Com maquilhagem nova, mas sem alterar a sua fórmula de sucesso, Dynasty Warriors 3 é uma cápsula do tempo para uma série que se recusa a mudar – e ainda bem.
Existe mestria em Dynasty Warriors. Por mais que o tempo seja cruel para as suas inúmeras sequelas, spin-offs, sub-séries e até adaptações cinematográficas, o conceito de um jogo Musou é uma ode à simplicidade. Com o Romance dos Três Reinos como pano de fundo, numa tentativa de adaptar o romance histórico às sensibilidades abstratas dos videojogos – e através de uma perspetiva muito assente nas influências anime – Dynasty Warriors propõe-se a retratar o caos e violência de um campo de batalha numa visão que se tornou única no género. E ao contrário dos simuladores de combate, onde exércitos são controlados pelo click e arrastar do rato, Dynasty Warriors também se propõe à pancadaria e ao caos através de cenários extensos, onde a escala é desafiada pela presença de dezenas ou até centenas de soldados em campo, com a ação a centrar-se nos seus heróis e nas suas habilidades super-humanas para dizimar tudo o que encontram à sua frente.
A perspetiva dura e cruel da guerra é assim substituída pelo espetáculo, onde o estilo Wushia colide com as sensibilidades melodramáticas de uma série de animação, onde um só general é capaz de derrotar 1000 soldados inimigos num só combate. Um general, munido de uma espada e dos seus aliados, transforma-se em Dynasty Warriors numa força sobrenatural, um tornado de lâminas e lanças imparável contra qualquer outro ser humano. A adaptação de Romance dos Três Reinos continua a ser um dos pontos altos da franquia e acredito que os fãs apreciem as diferenças entre títulos no que toca à sua abordagem ao material de origem – é possível ver como a direção das cinemáticas evoluiu ao longo de 20 anos de sequelas -, mas a jogabilidade é soberana em Dynasty Warriors e é através da sua simplicidade – dois tipos de ataques que se multiplicam por combinações simples e um ataque especial, intitulado Musou, para contra-atacar as hordas de inimigos com poderes de área – que a Koei Tecmo alcançou o ritmo perfeito entre combates de larga escala e a fantasia bélica em formato light.
Dynasty Warriors 3 foi, em 2001, um ponto de viragem para a série e o primeiro título da saga a solidificar o que é a experiência Musou. Se a primeira sequela definiu o ritmo de combate e a aposta em cenários extensos com dois enormes exércitos num confronto em tempo real, já Dynasty Warriors 3 adicionou novas combinações, um maior número de personagens, a possibilidade de criarmos equipas de guardas, com quem podemos melhorar a sua afinidade e que nos acompanham em combate, e uma maior fluidez de movimentos e ataques que tornaram a fórmula Musou no que é hoje. 25 anos depois, Dynasty Warriors 3 já não esconde as rugas que viriam a ser resolvidas pelas sequelas que se seguiram, especialmente na forma como gere as suas missões, os objetivos únicos e o ritmo dos seus confrontos, mas é interessante sentir como as mecânicas são infalíveis naquilo que o jogo quer proporcionar aos seus fãs: ação caótica, habilidades explosivas e a possibilidade de evoluirmos as personagens ao longo de vários níveis, campanhas e modos únicos.

Este regresso ao passado não é perfeito. Apesar da performance manter-se sólida até nos momentos mais exigentes e a versão remasterizada apresentar cenários e modelos mais detalhados com uma densidade de objetos decorativos que seria impossível em 2001, Dynasty Warriors 3 já demonstra a sua idade através da falta de maiores opções de personalização e de cenários que se mantém apenas funcionais e pouco mais. A remasterização melhorou o POV e o fog of war já não obstrói a ação, o slowdown não é uma constante e os efeitos visuais ganham uma nova vida com a passagem para o UE5, mas Dynasty Warriors 3 não foi reconstruido de raiz e as mecânicas mantêm-se idênticas. As combinações são arcaicas, a movimentação não é tão fluída e responsiva como deveria ser, e é muito fácil sermos cercados por inimigos e atirados pelos ares enquanto os frames de invencibilidade nunca são ativados. Estes problemas continuam presentes, o que poderá ser uma excelente notícia para os fãs do original, e acredito que a Omega Force procurou cristalizar a jogabilidade sem estragar o que já funcionava, mas esta nova edição tem, felizmente, melhores opções de defesa através de um perfect guard e perfect dodge que nos permitem contra-atacar qualquer inimigo em campo.
As melhorias e novidades são pontuais, e nem sempre são percetíveis ao longo das várias campanhas do jogo. As missões, por exemplo, continuam a seguir a mesma estrutura repetitiva do original, com a campanha a dividir-se por vários níveis, aqui até apelidados como “stages”, onde os objetivos nunca se afastam muito do esquema tradicional da série: eliminar um general inimigo, evitar que o nosso aliado seja derrotado. Apesar desta aparente simplicidade mecânica, Dynasty Warriors 3 continua a ser um jogo desafiante se não prestarem atenção aos inimigos à vossa volta. É muito fácil perder o controlo do conflito se escolhermos ataque diretamente os exércitos inimigos, ao ponto de ficarmos rodeados e sem saída. Estes picos de dificuldade traduziam-se em game overs automáticos na versão original, obrigando-nos a recomeçar um nível e a perder todo o progresso feito até ali. A nova versão dá aos jogadores uma nova opção de acessibilidade ao adicionar checkpoints ao longo dos níveis. Desta forma, já não há necessidade de voltarmos ao início de um nível se não quisermos, naquela que poderá ser uma decisão que pouco agradará aos fãs do original.

Com a inclusão da expansão Xtreme Legends, Dynasty Warriors 3 Complete Remastered apresenta vários modos adicionais que procuram dar aos jogadores uma maior variedade de atividades para concluírem na sua busca pelos 100%. Claro que esta variedade limita-se aos confrontos em grande escala, a jogabilidade nunca se transforma, mas estes modos são opções válidas para quem quiser evoluir as personagens e desbloquear todas as armas (que podem ser combinadas e melhoradas), itens e generais adicionais. Esta é a experiência clássica, a aura destilada de Dynasty Warriors num só jogo, antes das tentativas falhadas por open worlds e spin-offs incansáveis, o que torna esta remasterização num bom ponto de entrada.
Dynasty Warriors 3: Complete Edition Remastered pode ser cunhado de “mais do mesmo”, mas com orgulho. É a fórmula Musou num título de 2001, onde existem poucas surpresas à vossa espera. A ideia principal do jogo é proporcionar uma fantasia em formato de videojogo e é isso que Dynasty Warriors 3 é. Escolham uma personagem, atirem-se para qualquer uma das campanhas principais, tentem acompanhar a narrativa ou então desliguem a mente e destruam tudo à vossa volta. Por mais críticas que possamos lançar contra a cabeça oca de Dynasty Warriors, a verdade é que a experiência Musou é perfeita para o que quer ser. A jogabilidade pode ser pouco profunda, mas quando ativamos um ataque Musou e eliminamos dezenas de inimigos num só segundo, a satisfação é inigualável. A procura por generais, capitães e guardas através dos campos de batalha para termos acesso a pontos de atributos para melhorarmos permanentemente as personagens é sempre recompensadora, nem que seja por apenas uns minutos.
Cópia para análise (versão PlayStation 5) cedida pela Koei Tecmo.
