Carlos abandonou uma carreira segura na engenharia para seguir uma carreira enquanto “pasteleiro”. Certo é que os pastéis de nata fazem sucesso em Munique.
Munique tornou-se o destino de uma improvável mudança de carreira que cruza a alta precisão técnica com a pastelaria tradicional portuguesa. Na capital do estado federado da Baviera, a Lisboa & Nata já vendeu mais de 80.000 pastéis de nata desde a sua inauguração em outubro de 2025. O projeto é da autoria de Carlos Santos, ex-engenheiro aeroespacial português que abandonou uma década de atividade no setor e um vencimento fixo anual de 110.000€ brutos para fundar a sua própria fábrica e ponto de venda de doçaria em solo alemão.
As origens deste percurso radicam no ambiente comercial da infância, no qual Carlos cresceu em contacto com a mercearia do pai, desenvolvendo o gosto pelo atendimento ao público. Anos mais tarde, motivado pela curiosidade sobre o funcionamento das coisas, licenciou-se e exerceu engenharia ao longo de uma década, mas a perceção de que o trabalho altamente especializado numa grande estrutura corporativa limitava a visibilidade do impacto direto do seu esforço acabou por pesar na decisão de mudar de rumo. A ideia de confecionar pastéis de nata tinha começado informalmente cerca de dois anos antes da demissão, com experiências domésticas baseadas em receitas da internet, massas folhadas pré-feitas e formas de queques, aperfeiçoadas mais tarde em encomendas para aniversários e festas de amigos até à validação do mercado germânico, onde não existia oferta do género.
A constituição do Lisboa & Nata em Munique exigiu ultrapassar barreiras técnicas e regulamentares. Antes de avançar, Carlos aprendeu alemão para concluir um curso certificado de pastelaria ministrado obrigatoriamente nessa língua, além de ter consultado profissionais em Portugal para desenhar e otimizar fluxos de produção eficientes. A viabilização do espaço implicou investir entre 45.000 e 60.000€ das suas poupanças pessoais, montante que cobriu as rendas iniciais, as obras de adaptação e a compra do equipamento industrial, deixando a conta bancária praticamente a zeros na véspera da abertura.
A adaptação física do imóvel durou dois meses de trabalho contínuo, no qual o próprio fundador desenhou a planta, construiu a cozinha, assentou o pavimento e aplicou nas paredes azulejos recondicionados em segunda mão, recolhidos diretamente de edifícios em Lisboa. No dia de estreia, perante a afluência de público, saíram da cozinha 700 unidades produzidas a solo, surgindo nos dias seguintes filas de clientes na rua que chegaram a atingir os 25 metros de comprimento. A situação forçou a contratação imediata de pessoal para reforçar a equipa inicial, contando atualmente com cinco trabalhadores no total.
O fabrico no estabelecimento recusa prensas industriais e decorre de forma estritamente artesanal. Entre as 07h30 e as 08h, duas horas e meia antes da abertura de portas marcada para as 10h, arranca o processo de preparação: o bater e repouso da massa, a confeção do creme, a laminação e o corte de fatias a partir de cilindros de massa enrolada em espiral. A moldagem e abertura de cada base nas formas metálicas é feita à mão, consistindo na etapa mais demorada da linha de produção. Em dias de grande afluência, o forno elétrico funciona a cada trinta minutos, somando entre 15 e 20 fornadas diárias, um ritmo que obriga à lavagem e higienização manual de cerca de mil formas metálicas por jornada de trabalho.
A operação comercial, que regista lucros desde o primeiro mês com margens entre os 20% e os 25%, sustenta-se quase na totalidade na receita conventual. O pastel de nata representa 87% do total faturado, cabendo os restantes 13% à venda de café, peças de cerâmica e sacos de café em grão. Três quartos das vendas do espaço funcionam em regime de consumo para fora (take-away). Na estrutura de encargos da empresa, as despesas com pessoal absorvem entre 27% e 30% da receita, a matéria-prima alimentar representa 15%, o arrendamento do espaço consome cerca de 11% e os consumíveis de limpeza e manutenção diária fixam-se entre 5% e 10%.
