NOS Primavera Sound – Dia 3: O terramoto Rosalía e Jorge Ben Jor a dar cartas

por Bruno Rocha Ferreira

É dia de aproveitar o recinto do NOS Primavera Sound desde cedo, e pelas 17h já se ouve O Terno, projeto liderado por Tim Bernardes, o paulista que depressa se transformou num clássico instantâneo por estas bandas. Aquele visual Crosby, Stills and Nash esconde muita segurança e classe. Vamos voltar a ver-nos por aí.

Lena d’Água tem sido um caso feliz de reencontro com o público após vários de penumbra. É bonito e o recém publicado Desalmadamente prova que há ali vitalidade artística, e não apenas nostalgia. Lena está visivelmente feliz por estar ali e o palco Super Bock dá um bom enquadramento, numa espetáculo que mistura clássicos do seminal Perto de Ti, como o animado e muito 1982, “Nuclear, Não Obrigado”, com temas novos. Já os Primeira Dama mostram que ainda têm muita estrada para andar.

Os Viagra Boys são um dos casos de programação mais bizarros do NOS Primavera Sound deste ano e, pelas 18h, já Sebastian Murphy nos está a cumprimentar com um “Olá, Barcelona”. Há de tudo nesta confusão, pensamentos sobre o orgulhosa que deve estar a mãe, saxofone estridente e um vocalista deitado com apenas as solas dos ténis a verem-se. E há “Sports”, claro. Quem estiver à procura de profundidade pode continuar a andar, mas acaba por ser entretido e funcionar num patamar de divertimento.

Contraste radical para Lucy Dacus, que nos oferece mais um belo concerto para estar deitadinho na relva. Está contente com o aquilo que chama o best festival set ever, e o público responde alegremente, em contraste com a temática sombria de músicas com o belo “Pillar of Truth”. Dacus não tem o ar de ser a pessoa mais feliz do mundo e a sua voz melancólica acaba por encaixar bem. Até se perdoa a curiosidade de um “La Vie en Rose” esforçado, mas questionável, e aquele habito estranho de pedir desculpa por ser de onde é.

Jorge Ben Jor foi um ás tirado da manga da organização do Porto para equilibrar o barco, e foi aposta ganha. A idade passa pouco por Ben Jor, firme na sua posição no palco mas a destilar uma força tranquila. A banda que o acompanha é uma máquina bem oleada e o piano excecional.

A genuína fuga ao domínio anglo-saxónico tem de passar por aqui. Celebra-se a audição dos multi-copiados “Mas que Nada” e “País Tropical” pela voz do criador, mas é em momentos como “A Banda do Zé Pretinho”, “A Minha Menina” ou o extraordinário “Bebete Vãobora” que Ben Jor melhor mostra as suas qualidades. Onde noutros lados há dúvida, há aqui fé. Amanhã há um lindo dia para nascer.

Os Guided By Voices foram o maior caso de injustiça a que assistimos nesta edição do NOS Primavera Sound. O Seat é um palco cruel, e a menos de meia casa, com generosidade, dá um ar desolador à sua estreia em Portugal, e último show da tournée antes de voltarem a Dayton. Ao contrário de muitas bandas de indie rock que já marcaram aqui presença nos últimos anos, Robert Pollard e amigos e dão um concerto energético e interessado em contactar com o público, e teimam em não desanimar. “You Own the Night” e “Dead Liquor Store”, entre outras, provam que um concerto em sala seria uma coisa bonita de acontecer.

Em seguida dirigimo-nos para a expetativa maior da noite, talvez do festival: Rosalía. E poucos minutos bastam para perceber que sim, é tudo verdade. Temos estrela do maior quilate. Carisma, voz, força, num espetáculo simples (sem ser simplista), que mostra gosto e cuidado na transposição de El Mal Querer que, vamos recordar, tem menos de um ano.

Rosalía, vestida de igual às suas dançarinas, por vezes confunde-se com elas, noutras fica sozinha em palco. Até desaparece para os bastidores quando passa um vídeo onde ela olha para nós, simplesmente. Tem pés firmes na tradição do flamenco e na inovação e é um verdadeiro furacão vocal, como se vê em “Malamente”. A sonoridade de El Guincho vai aparecendo de quando em quando, a sua produção ajuda naquele conjunto feliz. Há ali tudo para ser uma figura de primeiro plano mundial, assim queira. A única pena é ter aparecido tanta coisa em inglês, onde a intensidade baixa. Fabuloso.

Depois desta pancada, Low parece uma boa proposta para acalmar na chegada à reta da meta do festival, mas a sobreposição dos palcos não nos deixa. Kate Tempest está lá do outro lado à beira da entrada, mas as suas notas chegam longe e o Super Bock é bombardeado. Há humor e Sparhawk até diz que a inglesa está a cantar a sua música preferida, mas é um mau contexto para aquelas sonoridades.

Ficamos com saudades do Auditori, em Barcelona, e com pena que a experiência da Casa da Música, na edição inaugural do Porto em 2012, não se tenha repetido. Faz muita falta e esperamos que os corajosos que ficaram nas primeiras filas tenham acabado por ser recompensados.

Tarefa dura, pois pouco depois Neneh Cherry começa o seu concerto na clareira ao lado. Não dá para perceber este atropelamento, mas a recordação dos anos trip hop começa a vir ao de cima no à frente do seu tempo “Manchild”. A voz é belíssima e a forma ótima.

Passa-se à beira de Modeselektor, o pessoal corre para lá e parece estar a divertir-se, mas passa da meia-noite e os foguetes do Senhor de Matosinhos já estão a ser soltos. Está na hora de abandonar o NOS Primavera Sound.

Recordem as reportagens do primeiro e segundo dia do NOS Primavera Sound. É de crer que os bilhetes para a edição de 2020 estejam à venda muito em breve.

Fotos de: Telmo Pinto

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