NOS Alive – Dia 3: O punk que quer salvar o mundo, as abóboras que não são feitas de gelo e a viagem pela matriz

por Bruno Rocha Ferreira

Dia final do NOS Alive, e tal como ontem, o sol apenas quis ser um amigo fugaz. Ameaçou chuva, mas felizmente foi vã.

Pelas 20h30, os Idles entram rapidamente e em força para uma receção calorosa numa tenda semeada de gente, mas onde ainda se pode circular com algum à vontade. Os rapazes de Bristol são uma paixão fulminante junto do público português desde o lançamento do segundo álbum, Joy as an Act of Resistance, e as visitas têm sido frequentes. O punk tocado tem raízes firmes na tradição do género, o qual mostra que ainda é um grande veículo para a transmissão de mensagens.

Neste caso especial, com a existência de um lado vulnerável. Seja o problema do bem estar mental (em grande destaque por estes dias no Reino Unido), ou a necessidade de proteger o serviço nacional de saúde (God Bless the NHS), há aplausos generosos para cada apresentação de tema feita por Joe Talbot antes do estaladão distribuído de seguida, o tal de ato de vulnerabilidade perante um manhoso mundo novo (resta o clássico problema de quando é que ele grande). Mas é “I’m Scum” que assume níveis de hino para o povo. Perfeitamente calibrados para os tempos de hoje.

Idles – Crédito: Carlos Mendes

Entretanto, ocorre a conferência de imprensa de balanço do NOS Alive, e é anunciada a primeira grande novidade para a edição de 2020: o concerto, ao que parece em exclusivo, dos Da Weasel. Interessante ver este tipo de destaque ser reservado para artistas nacionais.

Pelo lado do palco principal, Justin Vernon dá longa sessão de distorção aos presentes. O acento tónico é ainda em 22, A Million, e honestamente parece-nos que esta encarnação dos Bon Iver é um tiro ao lado neste contexto específico.

Com o desenrolar do concerto a coisa evolui num sentido mais doce e folk. A chegada de “Skinny Love” dá uma certa tranquilidade e lógica às loas que Justin Vernon presta ao público português, mas hoje não é o dia ideal para o ver.

Breve passagem por Marina (numa encarnação bem diferente de quando a vimos em Paredes de Coura, em 2011, com os seus Diamonds a seguir a um mítico concerto dos Kings of Convinience), e este registo mais confessional, com passagens ao piano, parece aglomerar fiéis ruidosos nas primeiras filas do Palco Sagres.

A que Smashing Pumpkins é que teríamos direito era uma das perguntas do NOS Alive, e chegou a hora de descobrir no cenário mais elaborado a que tivemos direito nesta edição, com três bonecos gigantes e luminosos, que apresentam uma estética a fazer lembrar os figurinos teatrais do movimento Bauhaus. “Sarabande”, de Handel, toca, a fazer lembrar que Billy Corgan sempre teve uma densidade inteletual acima da média do meio.

Depressa se percebe que este alinhamento quase-original, faltando apenas Darcy, não está para brincar e Jimmy Chamberlain em “Zero” mostra uma bateria pujante. Corgan não diz ai nem ui entre músicas, mas aquela que parece ser a multidão maior deste três dias não tem por onde se queixar.

A decisão de sair a meio para ir a Thom Yorke vai-se tornando progressivamente mais difícil, mas foi a seguir a “Bullet with Butterfly Wings”, também irrepreensivelmente tocada, que partimos para a outra banda pelo meio da confusão, mas com a promessa de voltar.

Thom Yorke canta “Ladies and Gentleman, Thank You for Coming“, perante uma verdadeira viagem por dentro da matriz projetada no ecrã e condições de som desta vez a rivalizar com o palco principal (tem que se saudar o esforço para a melhoria das condições nestes últimos anos). Hipnótico, por vez bamboleante e com aquela voz fabulosa, é uma experiência imersiva bem sucedida, que consegue desligar os presentes que aquele é o tipo dos Radiohead. Missão difícil.

As projeções de cores e linhas continuam com gosto inatacável, os Atoms for Peace são também trazidos a cena com a Amok, com os seus loops hipnotizantes. Mesmo que se ache que se respeita demasiado tudo o que o senhor faz, o senhor faz muita coisa bem, e Nigel Godrich é um produtor superlativo.

No regresso ainda conseguimos apanhar “1979” e “Tonight, Tonight” , com Billy Corgan de gelo quebrado a gritar “That´s right, Lisbon” . A comunhão com o público é grande e os sorrisos também. Final feliz de mais um NOS Alive.

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