NOS Alive – Dia 2: Clássicos de sempre, a nova encarnação dos vampiros e o brilho da Princesa Grace

por Bruno Rocha Ferreira

Há que admirar a coragem de alguém que entra em palco de fato rosa, penteado anos 70 e ar de que acabou de sair de um pub de Glasgow, começa a bater palmas e toca o maior êxito a abrir para uma plateia a meio gás e com ar não especialmente interessado no palco NOS do NOS Alive. Mas Bobby Gillespie e os restantes Primal Scream não se intimidam e vão puxando pelo público até vencer a inércia. Um pouco como Bryan Ferry o ano passado, Gillespie tem a inteligência e experiência para perceber que, apesar de no grande esquema das coisas ser uma figura maior, no alinhamento deste NOS Alive é uma linha média para acrescentar prestígio.

E como tal prestigiou, esteve longe de fazer birra perante aquele cenário. De facto, estamos longe do Bobby problemático do passado, e depois da eterna “Movin’ On Up”, os Primal Scream continuam com um alinhamento enxuto e de qualidade, com “Jailbird” , “Kowalski” ou “Kill All Hippies” a funcionarem bem, embora os acordes etéreos de “Higher than the Sun” sejam talvez os nosso favoritos – Screamdelica é realmente um álbum vinho do Porto. Temos de ir embora mais cedo para visitar um vizinho, mas ficou a vontade de encher mais o cálice.

Johnny Marr tem sido, merecidamente, agraciado com um lugar ao sol nos últimos anos, apesar de ter sido sempre bem tratado na sua terra natal. Com ligeiro atraso, entra em campo com a sua banda e depressa se percebe que opta por um alinhamento que mistura temas originais, como o inaugural “The Tracers”, com clássicos dos The Smiths. Aposta ganha naturalmente, com “Bigmouth Strikes Again” a fazer os presentes gritar em celebração perante a fome saciada, bisada perante o início mítico de “How Soon Is Now?”, uma das razões maiores para catapultar Marr para o Olimpo dos guitarristas. O mancuniano vai buscar também ao armário músicas da sua colaboração com Bernard Sumner dos New Order (cá vos esperamos em agosto), e do supergrupo da cidade louca chegam” Getting Away With It” e “Get the Message”. Em forma irrepreensível na forma como toca o seu instrumento de eleição, e à semelhança de Wilko Johnson que esteve em fevereiro ali à beira, no CCB, Marr não é um cantor de exceção mas defende-se bem, como prova o original “Easy Money”. Há o final com o “There Is a Light That Never Goes Out”. É mesmo assim, e a brincar a brincar estes dois dias já nos permitiram revisitar algumas das músicas das nossas vidas.

Continua-se pelo secundário Sagres, e Tash Sultana não demora muito a chegar. Figura curiosa, tocadora de sete instrumentos (ou nove ou dez), e que impressiona pela destreza com que passa da guitarra para o trompete, e daí para as teclas, com o instrumento anterior a arrastar-se pelo ar. É interessante, há ali muita coisa por vir a brilhar, mas falta burilar e aperfeiçoar a simplificação. A estrada vai com certeza fazer-lhe bem.

De volta ao principal para ver e ouvir os Vampire Weekend, aquele que foi anunciado como o nome maior da noite. Apresentando-se em palco com sete elementos, incluindo dois bateristas, promete-se logo som cheio, e o investimento que foi feito no palco NOS recompensa, tal como aconteceu ontem com os Mogwai, por exemplo.

Esta aposta para suprir a saída de Rostam está ganha. O cenário quase idílico de representatividade que está em palco, com pessoas de vários géneros, raças e estilos, com um grande globo terrestre pendurado por detrás e vídeos de animais a serem projetados (anénomas e baleias em grande estilo) chega perto da caricatura de tão 2019 que é, mas a verdade é que funciona. E perante um público em grande medida representativo da base eleitoral do NOS Alive – muitos grupos das selfies para registar a presença neste evento da saison social e nacionalidade várias alegremente falando, os riffs orelhudos dos Vampire Weekend encaixam bem, gerando boa banda sonora mesma com pouca comunhão, fora “Cape Cod Kwassa Kwassa”, “A-Punk” e “Oxford Comma”, as quais mostram que o álbum de 2008 entrou definitivamente no zeitgeist, mesmo que a percentagem de indefetíveis seja modesta.

Ezra Koenig continua a mostrar-se um filho espiritual de Paul Simon, com as suas meias coloridas, sandálias e a forma discreta, mas eficiente, com que arregimenta as tropas, exceção talvez para alguns solos instrumentais a mais. Vivos e de boa saúde, com “Bambina” e “Harmony Hall” a mostrar vitalidade criativa bem recebida, estão num patamar que os colocam a par dos Arctic Monkeys como os grandes sobreviventes da vaga de novas bandas de há uma década.

Os Vampire Weekend estão bem e recomendam-se, e a jogar em casa daqui a uns meses no Coliseu, vai ser com certeza ainda melhor.

Há tempo para espreitar Grace Jones, e foi tempo bem investido, num dos espetáculos mais notáveis visualmente a que assistimos por estas bandas. Custa a crer que já estamos perante uma septuagenária, tal a energia dominante que é projetada pela Jamaicana, que rapidamente transforma o cenário da tenda, escolha acertadíssima aqui, na noventeira Danceteria Lido, ou no piso de baixo do Lux uns quilómetros mais à frente.

Frequentadora de clubes noturnos como se fosse igrejas, e de igrejas onde se lê o Evangelho, há aqui gosto e confiança no próprio. Os trajes são sumptosos, mesmo quando as versões são por vezes questionáveis (“Amazing Grace” ou “Love Is The Drug”), as ideias visuais são espantosas, desde o raio projetado em cima do chapéu de coco brilhante para gerar uma bola de discoteca, ou o bailarino a fazer pole dance, enquanto Grace usa um chicote de dominatrix e cabeleira a simular uma crina de cavalo. Única e irrepetível.

Fotos: Carlos Mendes

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