Nova unidade do ICAD em Matosinhos acompanha casos de utilização problemática de videojogos, sobretudo entre jovens, com intervenção multidisciplinar.
A cidade de Matosinhos passou a dispor de uma resposta especializada para o acompanhamento de casos de utilização problemática de videojogos, com a entrada em funcionamento de um novo programa integrado no Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD).
O programa agora implementado insere-se no âmbito das consultas especializadas e surge num contexto de crescente digitalização da sociedade, em que os videojogos assumem um papel relevante no quotidiano, sobretudo entre a população mais jovem.
Esta nova resposta integra a estratégia de reforço das respostas públicas no domínio das dependências comportamentais. Destina-se maioritariamente a jovens a partir dos 12 anos, não existindo, no entanto, um limite máximo de idade para acesso. O acompanhamento é realizado em regime ambulatório, sendo a referenciação efetuada através de médicos de família, serviços do ICAD ou outras unidades do Serviço Nacional de Saúde.
Instalada nas instalações do antigo Hospital de Matosinhos, na Rua Alfredo Cunha, a unidade tem capacidade para acompanhar cerca de uma centena de utentes ao longo de períodos que podem variar entre 18 e 24 meses. A estrutura funciona no âmbito do Centro de Respostas Integradas (CRI) Porto Ocidental e poderá vir a servir de base para a criação de respostas semelhantes noutras regiões do país.
A equipa responsável pelo programa é multidisciplinar, integrando profissionais das áreas da psicologia, psiquiatria, pedopsiquiatria e serviço social. O modelo de intervenção prevê a realização de avaliações clínicas detalhadas, incluindo a identificação de comorbilidades frequentemente associadas, como perturbações de ansiedade e do humor. O acompanhamento é ajustado a cada caso e inclui uma componente relevante de envolvimento familiar, com o objetivo de apoiar o processo terapêutico e promover alterações sustentadas de comportamento.
Segundo dados do ICAD, a maioria dos casos identificados até ao momento corresponde a jovens a frequentar o 3.º ciclo do ensino básico e o ensino secundário. Estas situações apresentam, com frequência, associação a sintomas de ansiedade e a alterações do estado de humor.
De acordo com o coordenador do programa, o psiquiatra Mário Santos, tem-se verificado um aumento da procura por apoio nesta área nos últimos anos, ainda que de forma dispersa pelas várias unidades do ICAD. O responsável refere que já foram identificadas várias dezenas de casos a nível nacional e considera que a criação desta unidade permitirá ampliar a capacidade de resposta, sobretudo na região Norte.
O chamado “gaming problemático” encontra-se reconhecido pela Organização Mundial da Saúde, desde 2018, como uma perturbação integrada no grupo das dependências comportamentais. Caracteriza-se por um padrão persistente de utilização excessiva e descontrolada de videojogos ou jogos online, com prejuízo significativo em diferentes dimensões da vida quotidiana, incluindo o desempenho académico ou profissional, as relações familiares e sociais e o bem-estar geral.
Entre os principais sinais de alerta identificados pelos especialistas estão a perda de controlo sobre o tempo de jogo, a progressiva substituição de outras atividades relevantes e a diminuição do interesse ou prazer em experiências fora do contexto digital. Estas situações podem ainda estar associadas a perturbações do sono, alterações dos hábitos alimentares, sintomas depressivos e níveis elevados de ansiedade.
O modelo de acompanhamento definido para esta resposta inclui uma fase inicial de intervenção intensiva, com duração estimada entre oito e dez meses, baseada em sessões individuais regulares. Esta fase é seguida por um período adicional de monitorização, que pode prolongar-se por cerca de um ano. Paralelamente, está prevista a realização de intervenções em grupo, sempre que tal se revele adequado à evolução dos casos.
Para além da vertente assistencial, a unidade deverá também desenvolver atividade nas áreas da investigação, prevenção e promoção da literacia em saúde, com particular foco nos riscos associados ao uso excessivo de videojogos e à exposição prolongada a ambientes digitais.
Embora o foco principal incida sobre jovens entre os 12 e os 24 anos, os responsáveis indicam que a resposta está preparada para abranger utentes de outras faixas etárias, em função das necessidades identificadas.
