Recentemente fiz (mais) um cruzeiro com a MSC Cruzeiros e, pela primeira vez, tive internet a bordo do navio. Apesar de nunca ter tido problemas de ligação, o conceito de Internet de alta velocidade simplesmente não existe.
Sou daquelas pessoas que faz cruzeiros há anos. E não, não considero que seja algo “para velhos”. Pelo contrário: há cada vez mais jovens a preferir este forma de viajar, que, diga-se, tem as suas vantagens. No fundo, é como estarmos num hotel em alto mar, sendo que temos sempre comida a toda a hora, já incluída no preço base do cruzeiro. Estamos, portanto, verdadeiramente de férias.
A diferença é que são poucas as horas para aproveitar em cada destino, principalmente quando o porto de navios fica longe de principais destinos de interesse. E é essa problemática que acaba por afastar eventuais interessados. No entanto, não considero isto uma desvantagem: afinal de contas, se gostarmos mesmo muito de um destino, podemos sempre depois voltar com mais tempo, fora do âmbito de cruzeiro.
Ora, quem viaja em alto mar sabe que isso significa ficar incontactável, uma vez que a cobertura móvel deixa de existir. E aí, a única solução é ficar online, isto é, com ligação à Internet. No entanto, e dado que não existe cobertura de rede, tal significa, naturalmente, que os dados móveis não existem. Solução? Optar pela rede Wi-Fi do próprio navio. Infelizmente, trata-se de uma solução muito cara e que, ao contrário do que é vendido, não se trata de uma “high speed connection”, isto é, internet de alta velocidade. Muito pelo contrário.
Recentemente fiz mais um cruzeiro com a MSC Cruzeiros – única companhia com a qual viajei até hoje – e, pela primeira vez, tive crédito a bordo para adquirir um pacote de Internet. Mas antes de lá irmos, importa explicar o porquê de apenas ser possível utilizar Internet do próprio navio em alto mar – não é sequer possível uma ligação individual a um satélite, por exemplo.
A internet em navios de cruzeiro já deixou de ser uma curiosidade técnica para se tornar parte da experiência de viagem, mas continua a funcionar segundo uma lógica muito diferente da banda larga usada em terra. Em alto-mar, a ligação depende de antenas instaladas no navio, que comunicam com satélites de telecomunicações em órbita. Os dados percorrem, assim, uma distância muito maior do que numa rede fixa, o que condiciona a velocidade, a estabilidade e a latência do serviço.
O caminho da informação começa no dispositivo do passageiro, passa pelas antenas do navio e chega ao satélite mais próximo. Para que a comunicação funcione, é necessária uma linha de visão desobstruída entre estes pontos. E sim, condições meteorológicas adversas, como tempestades, podem interferir com o sinal. O mesmo pode acontecer na presença de obstáculos relevantes, como montanhas elevadas junto à rota ou edifícios altos nos portos. Nestas situações, a ligação pode tornar-se mais lenta ou, em alguns casos, deixar de responder.
A qualidade do acesso varia também consoante a posição do navio. Quando este navega próximo da costa, o sinal tende a ser mais estável e rápido. Em pleno oceano ou em áreas remotas, a dependência exclusiva das ligações via satélite torna-se mais evidente e o serviço pode apresentar interrupções. As rotas polares mais extremas e determinados países com restrições de acesso são exemplos de zonas onde a cobertura pode ser reduzida ou suspensa.
Durante anos, a maioria das companhias recorreu a sistemas VSAT, baseados em satélites geoestacionários colocados a cerca de 36.000 quilómetros da Terra, e essa distância traduzia-se em ligações mais lentas e com atrasos percetíveis. A partir de 2022, várias empresas do setor passaram a adotar a rede Starlink, da SpaceX, cujos satélites orbitam a aproximadamente 550 quilómetros de altitude. Por estarem muito mais próximos, permitem um sinal mais rápido e com menor latência. Royal Caribbean, MSC Cruzeiros, Costa Cruzeiros e Norwegian estão entre as companhias que já utilizam esta tecnologia, o que ampliou a possibilidade de navegar, ver séries, ouvir música ou participar em videochamadas durante a travessia.
