NOS Primavera Sound – Dia 1: O triunfo sónico dos Stereolab e os chocolates de Jarvis

por Bruno Rocha Ferreira

O início de mais um NOS Primavera Sound foi muito reminescente da anterior: com chuva. Muita chuva. Mas aquilo que foi uma constante da vida em 2018, em 2019 foi apenas um susto sério e uma forma de testar a logística dos festivaleiros (evidentemente que um impermeável é obrigatório).

Pelo final da tarde tudo amainou e quando chegámos a Built to Spill até uns simpáticos raios de sol se faziam sentir.

Banda com história e uma daquelas jóias tardias que foram adicionadas depois do cartaz do NOS Primavera Sound ter sido anunciado, vieram tocar um dos discos clássicos do rock independente americano dos anos 90: Keep It Like a Secret.

Performance competente, com as guitarras a assumir a preponderância face à voz de Doug Martsch. Não desiludiram os que se iam agremiando pelo relvado enquanto se ia procurando alguma alteração no terreno para esta edição.

Pelas 21h chega Jarvis Cocker, que apresenta o seu novo projeto JARV IS. O palco coloca algum medo, é o Seat ali à beira da entrada, bem em cima do alcatrão. Foi novidade o ano passado no NOS Primavera Sound  e houve algumas experiências menos positivas por lá. Desta vez, e não obstante algumas empilhadoras a apitar por detrás da bancada do lado esquerdo, não se está mal.

A figura esguia de Cocker surge à frente da nova banda de espelho virado para o público, após uns minutos de aquecimento em que o público ouvia versões de Blondie. Com um início mais para o morno, a chegada de “Further Complications”, dos primeiros temas a solo do artista, ajuda a aquecer.

Experimentam-se umas palavras em português, tenta-se encontrar uma língua através de cliques. Jarvis vai rondando, à procura de fazer a ligação com os espectadores em número razoável a apreciar o cair da noite. Estão atentos, mas calmos.

Afinal há aqui temas bem frescos, como “Children of the Echo”, e os arranjos elaborados com direito a harpa e saxofone levantam interesse, mas ainda não há entusiasmo. O homem está em boa forma, e é bom voltar a estar com ele.

E depois o clique chega, sem ser precisa a clicky language. Jarvis lembra a última vez que esteve por terras lusas – foi em 2011 em Paredes de Coura – e pergunta quem esteve lá. Somos muitos, e ele fica genuinamente surpreendido, parece.

Toca-se “His n Hers” , a única de Pulp. De repente o céu cai sobre nós. Muitos fogem, é natural. Mas muitos outros correm para junto do palco. Cocker está solidário, começa a atirar chocolates – Toblerones pequenos e Twix, passo a publicidade – e diz que um dos seus grandes receios é ser eletrocutado e está na altura de enfrentar isso, avançando de microfone em punho para as grades à chuva.

Pergunta-se às pessoas o que elas temem. Há quem diga aranhas, há quem diga cobras. Jarvis pede para fechar os olhos e cura os medos. Para a chuva. Rebentam-se com os horários, chega-se à hora e meio de concerto. Fala-se que há cunts a mandar no mundo mas não há de ser sempre assim. Compensa sempre ver este senhor, volte em breve.

Os planos de horários foram à vida neste primeiro dia de NOS Primavera Sound, mas há tempo para passar por Danny Brown, que  à frente do seu colega de palco a soltar uns bits, atrai bons números, mas acaba-se por parar em Allen Halloween, um craque da rima. Continua em grande forma.

23h20: Stereolab, o nome mais aguardado por muitos nesta quinta-feira. Laetitia Sadier e seus companheiros cumprem os horários, e são a antítese do último ocupante daquele palco. Ultra-discretos, aqui há uma sessão contínua de interpretação – muito importante esta palavra.

Esta malta toca, e ridiculamente bem. Este palco nunca soou tão limpo, tão sala fechada. Que maravilha. Com boa voz e pouca conversa, o ritmo constante do festão segue. Os êxitos estão lá, há muito de Emperor Tomato Ketchup. Este hiato não lhes fez mal, temos aqui vinho do Porto.

Um espetáculo programado ao milímetro e glorioso na execução, tendo terminado exatamente uma hora depois de termos começado a bater o pezinho. A única pena do concerto foi mesmo ter-se bem comportado em relação ao tempo, a fazer lembrar os escandalosos 55 minutos de Nick Cave em Barcelona em 2013. Da próxima façam tão bom, mas em maior.

Depois da pena de só conseguir a despedida das jovens Let’s Eat Grandma  – pareciam extremamente felizes e saem de mãos nos ombros uma da outra – , aguarda-se Solange.

Com alguns, poucos, minutos de atraso, Solange aparece e tem uma grande produção em palco. Com escadaria branca por detrás, onde há recortes para parte da banda se alojar, um conjunto de dançarinas surge, sempre em tons de preto e branco. Há aqui talvez influências de Grace Jones, ou mais recentemente de Janelle Monae.

De vez em quando uma barra de néon liga, uma dançarina de twerk dá tudo em cima das escadarias, enquanto outras sobem ritmadamente os degraus (agora a memória imediata é o vídeo de “Around the World” , dos Daft Punk).

Solange canta bem, mas parece revelar alguma frieza, a contrastar com tanta gente em cima do palco. Há muito destaque para o último When I Get Home, e esforço para entreter a multidão qb que se reúne. Só que volta a chover e de A Seat at the Table não há assim tanto. Foi interessante de ver, mas está na hora de voltar para casa.

Hoje há mais NOS Primavera Sound, com nomes como Interpol e James Blake. E nós vamos andar por lá. Ainda há bilhetes à venda.

Fotos de: Telmo Pinto

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