouse genérica, com paredes de tijolo burro, luzes fracas e tábuas de madeira engorduradas pelo uso. A equipa por trás do MadGod (o famoso restaurante temático de terror) e do Soyo Sushi sabe disso perfeitamente – e é precisamente por essa razão que estes empreendedores decidiram abrir o Santa Porca Steakhouse, no Forte da Casa.
Logo à entrada, o cenário é marcante, desarmante quase. Esqueçam a decoração tradicional: aqui joga-se com sombras, néons chamativos e apontamentos visuais arrojados que convidam de imediato a tirar o telemóvel do bolso. A estética junta um lado noturno e sedutor a uma atitude descomplicada, onde o humor e a provocação são parte integrante da marca.
A grande surpresa visual do Santa Porca materializa-se na própria mesa, pois a maioria das peças mais estrambóticas – como sapatos de salto alto iridescentes, corpetes de dançarina ou uma bocarra de porco – são peças decorativas que mexem com os sentidos. Funcionam como centros de mesa, anlguns casos, nas tábuas de carne, e aplicam uma ideia engraçada que é libertarem uma densa e mística nuvem de fumo, a partir de gelo seco.
Mas a originalidade do serviço do Santa Porca não se fica por aqui: algumas destas peças são também o ponto fulcral da encenação dos cocktails. Na carta de bar, alguns cocktails levam este conceito à letra, como o famoso Badalhoca, servido numa autêntica mini banheira vintage com pés e coberto por uma espuma que remete para um divertido banho de imersão.
Entretanto, bebidas mais clássicas ou refrescantes, como a excelente e bem doce Limonada de maracujá, chegam num copo de vidro grande e tradicional.
Um dos aspetos já conhecidos do público, mas que permanece uma novidade e um desafio para muita gente, é o facto de a experiência da escolha e pedido no Santa Porca ser totalmente autónoma do ponto de vista digital. Ao ler o QR Code da mesa, o cliente entra no menu. Aí encontra três botões principais: menu, conta e chamar empregado. Ao entrar no menu, basta navegar pelas opções e clicar, consoante o que quer pedir, no botão +, tal como em qualquer compra online.
No caso das tábuas, a aplicação revela uma mecânica muito bem estruturada: ao selecionar a tábua pretendida, surgem sequencialmente vários níveis de escolha para os acompanhamentos. Cada nível apresenta 10 opções distintas, para se escolher uma, o que significa que numa tábua para duas pessoas é possível escolher um total de 5 acompanhamentos, enquanto numa tábua para quatro pessoas a seleção duplica para 10 acompanhamentos.
O processo é fluido, mas obriga a atenção antes do envio final para a cozinha. Ainda assim, para esclarecer dúvidas ou pedir recomendações, a aplicação dispõe do tal botãozinho Chamar Empregado, que dá imenso jeito, evidentemente, já que a equipa de sala está sempre atenta e pronta a intervir.
Para dar início à refeição na secção dos Preliminares, a aposta em petiscos reconfortantes cumpre na perfeição o papel de abrir o apetite. O couvert completo traz pão fresco com azeite e balsâmico, azeitonas temperadas e três tipos de manteigas aromatizadas.
Optámos por um Pica Aqui, Pica Ali, para entrada: carne de novilho tenra e bem temperada num molho apurado que pede para molhar o pão do início ao fim.
Mas, para nós, o destaque vai para as PIG Balls, bolinhas crocantes recheadas com carne de porco desfiada lentamente cozinhada, servidas com molho de trufa sobre um prato temático em formato de laço rosa, fazendo o acompanhamento perfeito com o contraste entre o aconchego de um copo de vinho tinto encorpado e a doçura fresca da limonada de maracujá.
Para o momento alto da refeição, abordámos o menu de tábuas com atenção, mas, para podermos testar diferentes carnes e cortes, optámos por doses individuais.
Neste caso, com um pedido de Picanha, a aplicação segue uma lógica de personalização dividida em três níveis: no Nível 1 define-se o ponto exato da carne – do mal passado ao bem passado -, enquanto os Níveis 2 e 3 permitem escolher dois acompanhamentos incluídos, selecionados a partir de uma lista de dez opções disponíveis: Ovos c/ Farinheira, Batatas Fritas, Arroz, Feijão Preto, Puré de Tutano, Açorda, Salada, Migas, Vinagrete e Arroz de Feijão.
Quanto à chegada do prato principal, o destaque vai sem dúvida para as fatias de Picanha, que chegam à mesa com a capa de gordura no ponto. Vinda das melhores pastagens argentinas, estamos perante uma picanha bem marmoreada, suculenta e a dominar a tábua, acompanhada por opções reconfortantes como as batatas fritas estaladiças, com orégãos, o feijão preto (que podia estar um bocadinho mais denso), a açorda cremosa com gema de ovo crua (para misturar no momento), e o indispensável ananás grelhado, ótimo para equilibrar os sabores. Tudo isto chega servido numa generosa tábua de madeira encimada por uma bota decorativa feminina de salto alto, a fumegar.
Lado a lado com esta bela suculência, juntam-se os cortes, perfeitamente selados na brasa e bastante suculentos, de um saboroso Ribeye, mantendo os sumos da carne intactos.
O encerramento faz jus ao nome da secção no menu digital, mantendo a aposta visual. O Bolo de Salame é um exemplo, e um clássico; apresenta-se numa fatia densa, por acaso, com demasiado sabor a bolacha. O facto de ser polvilhado com pistácio e coroado com um morango fresco, numa envolvente nuvem de gelo seco (a nosso pedido) confere-lhe um toque fresco.
Por sua vez, o Cheesecake Pistácio surge como uma sobremesa cremosa servida em taça sobre uma base crocante, uma espessa camada de creme e, ainda, uma fina cobertura aveludada de creme de pistácio, decorada com uma generosa porção desse fruto seco picado.
Em conversa com André Teixeira, responsável pelo espaço – e que também dá uma preciosa ajuda na cozinha -, o balanço destes primeiros dois meses e meio de portas abertas não podia ser mais positivo. A trabalhar todos os dias, a casa tem registado uma enorme afluência, com enchentes sobretudo ao jantar, destacando o responsável que a carne de vaca é indiscutivelmente a preferida do público que os visita.
Localizado numa zona entre Alverca e Vila Franca de Xira que tem ganho cada vez mais vida na restauração, o Santa Porca traz algo que faltava na periferia de Lisboa: um conceito de gastronomia carnívora com nível de qualidade confortável (as quantidades são extra generosas), ambiente adulto permeável à família e a encontros descontraídos e informais e com forte ADN de entretenimento.
Se procuram um jantar discreto e tradicional, este não é o vosso lugar, mas se querem boa carne na brasa, apresentações cénicas arrojadas e um ambiente que recusa o óbvio, o Santa Porca é uma paragem obrigatória. Afinal de contas, pecar nunca foi tão fácil.
