MEO Kalorama Dia 2 – Róisín Murphy em boa forma, uns Blossoms esquecíveis e uns Arctic Monkeys maduros

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Infelizmente, a qualidade de som continua a deixar a desejar.

2 de setembro. Dia de jogos de futebol na capital e segundo dia de MEO Kalorama, o mais recente festival de Lisboa e aquele que promete encerrar a temporada de festivais de verão. E já antes de chegarmos ao recinto, a diferença entre o dia anterior era enorme.

Para já, muito mais gente, ou não tivesse o festival esgotado os bilhetes diários para este dia, bem como os passes gerais. E depois, muito mais estrangeiros, o que significava uma coisa: estavam todos ali para ver os Arctic Monkeys. Mas havia muito mais para apreciar antes da banda de Alex Turner entrar em cena.

Perdemos The Lathums por ser demasiado cedo e também não nos foi possível espreitar as Golden Slumbers, pelo que somente estávamos no Parque da Bela Vista quando o homem-tigre já distribuía doses de rock & roll. Ao longe, enquanto aconchegávamos o estômago, já Paulo Furtado, aka The Legendary Tigerman, atuava perante uma considerável mancha de público. Nesta apresentação, e tendo em conta a magnitude do palco MEO, fazia todo o sentido apresentar-se em versão banda, ao invés de one man band, como se deu a conhecer ao mundo. A acompanhar o homem-tigre tínhamos a baterista Catarina Henriques, que também toma conta das baquetas nas Anarchicks, e o saxofonista João Cabrita. Juntos, e pelo menos para aqueles que estão bem perto do palco, dão um espetáculo bem enérgico e até atencioso – “está tudo bem? Alguém precisa de uma garrafa de água?”, perguntava Paulo Furtado a certa altura.

Embora que, em formato one man band, o projeto The Legendary Tigerman acabe por ser mais interessante – mas precise de uma sala em condições -, a versão banda não deixa nada ao acaso, e passando por várias faixas da discografia de Paulo Furtado, qualquer um rapidamente percebe que quase tudo o que é apresentado é muito influenciado pelos blues, pelo rock’n’roll e pela música americana. É o caso de “Motorcycle Boy”, “Fix of Rock and Roll” e “21st Century Rock and Roll”, e não nos podemos esquecer de “These Boots Are Made for Walking”, cantada pela baterista Catarina Henriques.

Jessie Ware acabou por dar um belo concerto

Assim que termina, Jessie Ware sobe ao palco do espaço ao lado, o Colina, e mesmo tendo em conta a hora de jantar, tinha à sua frente uma falange de fãs, confirmando-se que muitos tinham ido ao Kalorama para ver a sua musa. Mas ficaram certamente desiludidos, pois o espetáculo comprimiu-se em apenas 45 minutos. Tal tinha uma razão de ser: é que daí a precisamente 45 minutos, iriam entrar os britânicos Blossoms em cena no palco principal, e tendo em conta a distância entre palcos, é impossível ter os dois a funcionar em simultâneo tendo em conta as poucas dezenas de metros que os separam. Mas adiante.

Sem qualquer instrumento, sem banda, mas com recurso a música pré-gravada, bailarinos e um curto coro, Jessie Ware acabou por dar um belo concerto, sempre muito participativa, mexida e bastante audível nas suas interações com os fãs.

No Parque da Bela Vista, a britânica concentrou a sua curta atuação praticamente em What’s Your Pleasure?, quarto álbum de estúdio editado em junho de 2020, em plena pandemia. Inspirado na estética disco-sound, é um álbum refinado e arrojado, e isso nota-se em temas como “Remember Where You Are”, “Save a Kiss”, “Spotlight”. Pelo meio, ainda tivemos “Wildest Moments”, que muitos certamente conhecem, mesmo que não sejam seguidores da carreira.

Mas se Jessie Ware tinham uns quantos fãs à sua espera, o mesmo não se pode dizer dos Blossoms. Atuando já para muita gente, foi um concerto ao lado por parte dos ingleses, até porque o público que por ali permanecia guardava lugar para outra banda que não aquela. Mas também sejamos sinceros: a própria discografia dos Blossoms não é propriamente a mais interessante.

Claro, há temas que saltam à vista, como “Your Girlfriend” ou “There’s a Reason Why (I Never Returned Your Calls)”, mas o próprio grupo sabe que não está a jogar em casa quando tem um álbum lançado em abril deste ano e não faz qualquer referência a esse trabalho. Eles, os Blossoms, têm muito fãs no país natal, mas, por cá, a conversa é outra.

Ainda assim – e lá está, para os britânicos presentes no MEO Kalorama -, os Blossoms de Tom Ogden acabaram por dar um concerto competente q.b., ainda que se tenham socorrido de uma cover de “Don’t You Want Me”, dos The Human League, para terem o público a cantar com eles. “Lindo”, disse depois o vocalista, ainda que não parecesse estar muito convencido. O grupo, ainda assim, parecia estar divertido, e isso também acaba por ser interessante.

Naquele que foi o seu terceiro concerto em Portugal, sempre em contexto festivaleiro, os britânicos ainda não convenceram… Mas será que uma quarta visita, e numa sala fechada, funcionaria melhor? Fica o desafio.