O uso da rede não é, contudo, uniforme ao longo do dia. Os períodos de maior procura registam-se normalmente de manhã e quando muitos passageiros regressam das excursões. Tal como nas redes terrestres, o congestionamento pode reduzir a velocidade disponível. Quem precisa de uma ligação mais estável pode, sempre que possível, evitar estas janelas de maior utilização.
Como disse, fiz recentemente um cruzeiro, neste caso a bordo do MSC World Europa, num trajeto pelo Mediterrâneo que partiu de Barcelona, passou por Marselha, Génova, Nápoles, Messina, La Valetta e terminou o seu percurso na capital espanhola. E a verdade é que andei sempre com Internet a bordo do navio… mas não era propriamente de alta velocidade, como a companhia de cruzeiros apregoa.
O serviço está disponível nas áreas comuns do navio e na maioria dos camarotes, incluindo nas suítes do MSC Yacht Club. Para o utilizar, é necessário adquirir um pacote de acesso à internet via satélite e dispor de um equipamento com ligação à rede, como um smartphone, um tablet ou um computador portátil. Todos os pacotes incluem dados ilimitados, cobrem a duração do cruzeiro e permitem acesso durante 24 horas por dia. A diferença está nas utilizações permitidas: o pacote Browse destina-se à navegação básica, enquanto o Browse & Stream acrescenta a possibilidade de realizar videochamadas e transmitir ou reproduzir música e vídeo. Para além disso, conseguem descontos na ordem dos 20% caso adquiram cada pacote antes do início do cruzeiro.
A ativação é depois feita a bordo. O passageiro deve registar-se com o primeiro equipamento que pretende utilizar e, após o registo, é encaminhado para a página de ativação. Ao carregar no botão START, o aparelho fica associado ao serviço. Para adicionar outros dispositivos, caso o pacote adquirido o permita, é necessário iniciar sessão com o mesmo nome de utilizador e palavra-passe criados no registo inicial.
Há, porém, uma limitação importante: depois de ativado, um equipamento não pode ser substituído por outro. Quem registar um smartphone não poderá, mais tarde, transferir essa ativação para um tablet ou computador. E isto, sinceramente, não faz sentido absolutamente nenhum. No meu caso, até consegui adquirir um pacote para dois dispositivos, mas considerando que viajava com a minha esposa, tínhamos vários dispositivos: o meu Mac Mini, o Macbook Pro dela, o meu Pixel 11 Pro XL e um iPhone. Quatro dispositivos diferentes, mas apenas dois deles conseguiram usufruir de Internet. Para experimentar o serviço, liguei logo o meu mini PC e o meu smartphone à rede, mal sabendo que já não seria possível retirar um desses produtos. Ou seja, nunca foi possível, por exemplo, o iPhone ter ligação à Internet enquanto navegávamos.
Em relação à experiência propriamente dita, consegui sempre trabalhar em alto mar, e esse foi o meu principal propósito para a aquisição deste pacote. No entanto, havia sempre sites ou serviços de streaming que não funcionavam, como a RTP Play ou Crunchyroll – Disney+, por exemplo, funcionou sempre bem. Aceder ao PayPal também era mentira. E fazer downloads de ficheiros zipados com vários megas? Esqueçam isso, pois a transferência acabava sempre por falhar. E tudo isto porque a velocidade de ligação à Internet era sempre muito lenta: durante os meus testes, apenas uma vez consegui velocidades na ordem dos 6Mbps. De resto, andava sempre por volta dos 5,5Mbps, ou menos, como podem ver na imagem abaixo. Por isso, high speed connection? Em 2005, sim…

Para além disso, o pacote é super caro. Para este trajeto – e sim, a contar com o dia de embarque e desembarque -, o preço online era na ordem dos 190€. Mas como apenas consegui utilizar o crédito que tinha a bordo, somente foi possível adqurir o pacote de Internet já dentro do navio, o que fez escalar o preço para cerca de 223€ – 19€/dia, sendo que acrescentar mais um dispositivo ao invés de comprar um outro pacote à parte faz “diminuir” esse montante.
É um valor demasiado alto para a velocidade oferecida e para a quantidade de dispositivos, mas para quem realmente necessitar de trabalhar a bordo, não terá outra hipótese.
