Duas vacas miniatura chegaram à quinta na semana em que fechou um negócio em Malta.
Luciano de Vries vive em Tavira, no sul de Portugal, numa propriedade com galinheiro, horta e uma colecção crescente de animais resgatados, entre eles Donald, um pato, e Snowball, um coelho de um quilo que vivia numa gaiola minúscula. “Temos muitos vegetais que posso comer todos os dias da terra; as galinhas põem ovos. Agora temos tudo, desde melões até pepinos e tomates”, descreveu a produção doméstica.
O contraste com a agenda é total. De Vries viaja mensalmente entre Polónia, Malta e Portugal para supervisionar as operações da Gaet Investment Holding, empresa que cofundou com o parceiro de negócios Nick Houwen e um terceiro accionista. O portefólio inclui distribuição de gás, transportes, a Casa Vista Real Estate no Algarve, a Happy Timber Solutions na Holanda e mais de 20 investimentos em startups.
Tavira é a base. Não, o escritório.
Presença física ou nada
De Vries é categórico sobre trabalho remoto. Não funciona para construir.
“Não acho que construir uma startup remotamente seja possível, não. E não acho que seja possível em qualquer negócio. Não estou a dizer que não se possa trabalhar remotamente de vez em quando. Mas acho que numa percentagem muito grande de tudo, é impossível fazer uma startup remotamente”, afirmou.
O argumento não vem da teoria de gestão. Vem de videochamadas em que metade dos participantes desaparece. “Tenho tantas reuniões online em que as pessoas também passam metade do tempo fugindo”, observou. “Mas se estiveres lá em tempo real, é toda a linguagem corporal, toda a diversão. Quando tomas café ou vais buscar uma bebida, dizes: “Ei, disseste aquilo, ah. Dá outra dimensão ao que acabaste de falar.”
Pausas de café revelam o que as reuniões formais escondem. Conversas informais no corredor, linguagem corporal nos intervalos entre os pontos da agenda, a energia de uma sala após uma decisão difícil. De Vries acredita que essa informação não passa por ecrãs.
A implicação prática é um calendário de viagens que poucas pessoas com uma quinta em Tavira manteriam. Polónia num mês, Malta no seguinte, idas regulares aos Países Baixos. Entre deslocações, Portugal funciona como centro de gravidade pessoal, não profissional.
Ouvir antes de falar
A vida na quinta exige um ritmo que De Vries tenta aplicar aos negócios. Animais não se apressam. Vegetais não crescem mais depressa por se lhes gritar.
“A melhor maneira de aprender é ouvir, na verdade. Enquanto estás com eles, em reuniões com eles, numa conversa por email, em threads com eles, ouves as ideias deles. Se ouvires, podes aprender. Mas começa sempre por ouvir. Se não ouvires, não aprenderes”, explicou, como absorve conhecimento de funcionários mais especializados do que ele.
De Vries cita o conceito japonês de Kaizen. “Melhorar-se 1% todos os dias. Se viveres com essa teoria, podes sempre ouvir pessoas mais inteligentes, melhores, ou pelo menos nessa função”, disse. Reconhece, sem desconforto, que muitos dos seus directores sabem mais do que ele nas respectivas áreas. “Às vezes, as pessoas ficam intimidadas porque alguém é melhor ou mais inteligente, mas acho que essa é a única maneira de aprender. Se estiveres rodeado apenas de pessoas que não são assim, não consegues aprender.”
O conselho contrasta com a tendência dos fundadores de contratar abaixo do seu nível para manter o controlo. De Vries faz o oposto. Contrata acima e escuta.
80 horas que não parecem trabalho
A fronteira entre a vida pessoal e a profissional, em Tavira, é permeada pelo desenho.
“Trabalhamos 80 horas por semana, mas não parece trabalho”, admitiu. A declaração seria motivo de preocupação para consultores de bem-estar empresarial, mas De Vries enquadra-a no contexto da quinta, dos animais, das viagens. O trabalho mistura-se com tudo o resto. Responder a e-mails entre colheitas. Analisar pitch decks enquanto Donald passeia pelo quintal.
“Prefiro ir de férias mais vezes e depois trabalhar um bocadinho, pelo menos não ficar para trás”, explicou sobre a forma como distribui o tempo entre lazer e obrigações. Os fins de semana são, teoricamente, livres. “Decidimos agora ter pelo menos os fins-de-semana livres, para podermos trabalhar. Mas se não o fizermos, não é mau”, disse, numa formulação que revela como o trabalho é o estado natural e a pausa é que precisa de decisão.
De Vries vê o seu estilo de vida como parte de uma tendência mais ampla. “Vejo as pessoas a quererem mais qualidade de vida, o que significa ter mais bens materiais. Vejo as pessoas a desejar mais comida natural, bebidas naturais, coisas mais saudáveis, mais experiências de estilo de vida”, observou. A quinta não é um capricho. É uma resposta prática à mesma tendência que vê no mercado.
Entre melões e Malta
A gestão de quatro países a partir de uma propriedade rural portuguesa tem uma lógica interna que De Vries articulou com simplicidade: “A coisa estranha é que não parece trabalho. Então, gosto de fazer estas coisas o dia todo.”
A felicidade, segundo um mentor que De Vries cita com frequência, é “fazer o que quiser, com quem quiser, quanto quiser.” A quinta em Tavira, com as suas mini-vacas e os seus melões, é onde essa equação se resolve. O negócio acontece em aviões, escritórios em Varsóvia, salas de reuniões em Naxxar.
E quando volta, as galinhas continuam a pôr ovos.