Uma autêntica disco queen

Com horários a serem cumpridos à risca, o palco Colina já estava à pinha para receber alguém que, no próximo ano, completa meio século de vida: Róisín Murphy. E não é que foi um belo concerto?

Durante cerca de 1h15, vimos metade dos extintos Moloko passar por uma discografia a solo que começou em 2005, mas sem nunca esquecer o duo que a deu a conhecer ao mundo. Algo camaleónica – pelo menos tendo em conta os variados acessórios que foi usando ao longo do espetáculo – a irlandesa esteve praticamente a atuação toda a fazer movimentos descontraídos, tal como se nós estivéssemos em casa a dançar, despreocupados com o que os outros acham das nossas figuras. Uma autêntica disco queen, mesmo nos seus movimentos mais sensuais, até quando abana o rabiosque para o público.

Suportada por uma competente banda de quatro músicos e um ecrã atrás de si, onde passavam imagens que só alguém em ácidos se lembraria de desenhar, Róisín Murphy foi responsável pelo serão mais dançável do dia até ao momento, apresentando-se como uma entertainer nata.

De Róisín Machine, disco editado em outubro de 2020, e que, para o Echo Boomer, foi o melhor álbum de música eletrónica do ano respetivo, ouvimos por exemplo “Murphy’s Law”, infelizmente numa versão bem diferente da do disco, mas que, ainda assim, não nos coibiu de mostrar uns moves de dança, bem como “Incapable”. Na verdade, todo o concerto de Murphy é assim: embora numa estética algo retro – afinal de contas, caminha para 30 anos de carreira – acabamos por entrar no mundo avant-pop, experimental e eletropop da artista, cujos momentos mais altos acabaram ligados a temas hits do Moloko: “The Time is Now” e “Sing It Back”, com todos a cantarem o refrão. Foi bonito, foi giro e deu para perder umas calorias. Só não foi perfeito porque havia distorção a mais a sair das colunas do palco Colina, além de que, por várias vezes, não desse para perceber o que Murphy dizia.

Ainda não tinha a música desligado do Colina quando a banda mais esperada do dia subia ao palco MEO e logo arrancava com “Do I Wanna Know?”, tema que começa AM, disco de 2013. Sim, os Arctic Monkeys davam finalmente início ao seu concerto e, com eles, um recinto esgotado já entoava as letras.

Quem viu os Arctic Monkeys num passado recente, sabe que, precisamente desde esse disco, mas ainda mais evidenciado em Tranquility Base Hotel & Casino, que os rapazes de Sheffield têm vindo a desacelerar o passo. Longe vão os tempos do MySpace, rede social que os deu a conhecer na Internet, e daquela rebeldia de “Cornerstone”, “Brianstorm”, “Teddy Picker”, “Fluorescent Adolescent”, “When the Sun Goes Down”, “The View from the Afternoon” ou “I Bet You Look Good on the Dancefloor”. Eles ainda as tocam, é certo – mal seria se não o fizessem -, mas esses tempos de juventude mais efervescente já lá vão, e como muitos saberão, temos hoje em dia uma banda mais madura, mas que também “retrabalhou” os temas, dando-lhes ao vivo uma certa acalmia. Se é mau? Não propriamente, mas não tem o mesmo impacto.

Os Arctic Monkeys têm variados temas que lhes permitiram alcançar o estrelato do rock moderno

Alex Turner, o frontman, esteve ainda menos comunicativo que na última visita ao nosso país, mal dirigindo a palavra ao público – há quem reclame disso -, mas o que interessa é a voz estar no ponto e a música soar bem… Infelizmente, fazemos parte daquele lote de pessoas que têm vindo a achar o som do MEO Kalorama bastante desequilibrado e com pouca expansividade em várias atuações. O concerto dos Arctic Monkeys foi um deles, em que, quem estivesse nas laterais do palco, ia levar com um som algo abafado. Para um festival que diz ter material da melhor qualidade, não deixa de ser algo estranho… É algo que se explica com o facto de o sistema de som contar com colunas direcionais, e não omnidirecionais.

Em palco, a banda estava certamente a divertir-se, mesmo que Alex Turner não o demonstrasse particularmente, e dali ouvimos ainda “I Ain’t Quite Where I Think I Am”, do novo álbum The Car, com lançamento marcado para o próximo mês de outubro. Contrariamente aos Blossoms, os Arctic Monkeys têm variados temas que lhes permitiram alcançar o estrelato do rock moderno, e são muitos os temas, principalmente da discografia existente antes de Tranquility Base Hotel & Casino, que foram entoados pelos milhares de fãs no MEO Kalorama, mesmo tendo em conta aquele arrasto propositado nas músicas que já demos a entender.

Não tendo, de forma alguma, ultrapassado os grandiosos concertos que deram no Meco em 2011 e 2013, pelo menos este espetáculo sempre foi mais interessante do que a chatinha atuação de 2018 no NOS Alive.

Um reparo: para um festival que diz querer dar primazia ao conforto do público, limitar o recinto do Parque da Bela Vista e meter lá 40.000 pessoas é capaz de não ser muito boa ideia. Além de filas intermináveis para a zona da restauração, também nas filas para os WCs se perde facilmente meia hora. A melhorar.

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