Crítica – “Godzilla: King of the Monsters”

por Manuel São Bento

A nova história do icónico monstro da 7ª arte acompanha os esforços heróicos da agência cripto-zoológica Monarch, cujos cientistas enfrentam uma série de monstros de dimensões gigantescas, incluindo o poderoso Godzilla, que, por sua vez, enfrenta Mothra, Rodan, e o seu derradeiro inimigo, o Rei de Três Cabeças Ghidorah. Quando estas super-espécies antigas – que se julgava serem apenas mitos – se voltam a erguer, todas elas lutam pela supremacia, comprometendo a existência da humanidade. King of the Monsters é a sequela ao filme de 2014, Godzilla, e o terceiro filme no MonsterVerse, universo cinemático da Legendary, que também inclui Kong: Skull Island. Em 2020,  o confronto Godzilla vs. Kong deverá chegar ao grande ecrã.

Godzilla: King of the Monsters é um dos meus filmes mais antecipados de 2019. Não porque esperava que fosse uma história brilhantemente escrita ou com personagens incrivelmente desenvolvidas, mas simplesmente devido aos níveis de puro entretenimento que Godzilla provoca. Das poucas imagens que tinha visto, parecia absolutamente deslumbrante. Não precisava de um argumento digno de um Óscar ou performances fenomenais. Apenas desejava uma narrativa decente e lógica (esta última palavra é importante) com personagens razoáveis e toneladas de sequências de ação com os Titãs lutando uns contra os outros. Logo, as minhas expetativas não eram nem complexas nem tão altas como algumas pessoas poderão ter.

Infelizmente, deixei o cinema extremamente desiludido. É impossível negar o quão impecáveis os efeitos visuais são, assim como a quantidade infinita de imagens dignas de serem o vosso próximo wallpaper de computador, espalhadas por todo o filme. Algumas cenas estão preenchidas com cinematografia de fazer cair o queixo, monstros impressionantemente lindos e cenas de luta que parecem tão reais que só a produção sonora irá deixar o espectador à beira da sua cadeira.

No entanto, quando os dois pilares de qualquer filme ou série (história e personagens) estão tão longe de funcionar, não há aspetos tecnicamente perfeitos que salvem o filme de um desastre. Escrevi esta última frase há algumas semanas sobre Game of Thrones, e defendo-a a todo o custo. Serei sempre o primeiro a elogiar o trabalho técnico quando este é excecional, mas se tiver que escolher entre um filme tecnicamente sem falhas e outro com uma história fantástica e personagens com as quais me importo, não tenho dúvidas de que este último é a escolha indiscutivelmente correta.

Em última análise, esse é o enorme problema. O argumento está carregado com algumas das cenas de exposição mais preguiçosas dos últimos anos. De forma constante, as personagens têm algum tipo de apresentação para explicar algo numa conversa completamente imprevisível, de forma aleatória. Geralmente, um filme como este tem algum tipo de personagens secundárias cliché que podem ser um cientista chico-esperto, alguém que sirva de comic-relief, um duo que está constantemente a trocar bocas ou um militar que quer sempre atacar alguma coisa, mesmo que todos saibam que não é a decisão mais inteligente.

King of the Monsters tem todos estes tipos e muito mais! Mais?! Michael Dougherty e Zach Shields enchem a narrativa com tantas personagens desnecessárias, inúteis e estereotipadas, que acabam por esticar o tempo de execução e estender os períodos entre as lutas colossais, transformando esse tempo em minutos de tédio absoluto.

Bocejei durante um blockbuster do Godzilla. Bocejei. Quão triste é isto?! Gostei imenso do filme de 2014 de Gareth Edwards. Na altura, a queixa mais comum era de que não havia Godzilla suficiente. A maioria das personagens foram bem escritas, apesar de algumas terem sido pouco exploradas. Esta sequela sofre do contrário: existem dezenas de monstros e lutas titânicas, mas esqueceram-se literalmente de escrever uma história cativante com personagens interessantes. Na primeira película, embora eu também desejasse mais Godzilla, quando este realmente aparece, fiquei extremamente entusiasmado! Como tive que esperar pelo terceiro ato para assistir à luta entre os Titãs, o build-up gerado e o seu payoff fizeram o tempo gasto com as personagens humanas valer a pena.

Esta sequela estava condenada a partir do momento em que as personagens foram escritas. Há inúmeras sequências de luta e escrevi acima que as personagens desnecessárias estendem os períodos entre essas cenas. O dilema é que esses períodos precisam de existir, fazendo com que tudo pareça uma faca de dois gumes que o realizador está a tentar evitar. Por um lado, não podemos ter ação após ação consecutivamente, caso contrário, esta vai perder o impacto ao longo do tempo e irá tornar-se monótona, logo precisamos de passar o tempo com as personagens humanas horrivelmente escritas.

Por outro lado, não podemos ter personagens desinteressantes com motivações pouco claras no ecrã por muito tempo, caso contrário, a audiência irá adormecer de tédio ou ficará irritada, logo é necessário inserir uma sequência de luta novamente, fazendo o público perder o interesse nessas cenas gradualmente.

King of the Monsters repete continuamente este ciclo de ir de uma situação para a outra. Ninguém quer ter lutas consecutivamente, pois estas vão perder o impacto energético, mas ninguém quer desperdiçar o seu precioso tempo a ouvir exposições através de apresentações tipo PowerPoint de personagens cujo nome ninguém se irá lembrar. Não se pode culpar o elenco, todos entregam boas performances.

Millie Bobby Brown (Madison Russell) continua o seu caminho para se tornar numa das maiores estrelas de Hollywood (em menos de 10 anos, terá um Óscar nas suas mãos, garantido). Kyle Chandler (Mark Russell) faz mais do que o que se esperava dele com um guião tão mau e Ken Watanabe (Dr. Ishiro Serizawa) é o único que entrega um desempenho sólido, para além de ter uma personagem adequada (fruto do filme anterior). Vera Farmiga (Dr. Emma Russell) está ligada à pior personagem do filme (decisões completamente irracionais feitas por Emma) e todos os outros são uma das personagens secundários cliché mencionadas acima.

Tiveram cinco anos para escrever uma narrativa direta com personagens simples. Nenhum fã queria nem precisava de um argumento brilhante e inovador, mas a verdade é que Dougherty e Shields criaram um dos piores scripts do ano. Está cheio de exposição, personagens cliché e um tempo de execução que acabou por se tornar demasiado longo para alguém tolerar todo o diálogo terrível. Não sei se irá acabar claramente como um dos piores filmes de 2019, mas é, definitivamente, uma das maiores deceções.

No final, Godzilla: King of the Monsters não corresponde às minhas expetativas (e eram bastante justas), nem perto. Visualmente, é um dos filmes mais marcantes deste ano e tal não pode nem deve ser esquecido ou ignorado. Das lutas gigantes entre os Titãs aos wide shots impressionantes, Dougherty tinha um diamante lindo que apenas precisava de polir com uma história racional e simplista, como se esta fosse um pano macio e limpo. Em vez disso, usou um martelo…

Nota: 2 Estrelas

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